Saturday, March 21, 2020
ADEUS
Fiquem em paz, meus amigos,
fiquem em paz
Eu vou partir
convosco no coração
e a minha luta na cabeça.
Fiquem em paz,
amigos meus,
fiquem em paz.
Não quero ver-vos na praia
alinhados como aves num postal.
Não quero os vossos lenços a acenar, não, isso não.
Vejo-me inteiro nos olhos dos meus amigos.
Ó meus amigos
meus irmãos de luta
meus companheiros de trabalho
adeus sem uma palavra.
As noites vão fechar o ferrolho da porta
Os anos vão criar teias de aranha nas janelas
e eu cantarei na prisão a minha canção de combate.
Tornaremos a ver-nos, amigos, tornaremos a ver-nos.
Juntos, sorrindo, olharemos o sol
bater-nos-emos lado a lado.
Ó meus amigos
meus irmãos de luta
meus companheiros de trabalho
Adeus.
Nazim Hikmet
Sunday, March 08, 2020
REVOLUÇÃO E MULHERES
1. RECONSTITUIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO
Elas são quatro milhões, o
dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas
picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida
azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças.
Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e
fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que
hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de
piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham
adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por
mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em
agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida
que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de
gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os
currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o
fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez
meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a
pé e à chuva porque naquele bairro os macacos são caros. Elas correm
esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e
abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas
enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume.
Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de
linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o
alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama.
Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.
2. REPRODUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO
Elas vão à parteira que lhes
diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a
vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam
fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já
não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um
dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-lo para
que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher
romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora
debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a
gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam.
Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de
riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o
febrão não desce. Elas lavam os lençóis com urina. Elas abrem a risca do
cabelo, elas entrançam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de
cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos
de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão
escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro
sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da
melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas
vão à estação chorosas. Elas vêm trazer um borrego à primeira barraca e
ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.
3. PRODUÇÃO
Elas sobem para cima de um
caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descarnar o
peixe. Elas mondam, os dedos tolhidos de frieira e urtiga. Elas fazem
descer a lâmina de cortar o coiro. Elas sopram nos dedos a aquecê-los,
esfregam os olhos, voltam a pôr as mãos por detrás da lente a acertar os
fios da matriz do transistor. Elas espremem as tetas da vaca para o
balde apertado entre as pernas. Elas fecham num dia as pregas de papel
de mil pacotes de bolacha. Elas acertam em duzentos casacos a postura da
manga onde cravar o botão. Elas limpam o suor da testa com a manga e a
foice rebrilha ao sol por cima da cabeça e da seara. Elas ouvem a
matraca de dez teares enquanto a peça cresce diante, o fio amandado de
braço a braço aberto. Elas cortam os dedos nas primeiras vinte cinco
latas até calejar bem. Elas fazem a agulha passar para cá e lá em cruz
na tela do tapete. Elas vigiam a última fieira de garrafas, caladas, à
espera da sirene. Elas carregam o cesto de azeitona à cabeça já sem
cantar, até que o sol se ponha.
4. SERVIÇOS
Elas carregam no botão da
caixa e fazem quinhentos trocos miúdos. Elas metem a cavilha, dizem
outro número e passam a vigésima chamada. Elas mexem panelões que lhes
chegam à cinta. Elas descem doze caixotes de lixo já noite fechada. Elas
fazem todas as camas e despejos de uma família alheia. Elas picam
bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que
não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil fichas e vinte
e cinco ofícios. Elas vão outra vez buscar a gaveta das luvas para o
balcão a ver se há aquele verde. Elas aspiram do pó antes das nove doze
assoalhadas, e cento e dez degraus de alcatifa. Elas entram na praça
manhã cedo, já vindas do lota ajoujadas com o peixe para as bancadas.
Elas acertam as bainhas de joelhos, a boca cheia de alfinetes. Elas põem
trinta e duas arrastadeiras e tiram sessenta temperaturas. Elas pintam
unhas de homem. Elas guardam sanitas e fazem renda em pequenos cubículos
sem janela.
5. TRANSMISSÃO DE IDEOLOGIA
Coisas que elas dizem:
— Se mexes aí, corto-ta.
— Isso não são coisas de menina.
— O meu homem não quer.
— Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.
— A mulher quer-se é em casa.
— Isto já vai do destino de cada um.
— Deus não quis.
— Mas o senhor padre disse-me que assim não.
— Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.
— Você sabe que eu não sou dessas.
— Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.
— Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.
— Comprei uns jeans bestiais, pá.
— Sempre dá para uma televisão daquelas novas.
— Cada um no seu lugar.
— Julgas que ele depois casa contigo?
— Sempre há-de haver pobres e ricos.
— Se tu gostasses de mim não
andavas com aquela cabra a gastar o nosso.— Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.
— Sempre é homem.
6. PRODUÇÃO DE DESEJO
Elas olham para o espelho
muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas
travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola.
Elas limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando,
coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma
grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem
que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras
uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos
de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas
compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram
muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas
com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça
comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos
acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três
vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate.
Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm.
Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato
sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.
7. REVOLUÇÃO
Elas fizeram greves de
braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta.
Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário
igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Eles
foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas
gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à
sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à
rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas
ouviram faltar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas
choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas
choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e
não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias
das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava
dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma
mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas
grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo
pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os
cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como
é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de
casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na
mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam
e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o
pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as
bestas, os homens e as crianças adormecidas.
Dezembro 1975
Maria Velho da Costa, Cravo, Lisboa, Moraes Editores, 1976.
https://youtu.be/KC4DhlU8NbU
Friday, March 06, 2020
Tomar Partido
Tomar partido é irmos à raiz
do campo aceso da fraternidade
pois a razão dos pobres não se diz
mas conquista-se a golpes de vontade.
Cantaremos a força de um país
que pode ser a pátria da verdade
e a palavra mais alta que se diz
é a linda palavra liberdade.
Tomar partido é sermos como somos
é tirarmos de tudo quanto fomos
um exemplo um pássaro uma flor.
Tomar partido é ter inteligência
é sabermos em alma e consciência
que o Partido que temos é melhor.
Ary dos Santos
Arte poética
A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou praguejando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.
Mário Dionísio
Monday, March 02, 2020
Friday, February 21, 2020
Uma Pequenina Luz
Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha
Jorge de Sena
Sunday, February 16, 2020
Carlos Paredes
23 abril 2007
Galeria da Música Portuguesa: Carlos Paredes

GUITARRA (Carlos Paredes)
A palavra por dentro da guitarra
a guitarra por dentro da palavra.
Ou talvez esta mão que se desgarra
(com garra com garra)
esta mão que nos busca e nos agarra
e nos rasga e nos lavra
com seu fio de mágoa e cimitarra.
Asa e navalha. E campo de Batalha.
E nau charrua e praça e rua.
(E também lua e também lua).
Pode ser fogo pode ser vento
(ou só lamento ou só lamento).
Esta mão de meseta
voltada para o mar
esta garra por dentro da tristeza.
Ei-la a voar, ei-la a subir
ei-la a voltar de Alcácer Quibir.
Ó mão cigarra
mão cigana
guitarra guitarra
lusitana.
(Manuel Alegre – voz de Carmen Dolores)
Carlos Paredes nasceu em Coimbra, a 16 de Fevereiro de 1925. Filho de Artur Paredes, empregado bancário e guitarrista, por sua vez também descendente de exímios guitarristas de Coimbra, e de Alice Candeias Duarte Rosas, professora liceal, Carlos aprende a tocar guitarra portuguesa com o pai, com apenas 4 anos, embora a mãe preferisse que se dedicasse ao piano.
Em 1934, a família muda-se para Lisboa e Carlos conclui a instrução primária no Jardim-Escola João de Deus, começando também a ter aulas de violino e piano, mas não se adapta aos instrumentos. Carlos Paredes recorda: «Em pequeno, a minha mãe arranjou-me duas professoras de violino e piano. Eram senhoras muito cultas a quem devo a cultura musical que tenho. Passávamos horas a conversar e uma delas murmurava: "Não sei o que hei-de dizer aos seus pais". Mas aprendi muito com elas». (Jornal de Letras, 17.3.1992). Então, abandona o violino e o piano para se dedicar por inteiro, sob a orientação do pai, à guitarra. Carlos Paredes fala com saudades desses tempos: «Foi com o meu pai que eu aprendi a tirar da guitarra sons mais violentos, como reacção ao pieguismo langoroso a que geralmente a guitarra portuguesa estava ligada». E acrescenta: «Nesses anos, creio que inventei muita coisa. Criei uma forma de tocar muito própria que é diferente da do meu pai, do meu avô, bisavô e tetravô».
