Thursday, October 29, 2026

Aos mortos vivos de Cabo Verde


A 29 de Outubro de 1936, chegavam ao campo de concentração do Tarrafal os primeiros presos. O Campo da Morte Lenta tinha sido inaugurado. 
Passam hoje 90 anos...

Aos mortos vivos do Tarrafal
Ao cabo de Cabo Verde
dobrado o cabo da guerra
quando o mar sabia a sede
e o sangue sabia a terra
acabou por ser mais forte
a esperança perseguida
porque aconteceu a morte
sem que se acabasse a vida.
Ao cabo de Cabo