Em 1939, inicia colaboração regular no programa que o pai fazia na Emissora Nacional. Às vezes tinham desentendimentos musicais. Carlos Paredes recorda: «O meu pai chamava-me péssimo acompanhador, porque o fazia andar atrás de mim». Em 1943, termina os estudos secundários num colégio particular, depois de ter frequentado o Liceu Passos Manuel, e faz exame de admissão ao Curso Industrial do Instituto Superior Técnico, que não chega a concluir. Em 1949, torna-se funcionário administrativo do Hospital de S. José, com a categoria profissional de fiel de lavandaria (será promovido a escriturário de 1.ª classe, em 1953). Casa-se e nascem os filhos (terá seis), mas não pára de tocar guitarra, a sua grande paixão.
Se excluirmos as gravações de 1957 em que acompanha o seu pai – mas ainda sem as marcas expressivas que hoje lhe conhecemos – a primeira aparição conhecida em disco de Carlos Paredes acontece em 1958 como acompanhador à guitarra do cantor de Coimbra, Augusto Camacho Vieira, num EP intitulado "Fado de Coimbra", editado pela Valentim de Carvalho. Contando ainda com a participação de António Leão Ferreira à viola, esse EP inclui os seguintes temas: "A Água da Fonte" (Popular / Paulo de Sá), "Adeus a Coimbra" (Edmundo Bettencourt), "Quando os Sinos Dobram" (Eduardo Manuel Tavares de Melo) e "A Luz do Teu Olhar (Súplica)" (Augusto Camacho Vieira).
Em 1958, é preso pela PIDE, acusado de pertencer ao Partido Comunista Português, de que era de facto militante, e expulso da função pública. Durante os 18 meses em que esteve detido, primeiro no Aljube e depois na prisão de Caxias, andava de um lado para o outro na cela fazendo os gestos de quem toca guitarra, o que levou os companheiros de cárcere a pensar que estaria louco. De facto, o que ele estava a fazer, era a compor músicas mentalmente, como lembra Severiano Falcão, que também se encontrava preso na altura. É libertado no final de 1959, e passa a exercer a profissão de delegado de propaganda médica.
Em 1960, música sua é utilizada na curta-metragem de Cândido da Costa Pinto "Rendas de Metais Preciosos". Com algum nome e carreira atrás de si, Carlos Paredes, edita finalmente, em 1962, o seu primeiro disco a solo, um EP intitulado "Carlos Paredes", com chancela da Alvorada. Com acompanhamento à viola de Fernando Alvim, o disco inclui os seguintes temas: "Variações em Si Menor", "Serenata", "Variações em Lá Menor" e "Danças Portuguesas n.º 1". Nesse mesmo ano, é convidado pelo realizador Paulo Rocha (por recomendação do produtor António da Cunha Telles), para compor a banda sonora do filme "Os Verdes Anos" (estreado comercialmente em Novembro de 1963), cujos temas – "Despertar", "Raiz", "Acção" e "Frustração" – serão publicados em EP, pela Alvorada, no início de 1964. Paulo Rocha lembra: «Ele [Carlos Paredes] leu a história e compôs a música antes de eu filmar, uma música impressionante, e quando eu estava a rodar já tinha a música na minha cabeça. Fiquei com suores frios quando a ouvi». Carlos Paredes fala assim desse trabalho: «Muitos jovens vinham de outras terras para tentarem a sorte em Lisboa. Isso tinha para mim um grande interesse humano e serviu de inspiração a muitas das minhas músicas. Eram jovens completamente marginalizados, empregadas domésticas, de lojas. Eram precisamente essas pessoas com quem eu simpatizava profundamente, pela sua simplicidade».
Nos anos seguintes, continuará a sua colaboração musical no cinema, quer cedendo músicas já gravadas quer compondo de raiz as bandas sonoras: "P.X.O." (1962, curta-metragem de Pierre Kast e Jacques Doniol-Valcroze), "Fado Corrido" (1964, filme de Jorge Brun do Canto), "As Pinturas do Meu Irmão Júlio" (1965, curta-metragem de Manoel de Oliveira), "Mudar de Vida" (1966, filme de Paulo Rocha), "Crónica do Esforço Perdido" (1966, curta-metragem de António de Macedo), "A Cidade" (1968, curta-metragem de José Fonseca e Costa), "Tráfego e Estiva" (1968, curta-metragem de Manuel Guimarães), "The Columbus Route" (1969, curta-metragem de José Fonseca e Costa), "Na Corrente" (1969, documentário televisivo de Augusto Cabrita), "Hello Jim!" (1970, curta-metragem de Augusto Cabrita). Carlos Paredes, com a sua música visceralmente portuguesa, fica assim indelevelmente ligado ao cinema novo português. Diga-se, a título de curiosidade, que o próprio Pier Paolo Pasolini, depois de assistir a um concerto de Carlos Paredes em Bolonha, em Setembro de 1974, virá a fazer-lhe um convite para compor a música de um filme, projecto que não se viria a concretizar devido à morte do realizador, no ano seguinte.
Em Outubro de 1966, Carlos Paredes grava para a Valentim de Carvalho o seu primeiro LP, intitulado "Guitarra Portuguesa", nos estúdios de Paço d'Arcos, com acompanhamento à viola de Fernando Alvim. O disco marca igualmente a primeira colaboração com Hugo Ribeiro, o engenheiro de som que, anos mais tarde, Carlos Paredes diria ter sido o único a saber captar o som da sua guitarra. Hugo Ribeiro fala assim dessa experiência: «Eu ouvia-o e pensava: mas como é que é possível? Eu não percebia como é que ele tirava da guitarra aquele som todo... era a força com que ele tocava, e nem lhe saía uma nota desafinada. Era extraordinário!». Dos 11 temas do álbum merecem destaque: "Melodia n.º 2", "Dança" e "Canção Verdes Anos", talvez o tema mais emblemático de toda a sua produção. O álbum, lançado em 1967, contém um texto do francês Alain Oulman, célebre compositor de Amália Rodrigues, de que transcrevo as seguintes palavras: «A música de Carlos Paredes exprime, a meu ver, mais do que nenhuma outra, a terra e as gentes de Portugal. É intemporal, como a de Theodorakis quando canta a Grécia, como, aliás, deve ser a verdadeira música. Não se pode catalogar a música de Carlos Paredes, nem determinar as suas origens – uma possível influência de música barroca que não esconde a voz pessoal de um homem que ama o seu país profundamente, que se não envergonha de o confessar e que o faz com delicadeza e força viril. A primeira vez que o ouvi tocar foi em casa de Amália Rodrigues que também nunca o ouvira anteriormente. Ficámos todos desfeitos. Amália chorava e dizia que só lhe apetecia bater-lhe – reacção muito frequente nela quando se sente comovida pelo virtuosismo de alguém; nenhum de nós compreendia porque não era ele mais conhecido, pelo menos em Portugal. (...) Com este primeiro LP, possa a "voz" de Carlos Paredes ir longe, bem longe, pois ele canta Portugal com sinceridade absoluta, sem peias, com amor e compreensão que dele fazem um grande e raro artista onde a mediocridade não encontra abrigo».
Do álbum serão retirados, no ano seguinte, três EP: "Romance n.º 2", "Fantasia" e "Porto Santo". Ainda em 1967, ao lado de João Figueiredo Gomes (viola), acompanha à guitarra o cantor Luiz Goes, em três temas do LP "Coimbra de Ontem e de Hoje": "No Calvário" (Fausto José / José Paes de Almeida e Silva), "Canção da Infância" (Armando Goes) e "Balada do Mar" (Luiz Goes).
Em 1969, participa como acompanhador à guitarra e à viola num álbum que em Ary dos Santos diz poemas dele próprio, de D. Dinis, de Camões, entre outros.
Em Outubro de 1970, Carlos Paredes participa como produtor, director musical e acompanhador no LP "Meu País", da cantora Cecília de Melo, sua companheira durante alguns anos, e de quem é o único registo conhecido. O álbum, gravado nos Estúdios de Paço d'Arcos por Hugo Ribeiro e editado pela Decca, é constituído por seis peças tradicionais arranjadas por Paredes e seis melodias originais do guitarrista sobre poemas de Manuel Alegre, Mário Gonçalves e Carlos de Oliveira. Uma delas, "O Render dos Heróis", fora escrita para a encenação da peça homónima de José Cardoso Pires.
Em 1971, compõe a música para a peça de Augustin Cuzzani, "O Avançado Centro Morreu ao Amanhecer", levada à cena pelo Grupo de Teatro de Campolide, e fica igualmente responsável pela escolha da música para as produções do grupo, até 1977.
Em Agosto de 1971, Carlos Paredes grava o seu segundo LP, "Movimento Perpétuo", para a Valentim de Carvalho, com o técnico de som Hugo Ribeiro. Conta com as participações musicais de Fernando Alvim no acompanhamento à viola e de Tiago Velez em flauta (nas duas composições do filme "Mudar de Vida" – tema e música de fundo). Deste magnífico álbum, lançado em Novembro de 1971, fazem ainda parte peças tão sublimes como "Danças Portuguesas n.º 2", "Variações Sob Uma Dança Popular", "António Marinheiro", "Canção" e "Valsa", esta da autoria do seu avô Gonçalo. Diz o próprio Carlos Paredes: «Meu avô, Gonçalo Paredes, é, pode dizer-se, um representante dessa tradição (iniciada por António da Silva Leite, nos fins do século XVIII). A segunda parte da sua valsa, incluída neste disco, foi-lhe acrescentada por meu pai, Artur Paredes, o original renovador da chamada guitarra de Coimbra. São, aliás, influências de ambos, de mistura com propensão pessoal para o virtuosismo e o melodismo de sugestão violinística, que marcam as minhas mais antigas realizações: "Movimento Perpétuo", "Variações em Mi Menor", "Variações em Ré Menor" e "Danças Portuguesas"».
Em Dezembro de 1971, será também editado o single "Balada de Coimbra", com os temas "Balada de Coimbra" (José Eliseu, arr. de Artur Paredes) e "O Fantoche" (Carlos Paredes) gravados nas sessões de "Movimento Perpétuo", mas não incluídos no álbum. Deste, no ano seguinte, são retirados três EP: "Movimento Perpétuo", "Mudar de Vida" e "António Marinheiro".
Em Abril de 1973, Carlos Paredes entra novamente em estúdio para gravar o seu terceiro LP para a Valentim de Carvalho, mas as gravações são interrompidas devido à lendária relutância do músico em estar fechado num estúdio e à sua conhecida auto-exigência de perfeccionista, ficando no entanto terminadas algumas músicas. É o próprio músico que confessa: «A dar espectáculos nunca me tenho recusado, mas gravar... Tenho tendência para pensar que daqui a 3 meses toco melhor do que hoje.» Hugo Ribeiro conta: «Quando entrávamos para estúdio, o Paredes dizia sempre que íamos fazer experiências, nunca era para gravar! "Vamos ver, se calhar, talvez…", dizia ele, e ficávamos sempre em suspenso, com a sessão adiada para o dia seguinte. O Paredes tocava por ali fora, e no outro dia vinha ouvir. E depois dizia-me: "Oh Ribeiro, você tinha razão! Aquilo ficou bem!" Ele entusiasmava-se a tocar. Aquela força anímica era fenomenal».
Após o 25 de Abril de 1974, quando se dá a libertação dos presos políticos, muitos deles são tratados como heróis nacionais. No entanto, Carlos Paredes recusa esse estatuto. Sobre o tempo em que esteve preso nunca gostou muito de falar. Dizia: «há pessoas que sofreram mais do que eu!». É reintegrado no quadro do Hospital de São José (onde permanecerá até à aposentação, em Novembro de 1986), com as funções de arquivista de radiografias, vindo depois a ser promovido a chefe de secção. Uma das colegas de trabalho, Rosa Semião, recorda-se da mágoa que o guitarrista sentia devido à denúncia de que fora alvo: «Para ele foi uma traição, ter sido denunciado por um colega de trabalho do hospital. E contudo, mais tarde, ao cruzar-se com o homem que o denunciou, não deixou de o cumprimentar, revelando uma enorme capacidade de perdoar!». Percorre o país, actuando em sessões culturais, musicais e políticas em simultâneo, mantendo sempre uma postura de grande simplicidade e humildade. Comenta Octávio Fonseca Silva: «Por estranho que pareça, até 1984 não realizou um único concerto em Portugal sob a sua exclusiva responsabilidade. Parece algo anedótico mas, para ser devidamente reconhecido no seu país teve de dar provas do seu talento no Olympia de Paris, na Ópera de Sydney, na Exposição Mundial de Osaka e em tantas outras grandes salas do mundo». Carlos Paredes, mais tarde, dirá: «Para se fazer música com prazer tem muita importância a amizade entre as pessoas. Não se pode fazer música friamente e com cálculo, profissionalmente, no mau sentido da palavra, a receber xis à hora. Não pode ser assim». (Se7e, 16.03.1988). Quando o criticavam, por ir para o emprego de autocarro e de Metro, dizia: «Não percebem que se eu não andasse em contacto com as pessoas não fazia as músicas que faço.» Em 1990, acrescentará: «As pessoas gostam de me ouvir tocar guitarra, a coisa agrada-lhes e elas aderem. Não há mais nada.» E confessa: «Já me tem sucedido fazer as pessoas chorar enquanto eu toco... E eu não compreendia isto, mas depois percebi que é a sonoridade da guitarra, mais do que a música que se toca ou como se toca, que emociona as pessoas.» (Público, 20.3.1990).
Em Julho de 1974, Carlos Paredes participa, como acompanhador (guitarra portuguesa, viola de fabrico popular e citolão - uma guitarra portuguesa modificada para abranger simultaneamente as escalas da guitarra portuguesa e da guitarra clássica), no álbum "É Preciso Um País", onde o poeta Manuel Alegre diz poemas de sua autoria. Em 1975, Carlos Paredes colabora também com Adriano Correia de Oliveira no álbum "Que Nunca Mais": a marca inconfundível da sua guitarra está bem patente nos temas "Tejo Que Levas as Águas" e "Recado a Helena".
No mesmo ano, retoma as sessões de gravação para a Valentim de Carvalho interrompidas dois anos antes, mas durante o pouco tempo que está em estúdio apenas regrava algum do material já terminado. O disco ficará de novo por acabar.
Em 1977, uma compilação de Carlos Paredes, intitulada "Meister der Portugiesischen Gitarre", é publicada na então na Alemanha de Leste, pela editora Amiga.
Em 7 de Maio de 1980, estreia-se no Bobino em Paris, acompanhado por Fernando Alvim, na primeira parte de Paco Ibañez, actuação que se prolongará por três semanas. Nesse ano, Carlos Paredes regrava na RDA, com acompanhamento de Carlos Alberto Moniz à viola, o material já gravado em 1973 para a Valentim de Carvalho num álbum intitulado "O Oiro e o Trigo". A edição é feita sem o conhecimento da Valentim de Carvalho, o que leva à ruptura da editora com o artista.
Em 1982, o bailarino Vasco Wellenkamp coreografa música de Carlos Paredes no bailado "Danças para Uma Guitarra". O guitarrista toca ao vivo no palco do Ballet Gulbenkian e parte com ele em digressões pelo mundo. Apaixona-se pela dança: «Já não vou conseguir pensar na música da mesma maneira; a música não está apenas na pauta e nos nossos dedos», diz Paredes a Alice Vieira. «Os bailarinos respiram a música que se toca. Às vezes penso neles como instrumentos de alta precisão.»
Em 1983, é publicado o álbum "Concerto em Frankfurt", gravado ao vivo na Ópera daquela cidade alemã, constituído por bastante material nunca editado em disco (incluindo os seis temas completos nas gravações de estúdio de 1973, se bem que renomeados e com algumas alterações na estrutura). Trata-se de um dos raros registos em palco da carreira do guitarrista e foi gravado sem o conhecimento do músico. Em entrevistas posteriores, o próprio Paredes confessaria que tal decisão acabou por ser pelo melhor – o nervosismo de saber que estava a ser gravado poderia ter afectado a sua performance. É o primeiro disco de Carlos Paredes para a PolyGram, editora com a qual assinou contrato depois da sua saída da Valentim de Carvalho. A edição de "Concerto em Frankfurt" acaba por inviabilizar a edição projectada, pela EMI-Valentim de Carvalho, de "A Montanha e a Planície", um álbum que deveria disponibilizar alguns dos temas que Carlos Paredes gravara em 1973, mas que surgem entretanto registados ao vivo. Em substituição, são reeditados, em duplo-álbum, "Guitarra Portuguesa" e "Movimento Perpétuo", pouco antes do Natal. Ainda em 1983, Carlos Paredes participa no álbum de Carlos do Carmo, "Um Homem no País", compondo e acompanhando à guitarra o "Fado Moliceiro" (poema de Ary dos Santos).
Em Outubro de 1986, é editado pela Polygram, o LP "Invenções Livres", um álbum de improvisações em duo com o pianista António Victorino d'Almeida, gravado por José Manuel Fortes. O encontro entre a guitarra de Paredes e o piano de Victorino d'Almeida resulta num trabalho brilhante e surpreendente, que obtém a aclamação da crítica. O pianista explica: «Carlos Paredes e eu não nos sujeitámos a qualquer espécie de esquema harmónico, rítmico ou formal previamente estabelecido, mas a ideia condutora das "invenções" que – em total liberdade – produzimos, consubstancia-se no diálogo, na atenção, na busca conjunta de uma verdade musical capaz de sobrepor à mera exploração das vozes dos instrumentos ou à originalidade da sua fusão. Pretendemos fazer música, encarando-a como linguagem transmissora de ideias e não como álibi para malabarismos de viciado individualismo».
Em Fevereiro de 1988, sai, pela PolyGram, o álbum "Espelho de Sons", gravado no ano anterior por José Manuel Fortes, e com produção de Tozé Brito, tendo o acompanhamento sido repartido entre Luísa Maria Amaro (viola de cordas de nylon) e Fernando Alvim (viola de cordas de metal). Agrupando as músicas por séries temáticas (Coimbra e o Mondego / Os Amadores / A Canção / O Teatro / Lisboa e o Tejo / A Dança / A Mãe e o Lar / Contrates), Carlos Paredes reutiliza muito do material gravado no "Concerto de Frankfurt" e mesmo composições mais antigas. É o caso de: "Serenata" surgida no primeiro EP a solo (1962), “Verdes Anos” (1963 e 1966), “O Fantoche” (1971) e "Canção de Alcipe", tema alusivo à Marquesa de Alorna criado por Afonso Correia Leite e Armando Rodrigues para a banda sonora do filme "Bocage" (1936), de Leitão de Barros, que fora originalmente gravado em 1971 mas só editado em 1996 (no CD “Na Corrente”). O álbum entra directamente para o 3.º lugar do top oficial de vendas e virá a ser premiado com um Se7e de Ouro (atribuído pelo Jornal Se7e), na categoria de música popular/tradicional. Em Setembro, uma nova compilação de material inédito de Carlos Paredes é cancelada pela EMI-Valentim de Carvalho. O álbum deveria chamar-se "Salvados", título sugerido pelo próprio Carlos Paredes para reflectir o facto de as gravações serem 'restos' de sessões de estúdio, e também jogando com a sua condição de 'sobreviventes' do incêndio do Chiado que, em 25 de Agosto, destruíra parte dos arquivos da Valentim de Carvalho na Rua Nova do Almada.
Em 1989, o tema "Dança" (do álbum "Guitarra Portuguesa") é escolhido por Paul McCartney para música ambiente da sua digressão mundial.
Ainda em 1989, sai um novo disco de Carlos Paredes, com o título "Asas Sobre o Mundo", em edição especialmente concebida para a TAP Air Portugal (terá lançamento comercial em 1991). O disco é constituído com o material de "Espelho de Sons" e inclui ainda dois temas inéditos, dedicados pelo autor à transportadora aérea portuguesa – "Asas Sobre o Mundo" e "Nas Asas da Saudade".
Em Janeiro de 1990, retomando o conceito de improvisações em dueto, Carlos Paredes grava com o contrabaixista de jazz Charlie Haden, o álbum "Dialogues", para a Polydor. O disco, gravado em Paris, tem a marca de génio de dois grandes músicos mas o diálogo entre os instrumentos é algo desanimador, sobretudo quando comparado com o resultado alcançado em "Invenções Livres". Em 26 de Maio, os músicos voltam a encontrar-se, em concerto no Coliseu de Lisboa, pretexto que a RTP aproveita para a realização de um documentário.
No mês de Dezembro seguinte, Carlos Paredes assina contrato com a EMI-Valentim de Carvalho, regressando à casa onde gravara os seus momentos mais emblemáticos. Inicia, pouco depois, as gravações de material original para um novo álbum, mas as sessões serão suspensas devido à doença, do foro neurológico, que acometerá o guitarrista. Em 30 de Abril de 1991, Carlos Paredes e Luísa Amaro, sua acompanhadora à viola e companheira na vida (desde 1984), participam como convidados especiais no concerto dos Madredeus no Coliseu de Lisboa, de que resultará o duplo CD "Lisboa", editado em 1992. Para a ocasião, Pedro Ayres Magalhães escreveu uma letra inédita para a música de Paredes "Canto de Embalar". Em palco, Carlos Paredes interpretou "Mudar de Vida" e acompanhou o grupo, primeiro, na sua versão de "Canto de Embalar" e, depois, no original dos Madredeus "O Navio".
Em 20 e 21 de Março de 1992, Carlos Paredes regressa aos palcos, em dois concertos no Teatro de São Luiz filmados pela RTP em alta definição. Nos espectáculos, nos quais são estreados quatro novos temas compostos para o novo álbum, Paredes é acompanhado à viola por Luísa Amaro e Fernando Alvim, e participam como convidados Manuel Paulo, Natália Casanova e Nuno Guerreiro em "Cantiga do Maio" (de José Afonso), Mário Laginha em "Porto Santo", Rui Veloso em "Porto Sentido" e o flautista Paulo Curado em "Mudar de Vida". Os concertos serão repetidos a 25 no Teatro Rivoli, no Porto.
A EMI-Valentim de Carvalho reedita em CD uma compilação temática (originalmente editada em 1973) reunindo temas de Carlos Paredes, José Afonso e Luiz Goes. Os temas de Carlos Paredes foram extraídos do seu primeiro álbum, "Guitarra Portuguesa", e são: "Variações em Ré Maior", "Divertimento", "Canção Verdes Anos", "Melodia nº2" e "Fantasia".
Em Dezembro de 1993, é diagnosticada a Carlos Paredes uma mielopatia (hérnias na medula) que lhe prende os movimentos, impossibilitando-o de manejar a guitarra. Fica internado no Fundação-Lar Nossa Senhora da Saúde, em Campo de Ourique, Lisboa. Tinha agendado encontros com o Kronos Concert, com Ravi Shankar e até com Astor Piazzola. «Acho que adoeceu na altura errada», lamenta Luísa Amaro.
Em 1994, Carlos Paredes é distinguido com o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.
Em Dezembro de 1996, a EMI-VC publica "Na Corrente", compilação que reúne todo o material inédito que Carlos Paredes gravara para a Valentim de Carvalho até 1980, ano em que saiu da editora: os seis temas que haviam ficado completos nas sessões de gravação de 1973 ("A Montanha e a Planície", "Dança dos Montanheses", "Dança dos Camponeses", "Os Senhores da Terra", "Em Memória de Uma Camponesa Assassinada" e "Sede e Morte"), os dois temas do single "Balada de Coimbra / O Fantoche", publicado em 1971 e nunca incluídos em LP, e duas gravações inéditas, "Canção de Alcipe" e "Na Corrente", esta última o único registo em que Carlos Paredes tocou viola a solo. O álbum atinge rapidamente o top-20 oficial de vendas de álbuns, da Associação Fonográfica Portuguesa. Ao ouvir os belos temas que constituem este disco, uma interrogação me interpela: quantas composições geniais se terão perdido (ou que não chegaram a nascer, para ser mais preciso), quando Carlos Paredes, no auge das suas faculdades criativas, ocupava muito do seu tempo a desempenhar banais funções administrativas num hospital e a fazer inúmeras actuações no país e no estrangeiro? É caso para dizer que ganharam aqueles que tiveram o privilégio de o ouvir ao vivo, mas ficou a perder a posteridade que só pode fruir da sua arte graças às gravações.
Em Março de 2000, é editada pela Mundo da Canção, uma biografia intitulada "Carlos Paredes: A Guitarra de um Povo", da autoria do crítico musical Octávio Fonseca Silva, com a colaboração fotográfica de Luís Paulo Moura. O livro inclui ainda textos de vários especialistas, o pensamento musical de Paredes, além de um dossier documental com artigos sobre o músico e partituras manuscritas.
Em Dezembro de 2000, é lançado o seu derradeiro trabalho de inéditos, de título genérico "Canção Para Titi", com nove composições, entre as quais figuram "Uma Canção Para Minha Mãe", "Canção Para Titi", "Mar Goês", "Arcos de Jardim" e "Arco de Almedina". O material fora gravado em 1993, quando o músico já se sentia afectado pela doença. Diz o musicólogo Rui Vieira Nery, consultor da edição: «Da experiência da audição concentrada e seguida de todo o material disponível, dos takes interrompidos às sucessivas versões integrais de cada peça, depressa me ficou, contudo, uma sensação de enorme felicidade. Apesar da luta desesperada evidente que Carlos Paredes travava consigo próprio naquelas sessões de 1993 e das limitações técnicas incontornáveis a que a doença já então o submetia, a sua Música impunha-se com uma força verdadeiramente mágica logo a partir dos primeiros compassos – pujante de inspiração e de rasgo, deslumbrante no seu lirismo inconfundível. Lá estava aquele impulso rítmico único, partindo das anacrusas iniciais suspensas no tempo para depois se despenharem no seu tempo forte de resolução e lançarem a partir daí frases longas e ondulantes, sempre ao sabor de uma dicção musical perfeita. Lá estavam aquelas tonalidades menores carregadas de melancolia, salpicadas aqui e além de traços modais e de passagens cromáticas que tornavam o desenrolar da melodia num mistério sempre imprevisível. Lá estava, mesmo que agora por vezes transformado num grito de pássaro ferido, aquele som intenso, vibrado, plangente, e lá estava até, aqui e além, ainda que dramatizado pelo esforço transparecente, um virtuosismo ocasional ainda surpreendente na sua musicalidade inteligente. (...) É de sublinhar muito em particular a maneira como esta Música, privada de um virtuosismo que pudesse valer por si para lá de qualquer outra lógica de construção musical, se depura de tudo o que não é essencial para assentar apenas numa inspiração concentrada onde nada é acessório. E chama-nos também a atenção o modo como Paredes parece regressar aqui a um universo que é o das suas reminiscências de infância, evocando as figuras tutelares da Mãe e da Tia, os espaços familiares da Coimbra da sua meninice, e mesmo, de alguma forma, os sons tradicionais das baladas de Artur e Gonçalo Paredes, seu Pai e seu Avô, tudo isto com um olhar melancólico mas cheio de serenidade que nem a tensão dolorosa que marca alguns momentos da sua execução consegue perturbar. Por tudo isto seria imperdoável que o que constitui verdadeiramente o testamento musical de Carlos Paredes não saísse a público, como documento artístico e humano de uma força emocional rara, para nos dar esta visão final que fecha o círculo de um meio século de carreira. Uma carreira que nos ajudou como poucas neste século a reencontrarmo-nos connosco próprios e com a nossa identidade de portugueses.»
Em Fevereiro de 2003, assinalando os 10 anos sobre o retiro forçado de Carlos Paredes, a EMI-VC lança a sua obra completa sob o título "O Mundo Segundo Carlos Paredes", numa caixa com 8 CD, acompanhada de uma biografia. Além dos temas a solo e das improvisações em dueto, a edição contém também o repertório de outros intérpretes em que Carlos Paredes participou como instrumentista – Augusto Camacho Vieira, Luiz Goes, Ary dos Santos, Cecília de Melo, Manuel Alegre, Adriano Correia de Oliveira, Carlos do Carmo e Madredeus.
Em Junho de 2003, é lançado pela Universal um disco de homenagem intitulado "Movimentos Perpétuos: Música para Carlos Paredes", projecto que conta com a participação de nomes tão diferentes como António Pinho Vargas, Gabriel Gomes, Rodrigo Leão, Ricardo Rocha, Mísia, Ana Sofia Varela, José Eduardo Rocha, Carlos Bica, Mário Laginha, Maria João, Gaiteiros de Lisboa, Dead Combo, Sam The Kid, entre outros. A guitarra portuguesa chega assim, e de uma só vez, aos universos do jazz, do fado, da música tradicional, da electrónica e do 'hip hop', dando continuidade a uma preocupação que Carlos Paredes sempre teve presente enquanto músico – a transposição de barreiras invisíveis. Ainda em matéria de tributos, merecem referência o músico Pedro Jóia que em Fevereiro de 2001 gravou, para a Farol Música, o CD "Variações Sobre Carlos Paredes" com versões em guitarra clássica de nove temas do compositor de "Verdes Anos", e a fadista Mísia com o álbum "Canto" (Warner Jazz France, 2003) composto por canções expressamente escritas para músicas de Carlos Paredes, quase todas pelo poeta Vasco Graça Moura.
Carlos Paredes vem a falecer em Lisboa, a 23 de Julho de 2004, aos 79 anos de idade. O Governo decreta um dia de luto nacional. «Portugal teve no Carlos Paredes a genialidade, sensibilidade, poder de composição, uma belíssima técnica, e interpretação. Ele cumpriu os pontos que tinha a cumprir nesta passagem pela Terra», disse Luísa Amaro. E acrescentou: «Era um homem muito bom e muito simples, que deu uma contribuição muito grande para a cultura portuguesa». O cantor Luís Cília, que acompanhou Carlos Paredes como amigo e como profissional em vários recitais, faz votos de que «a guitarra do Paredes fique e seja para sempre lembrada». «Conheci o Paredes quando cheguei de Paris e uma das coisas que me chocou foi que um homem com o seu génio não vivesse da sua arte», acrescentou Luís Cília à agência Lusa, lamentado que, em Portugal, artistas como Carlos Paredes «não vivam no paraíso que os merece».
Em 2006, o cineasta Edgar Pêra realiza o documentário "Movimentos Perpétuos: Tributo a Carlos Paredes", editado em DVD.
«A música que faço é um produto das circunstâncias imediatas do tempo em que eu vivo, e passará a ser encarada de outra forma quando essas circunstâncias desaparecerem. É uma coisa que, se perdurar graças aos discos, ficará apenas com o valor de documento, como acontece com toda a pequena música, desde os Beatles ao Manuel Freire. E já ficarei muito orgulhoso se, daqui a muitos anos, puder ser entendido como um compositor que se integrava bem nos acontecimentos desta época...» (Se7e, 5.10.1983). Na verdade, a música de Carlos Paredes, como acontece com toda a grande arte, tem na sua essência a marca da intemporalidade (como disse Alain Oulman) e ficará como um dos mais autênticos testemunhos musicais da portugalidade, a par dos mais sublimes fados de Amália Rodrigues.
Discografia:
- Fado de Coimbra (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1958) (com Augusto Camacho Vieira)
- Carlos Paredes (EP, Alvorada, 1962)
- Guitarradas Sob o Tema do Filme Verdes Anos (EP, Alvorada, 1964)
- Guitarra Portuguesa (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1967, 1983; CD, EMI-VC, 1987, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
- Romance n.º 2 (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1968)
- Fantasia (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1968)
- Porto Santo (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1968)
- Espiral Op. 70 (LP, Espiral/Decca, 1969) (com Ary dos Santos)
- Meu País (LP, Decca, 1970) (com Cecília de Melo)
- Movimento Perpétuo (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1971, 1983; CD, EMI-VC, 1988, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
- Balada de Coimbra / O Fantoche (single, Columbia/Valentim de Carvalho, 1971)
- Movimento Perpétuo (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1972)
- Mudar de Vida (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1972)
- António Marinheiro (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1972)
- Carlos Paredes / Artur Paredes (LP, Alvorada, 1972) (seis temas de Carlos Paredes, na face A + seis temas de Artur Paredes, na face B)
- Carlos Paredes / José Afonso / Luiz Goes (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1973; CD, EMI-VC, 1992, "Encontros Em Coimbra", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) (compilação colectiva)
- É Preciso Um País (LP, col. A Voz e o Texto, Decca/Valentim de Carvalho, 1974; CD, EMI-VC, 1994) (com Manuel Alegre)
- Meister der Portugiesischen Gitarre (LP, Amiga/RDA, 1977) (compilação)
- O Oiro e o Trigo (LP, Amiga/RDA, 1980)
- Concerto em Frankfurt (LP, Philips/PolyGram, 1983; CD, Philips/PolyGram, 1990)
- Invenções Livres (LP, Philips/PolyGram, 1986; CD, Philips/PolyGram, 1994) (com António Victorino d'Almeida)
- Espelho de Sons (LP/CD, Philips/PolyGram, 1988)
- Asas Sobre o Mundo (CD, Philips/PolyGram, 1989; LP, Philips/PolyGram, 1990)
- Dialogues (LP/CD, Polydor, 1990) (com Charlie Haden)
- Carlos Paredes [e] Artur Paredes, col. O Melhor dos Melhores, vol. 36 (CD, Movieplay, 1994) (reúne o repertório dos dois primeiros EPs a solo de Carlos Paredes e de um EP de Artur Paredes, editado em 1957)
- Na Corrente (CD, EMI-VC, 1996, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
- O Melhor de Carlos Paredes: Guitarra (CD, EMI-VC, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) (compilação)
- Carlos Paredes [e] Artur Paredes, col. Clássicos da Renascença, vol. 72 (CD, Movieplay, 2000) (mesmo conteúdo do CD da col. O Melhor dos Melhores)
- Canção Para Titi - Os Inéditos de 1993 (CD, EMI-VC, 2000)
- Uma Guitarra com Gente Dentro: Antologia (CD, Universal, 2002) (compilação)
- Os Verdes Anos de Carlos Paredes: As Primeiras Gravações a Solo 1962-1963 (CD, Movieplay, 2003) (reúne o repertório dos dois primeiros EPs em nome próprio, editados pela Alvorada)
- O Mundo Segundo Carlos Paredes: Integral 1958-1993 (Livro/8CD, EMI-VC, 2003)
1. Despertar
2. Na Corrente
3. Danças
4. As Mãos
5. Improvisos
6. Asas
7. Diálogos
8. Memórias
- Uma Guitarra Portuguesa (DVD, RTP/Immortal, 2006) (gravado no São Luiz, em 1992)
- Antologia 62/89 (2CD, Universal, 2007)
- A Voz da Guitarra (2CD, Universal, 2010) (compilação)
[acrescentada em 23-Jul-2014]
Fontes:
- Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa, dir. Luís Pinheiro de Almeida e João Pinheiro de Almeida, Círculo de Leitores, 1998
- Literatura inclusa na discografia de Carlos Paredes
- Página http://puxapalavrainextenso.blogspot.com/2004/07/carlos-paredes-morreu-biografia-e.html
Propostas para a 'playlist' da RDP-Antena 1 (e Antena 3):
(por ordem alfabética)
- A Montanha e a Planície (in "Concerto em Frankfurt" / "Na Corrente")
- Acção (in "O Melhor de Carlos Paredes: Guitarra")
- António Marinheiro (in "Movimento Perpétuo")
- Balada de Coimbra (in "Na Corrente")
- Canção de Alcipe (in "Na Corrente")
- Canção Verdes Anos (in "Guitarra Portuguesa")
- Canto de Embalar (in "Concerto em Frankfurt" / "Asas Sobre o Mundo")
- Canto de Rua (in "Concerto em Frankfurt" / "Asas Sobre o Mundo")
- Canto do Amanhecer (in "Concerto em Frankfurt" / "Asas Sobre o Mundo")
- Canto do Rio (in "Concerto em Frankfurt")
- Dança (in "Guitarra Portuguesa")
- Dança dos Camponeses (in "Concerto em Frankfurt" / "Na Corrente" / "Asas Sobre o Mundo")
- Dança dos Montanheses (in "Na Corrente")
- Dança Palaciana (in "Concerto em Frankfurt")
- Danças Portuguesas n.º 1 (in "O Melhor de Carlos Paredes: Guitarra")
- Danças Portuguesas n.º 2 (in "Movimento Perpétuo")
- Em Memória de Uma Camponesa Assassinada (in "Na Corrente")
- Fado Moliceiro (in "Asas Sobre o Mundo")
- In Memoriam (in "Concerto em Frankfurt")
- Melodia n.º 2 (in "Guitarra Portuguesa")
- Mudar de Vida - tema (in "Movimento Perpétuo")
- Mudar de Vida - música de fundo (in "Movimento Perpétuo")
- Nas Asas da Saudade (in "Asas Sobre o Mundo")
- O Fantoche (in "Na Corrente")
- Os Senhores da Terra (in "Na Corrente")
- Sede (in "Concerto em Frankfurt" / "Asas Sobre o Mundo")
- Sede e Morte (in "Na Corrente")
- Serenata (in "O Melhor de Carlos Paredes: Guitarra")
- Serenata no Tejo (in "Asas Sobre o Mundo")
- Valsa (in "Movimento Perpétuo")
- Variações Sob Uma Dança Popular (in "Movimento Perpétuo")
- Variações Sobre o Mondego (in "Asas Sobre o Mundo")
- Variações sobre o Mondego n.º 1 (in "Asas Sobre o Mundo")
- Verdes Anos (in "Asas Sobre o Mundo")
Canção Verdes Anos
Música e guitarra portuguesa: Carlos Paredes
Viola: Fernando Alvim
(instrumental)
(in "Guitarra Portuguesa", 1967)
___________________________
Outros artistas desta galeria:
Adriano Correia de Oliveira
Janita Salomé
José Afonso
Luiz Goes
Pedro Barroso
Retirado daqui: http://nossaradio.blogspot.com/2007/04/galeria-da-msica-portuguesa-carlos.html
Thursday, February 06, 2020
As sete virtudes filosofais ou A alquimia dos poetas
1. O ORGULHO
Por vezes no poema
desperdiçamos tudo
e fica apenas
uma terrível faca de silêncio
um muro
uma sebe de sede que defende
a fome de ódio puro.
2. A AVAREZA
A palavra vã guardada
A esmola aliterante.
Eis a miséria doirada
da poesia altissonante.
3. A LUXÚRIA
Nós amamos a carne das palavras
sua humana e pastosa consistência
seu prepúcio sonoro sua erecta presença.
Com elas violentamos
o cerne do silêncio.
4. A IRA
Uma rosa de cólera
o poema
Uma antena de raiva.
Uma espoleta
na serena gaveta do poeta.
5. A GULA
Comemos vegetais e animais
Bebemos vinho.
Respiramos fundo.
Somos normais. Apenas
devoramos o mundo.
6. A INVEJA
Não sermos nós a voz
o tacto
o texto.
Darmos cinco sentidos
Para termos o sexto.
7. A PREGUIÇA
Este
lento Por vezes no poema
desperdiçamos tudo
e fica apenas
uma terrível faca de silêncio
um muro
uma sebe de sede que defende
a fome de ódio puro.
2. A AVAREZA
A palavra vã guardada
A esmola aliterante.
Eis a miséria doirada
da poesia altissonante.
3. A LUXÚRIA
Nós amamos a carne das palavras
sua humana e pastosa consistência
seu prepúcio sonoro sua erecta presença.
Com elas violentamos
o cerne do silêncio.
4. A IRA
Uma rosa de cólera
o poema
Uma antena de raiva.
Uma espoleta
na serena gaveta do poeta.
5. A GULA
Comemos vegetais e animais
Bebemos vinho.
Respiramos fundo.
Somos normais. Apenas
devoramos o mundo.
6. A INVEJA
Não sermos nós a voz
o tacto
o texto.
Darmos cinco sentidos
Para termos o sexto.
7. A PREGUIÇA
Este
talento
de vazarmos tristeza.
José Carlos Ary dos Santos, Obra Poética
Tuesday, January 07, 2020
Carta a Ângela
Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.
Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!
Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!
Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.
Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!
Carlos de Oliveira, in “Poesias”
Tuesday, December 24, 2019
Natal
Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres
em letras grande e pretas,
traz versos e historietas
e desenhos bonitinhos,
e traz retratos também
dos bodos, bodos e bodos,
em casa de gente bem.
Hoje é dia de Natal.
- Mas quando será de todos?
Sidónio Muralha
Thursday, December 19, 2019
Discurso Tardio
À memória de José Dias Coelho
Éramos jovens: falávamos do âmbar
Sem vocação para a morte, víamos passar os barcos,
ou dos minúsculos veios de sol espesso
onde começa o vero; e sabíamos
como a música sobe às torres do trigo.
onde começa o vero; e sabíamos
como a música sobe às torres do trigo.
desatando um a um os nós do silêncio.
Pegavas num fruto: eis o espaço ardente
de ventre, espaço denso, redondo maduro,
dizias; espaço diurno onde o rumor
do sangue é um rumor de ave –
repara como voa, e poisa nos ombros
da Catarina que não cessam de matar.
Sem vocação para a morte, dizíamos. Também
ela, também ela a não tinha. Na planície
branca era uma fonte: em si trazia
um coração inclinado para a semente do fogo.
Morre-se de ter uns olhos de cristal,
morre-se de ter um corpo, quando subitamente
uma bala descobre a juventude
da nossa carne acesa até aos lábios.
Catarina, ou José – o que é um nome?
Que nome nos impede de morrer,
quando se beija a terra devagar
ou uma criança trazida pela brisa?
Eugénio de Andrade
Wednesday, December 18, 2019
Patxi Andión
"A primeira vez que vim a Portugal foi para fazer a primeira parte de um espetáculo de Manolo Díaz. Ele foi expulso antes do concerto e a mim deram-me 12 horas para deixar o país. Na segunda vez que vim foi para cantar no programa Zip Zip. Quando saí do canal a PIDE estava à minha espera. Meteram-me num carro tal como eu estava vestido, sem documentação e deixaram-me na fronteira de Badajoz. Dessa vez eu tive mesmo muito medo. Foi uma viagem feita de noite e todas as vezes que eles paravam, eu pensava que iam dar-me um tiro." - Patxi Andión
Morreu hoje um dos maiores cantautores que conheci. Jamais esquecerei o concerto no Coliseu, em Março de 1973.
Saturday, December 07, 2019
Serenidade, és minha
Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.
Vem, serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.
Carrega para a cama dos desempregados
todas as coisas verdes, todas as coisas vis
fechadas no cofre das águas:
os corais, as anémonas, os monstros sublunares,
as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.
Vem, serenidade,
com o país veloz e virginal das ondas,
com o martírio leve dos amantes sem Deus,
com o cheiro sensual das pernas no cinema,
com o vinho e as uvas e o frémito das virgens,
com o macio ventre das mulheres violadas,
com os filhos que os pais amaldiçoam,
com as lanternas postas à beira dos abismos,
e os segredos e os ninhos e o feno
e as procissões sem padre, sem anjos e, contudo
com Deus molhando os olhos
e as esperanças dos pobres.
Vem, serenidade,
com a paz e a guerra
derrubar as selvagens
florestas do instinto.
Vem, e levanta
palácios na sombra.
Tem a paciência de quem deixa entre os lábios
um espaço absoluto.
Vem, e desponta,
oriunda dos mares,
orquídea fresca das noites vagabundas,
serena espécie de contentamento,
surpresa, plenitude.
Vem dos prédios sem almas e sem luzes,
dos números irreais de todas as semanas,
dos caixeiros sem cor e sem família,
das flores que rebentam nas mãos dos namorados
dos bancos que os jardins afogam no silêncio,
das jarras que os marujos trazem sempre da China,
dos aventais vermelhos com que as mulheres esperam
a chegada da força e da vertigem.
Vem, serenidade,
e põe no peito sujo dos ladrões
a cruz dos crimes sem cadeia,
põe na boca dos pobres o pão que eles precisam,
põe nos olhos dos cegos a luz que lhes pertence.
Vem nos bicos dos pés para junto dos berços,
para junto das campas dos jovens que morreram,
para junto das artérias que servem
de campo para o trigo, de mar para os navios.
Vem, serenidade!
E do salgado bojo das tuas naus felizes
despeja a confiança,
a grande confiança.
Grande como os teus braços,
grande serenidade!
E põe teus pés na terra,
e deixa que outras vozes
se comovam contigo
no Outono, no Inverno,
no Verão, na Primavera.
Vem, serenidade,
para que se não fale
nem da paz nem da guerra nem de Deus,
porque foi tudo junto
e guardado e levado
para a casa dos homens.
Vem, serenidade,
vem com a madrugada,
vem com os anjos de ouro que fugiram da Lua,
com as nuvens que proíbem o céu,
vem com o nevoeiro.
Vem com as meretrizes que chamam da janela,
o volume dos corpos saciados na cama,
as mil aparições do amor nas esquinas,
as dívidas que os pais nos pagam em segredo,
as costas que os marinheiros levantam
quando arrastam o mar pelas ruas.
Vem, serenidade,
e lembra-te de nós,
que te esperamos há séculos sempre no mesmo sítio,
um sítio aonde a morte tem todos os direitos.
Lembra-te da miséria dourada dos meus versos,
desta roupa de imagens que me cobre
o corpo silencioso,
das noites que passei perseguindo uma estrela,
do hálito, da fome, da doença, do crime,
com que dou vida e morte
a mim próprio e aos outros.
Vem, serenidade,
e acaba com o vício
de plantar roseiras no duro chão dos dias,
vicio de beber água
com o copo do vinho milagroso do sangue.
Vem, serenidade,
não apagues ainda
a lâmpada que forra
os cantos do meu quarto,
o papel com que embrulho meus rios de aventura
em que vai navegando o futuro.
Vem, serenidade!
E pousa, mais serena que as mãos de minha Mãe,
mais húmida que a pele marítima do cais,
mais branca que o soluço, o silêncio, a origem,
mais livre que uma ave em seu voo,
mais branda que a grávida brandura do papel em que escrevo,
mais humana e alegre que o sorriso das noivas,
do que a voz dos amigos, do que o sol nas searas.
Vem, serenidade,
para perto de mim e para nunca.
.............................. .........................
De manhã, quando as carroças de hortaliça
chiam por dentro da lisa e sonolenta
tarefa terminada,
quando um ramo de flores matinais
é uma ofensa ao nosso limitado horizonte,
quando os astros entregam ao carteiro surpreendido
mais um postal da esperança enigmática,
quando os tacões furados pelos relógios podres,
pelas tardes por trás das grades e dos muros,
pelas convencionais visitas aos enfermos,
formam, em densos ângulos de humano desespero,
uma nuvem que aumenta a vã periferia
que rodeia a cidade,
é então que eu te peço como quem pede amor:
Vem, serenidade!
Com a medalha, os gestos e os teus olhos azuis,
vem, serenidade!
Com as horas maiúsculas do cio,
com os músculos inchados da preguiça,
vem, serenidade!
Vem, com o perturbante mistério dos cabelos,
o riso que não é da boca nem dos dentes
mas que se espalha, inteiro,
num corpo alucinado de bandeira.
Vem, serenidade,
antes que os passos da noite vigilante
arranquem as primeiras unhas da madrugada,
antes que as ruas cheias de corações de gás
se percam no fantástico cenário da cidade,
antes que, nos pés dormentes dos pedintes,
a cólera lhes acenda brasas nos cinco dedos,
a revolta semeie florestas de gritos
e a raiva vá partir as amarras diárias.
Vem, serenidade,
leva-me num vagão de mercadorias,
num convés de algodão e borracha e madeira,
na hélice emigrante, na tábua azul dos peixes,
na carnívora concha do sono.
Leva-me para longe
deste bíblico espaço,
desta confusão abúlica dos mitos,
deste enorme pulmão de silêncio e vergonha.
Longe das sentinelas de mármore
que exigem passaporte a quem passa.
A bordo, no porão,
conversando com velhos tripulantes descalços,
crianças criminosas fugidas à policia,
moços contrabandistas, negociantes mouros,
emigrados políticos que vão
em busca da perdida liberdade,
Vem, serenidade,
e leva-me contigo.
Com ciganos comendo amoras e limões,
e música de harmónio, e ciúme, e vinganças,
e subindo nos ares o livre e musical
facho rubro que une os seios da terra ao Sol.
Vem, serenidade!
Os comboios nos esperam.
Há famílias inteiras com o jantar na mesa,
aguardando que batam, que empurrem, que irrompam
pela porta levíssima,
e que a porta se abra e por ela se entornem
os frutos e a justiça.
Serenidade, eu rezo:
Acorda minha Mãe quando ela dorme,
quando ela tem no rosto a solidão completa
de quem passou a noite perguntando por mim,
de quem perdeu de vista o meu destino.
Ajuda-me a cumprir a missão de poeta,
a confundir, numa só e lúcida claridade,
a palavra esquecida no coração do homem.
Vem, serenidade,
e absolve os vencidos,
regulariza o trânsito cardíaco dos sonhos
e dá-lhes nomes novos,
novos ventos, novos portos, novos pulsos.
E recorda comigo o barulho das ondas,
as mentiras da fé, os amigos medrosos,
os assombros da índia imaginada,
espanto aprendiz da nossa fala,
ainda nossa, ainda bela, ainda livre
destes montes altíssimos que tapam
as veias ao Oceano.
Vem, serenidade,
e faz que não fiquemos doentes,
só de ver que a beleza não nasce dia a dia na terra.
E reúne os pedaços dos espelhos partidos,
e não cedas demais ao vislumbre de vermos
a nossa idade exacta
outra vez paralela ao percurso dos pássaros.
E dá asas ao peso
da melancolia,
e põe ordem no caos e carne nos espectros,
e ensina aos suicidas a volúpia do baile,
e enfeitiça os dois corpos quando eles se apertarem,
e não apagues nunca o fogo que os consome,
o impulso que os coloca, nus e iluminados,
no topo das montanhas, no extremo dos mastros
na chaminé do sangue.
Serenidade, assiste
à multiplicação original do Mundo:
Um manto terníssimo de espuma,
um ninho de corais, de limos, de cabelos,
um universo de algas despidas e retráteis,
um polvo de ternura deliciosa e fresca.
Vem, e compartilha
das mais simples paixões,
do jogo que jogamos sem parceiro,
dos humilhantes nós que a garganta irradia,
da suspeita violenta, do inesperado abrigo.
Vem, com teu frio de esquecimento,
com tua alucinante e alucinada mão,
e põe, no religioso ofício do poema,
a alegria, a fé, os milagres, a luz!
Vem, e defende-me
da traição dos encontros,
do engano na presença de Aquele
cuja palavra é silêncio,
cujo corpo é de ar,
cujo amor é demais
absoluto e eterno
para ser meu, que o amo.
Para sempre irreal,
para sempre obscena,
para sempre inocente,
Serenidade, és minha.
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.
Vem, serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.
Carrega para a cama dos desempregados
todas as coisas verdes, todas as coisas vis
fechadas no cofre das águas:
os corais, as anémonas, os monstros sublunares,
as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.
Vem, serenidade,
com o país veloz e virginal das ondas,
com o martírio leve dos amantes sem Deus,
com o cheiro sensual das pernas no cinema,
com o vinho e as uvas e o frémito das virgens,
com o macio ventre das mulheres violadas,
com os filhos que os pais amaldiçoam,
com as lanternas postas à beira dos abismos,
e os segredos e os ninhos e o feno
e as procissões sem padre, sem anjos e, contudo
com Deus molhando os olhos
e as esperanças dos pobres.
Vem, serenidade,
com a paz e a guerra
derrubar as selvagens
florestas do instinto.
Vem, e levanta
palácios na sombra.
Tem a paciência de quem deixa entre os lábios
um espaço absoluto.
Vem, e desponta,
oriunda dos mares,
orquídea fresca das noites vagabundas,
serena espécie de contentamento,
surpresa, plenitude.
Vem dos prédios sem almas e sem luzes,
dos números irreais de todas as semanas,
dos caixeiros sem cor e sem família,
das flores que rebentam nas mãos dos namorados
dos bancos que os jardins afogam no silêncio,
das jarras que os marujos trazem sempre da China,
dos aventais vermelhos com que as mulheres esperam
a chegada da força e da vertigem.
Vem, serenidade,
e põe no peito sujo dos ladrões
a cruz dos crimes sem cadeia,
põe na boca dos pobres o pão que eles precisam,
põe nos olhos dos cegos a luz que lhes pertence.
Vem nos bicos dos pés para junto dos berços,
para junto das campas dos jovens que morreram,
para junto das artérias que servem
de campo para o trigo, de mar para os navios.
Vem, serenidade!
E do salgado bojo das tuas naus felizes
despeja a confiança,
a grande confiança.
Grande como os teus braços,
grande serenidade!
E põe teus pés na terra,
e deixa que outras vozes
se comovam contigo
no Outono, no Inverno,
no Verão, na Primavera.
Vem, serenidade,
para que se não fale
nem da paz nem da guerra nem de Deus,
porque foi tudo junto
e guardado e levado
para a casa dos homens.
Vem, serenidade,
vem com a madrugada,
vem com os anjos de ouro que fugiram da Lua,
com as nuvens que proíbem o céu,
vem com o nevoeiro.
Vem com as meretrizes que chamam da janela,
o volume dos corpos saciados na cama,
as mil aparições do amor nas esquinas,
as dívidas que os pais nos pagam em segredo,
as costas que os marinheiros levantam
quando arrastam o mar pelas ruas.
Vem, serenidade,
e lembra-te de nós,
que te esperamos há séculos sempre no mesmo sítio,
um sítio aonde a morte tem todos os direitos.
Lembra-te da miséria dourada dos meus versos,
desta roupa de imagens que me cobre
o corpo silencioso,
das noites que passei perseguindo uma estrela,
do hálito, da fome, da doença, do crime,
com que dou vida e morte
a mim próprio e aos outros.
Vem, serenidade,
e acaba com o vício
de plantar roseiras no duro chão dos dias,
vicio de beber água
com o copo do vinho milagroso do sangue.
Vem, serenidade,
não apagues ainda
a lâmpada que forra
os cantos do meu quarto,
o papel com que embrulho meus rios de aventura
em que vai navegando o futuro.
Vem, serenidade!
E pousa, mais serena que as mãos de minha Mãe,
mais húmida que a pele marítima do cais,
mais branca que o soluço, o silêncio, a origem,
mais livre que uma ave em seu voo,
mais branda que a grávida brandura do papel em que escrevo,
mais humana e alegre que o sorriso das noivas,
do que a voz dos amigos, do que o sol nas searas.
Vem, serenidade,
para perto de mim e para nunca.
..............................
De manhã, quando as carroças de hortaliça
chiam por dentro da lisa e sonolenta
tarefa terminada,
quando um ramo de flores matinais
é uma ofensa ao nosso limitado horizonte,
quando os astros entregam ao carteiro surpreendido
mais um postal da esperança enigmática,
quando os tacões furados pelos relógios podres,
pelas tardes por trás das grades e dos muros,
pelas convencionais visitas aos enfermos,
formam, em densos ângulos de humano desespero,
uma nuvem que aumenta a vã periferia
que rodeia a cidade,
é então que eu te peço como quem pede amor:
Vem, serenidade!
Com a medalha, os gestos e os teus olhos azuis,
vem, serenidade!
Com as horas maiúsculas do cio,
com os músculos inchados da preguiça,
vem, serenidade!
Vem, com o perturbante mistério dos cabelos,
o riso que não é da boca nem dos dentes
mas que se espalha, inteiro,
num corpo alucinado de bandeira.
Vem, serenidade,
antes que os passos da noite vigilante
arranquem as primeiras unhas da madrugada,
antes que as ruas cheias de corações de gás
se percam no fantástico cenário da cidade,
antes que, nos pés dormentes dos pedintes,
a cólera lhes acenda brasas nos cinco dedos,
a revolta semeie florestas de gritos
e a raiva vá partir as amarras diárias.
Vem, serenidade,
leva-me num vagão de mercadorias,
num convés de algodão e borracha e madeira,
na hélice emigrante, na tábua azul dos peixes,
na carnívora concha do sono.
Leva-me para longe
deste bíblico espaço,
desta confusão abúlica dos mitos,
deste enorme pulmão de silêncio e vergonha.
Longe das sentinelas de mármore
que exigem passaporte a quem passa.
A bordo, no porão,
conversando com velhos tripulantes descalços,
crianças criminosas fugidas à policia,
moços contrabandistas, negociantes mouros,
emigrados políticos que vão
em busca da perdida liberdade,
Vem, serenidade,
e leva-me contigo.
Com ciganos comendo amoras e limões,
e música de harmónio, e ciúme, e vinganças,
e subindo nos ares o livre e musical
facho rubro que une os seios da terra ao Sol.
Vem, serenidade!
Os comboios nos esperam.
Há famílias inteiras com o jantar na mesa,
aguardando que batam, que empurrem, que irrompam
pela porta levíssima,
e que a porta se abra e por ela se entornem
os frutos e a justiça.
Serenidade, eu rezo:
Acorda minha Mãe quando ela dorme,
quando ela tem no rosto a solidão completa
de quem passou a noite perguntando por mim,
de quem perdeu de vista o meu destino.
Ajuda-me a cumprir a missão de poeta,
a confundir, numa só e lúcida claridade,
a palavra esquecida no coração do homem.
Vem, serenidade,
e absolve os vencidos,
regulariza o trânsito cardíaco dos sonhos
e dá-lhes nomes novos,
novos ventos, novos portos, novos pulsos.
E recorda comigo o barulho das ondas,
as mentiras da fé, os amigos medrosos,
os assombros da índia imaginada,
espanto aprendiz da nossa fala,
ainda nossa, ainda bela, ainda livre
destes montes altíssimos que tapam
as veias ao Oceano.
Vem, serenidade,
e faz que não fiquemos doentes,
só de ver que a beleza não nasce dia a dia na terra.
E reúne os pedaços dos espelhos partidos,
e não cedas demais ao vislumbre de vermos
a nossa idade exacta
outra vez paralela ao percurso dos pássaros.
E dá asas ao peso
da melancolia,
e põe ordem no caos e carne nos espectros,
e ensina aos suicidas a volúpia do baile,
e enfeitiça os dois corpos quando eles se apertarem,
e não apagues nunca o fogo que os consome,
o impulso que os coloca, nus e iluminados,
no topo das montanhas, no extremo dos mastros
na chaminé do sangue.
Serenidade, assiste
à multiplicação original do Mundo:
Um manto terníssimo de espuma,
um ninho de corais, de limos, de cabelos,
um universo de algas despidas e retráteis,
um polvo de ternura deliciosa e fresca.
Vem, e compartilha
das mais simples paixões,
do jogo que jogamos sem parceiro,
dos humilhantes nós que a garganta irradia,
da suspeita violenta, do inesperado abrigo.
Vem, com teu frio de esquecimento,
com tua alucinante e alucinada mão,
e põe, no religioso ofício do poema,
a alegria, a fé, os milagres, a luz!
Vem, e defende-me
da traição dos encontros,
do engano na presença de Aquele
cuja palavra é silêncio,
cujo corpo é de ar,
cujo amor é demais
absoluto e eterno
para ser meu, que o amo.
Para sempre irreal,
para sempre obscena,
para sempre inocente,
Serenidade, és minha.
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Serenidade és minha
Thursday, November 28, 2019
Tabacaria
1. Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
5. Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
10. Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
15. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
20. E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
25. Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
30. Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
35. Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
40. Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
45. Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
50. Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
55. Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
60. Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
65. 0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
70. Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
75. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
80. Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
85. A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
90. Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
95. Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
100. Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
105. E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
110. E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
115. Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
120. Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
125. Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
130. E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
135. E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
140. Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
145. Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
150. E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
155. Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.
0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
160. Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(0 Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.
Fernando Pessoa
https://youtu.be/a1IBpsuCI14
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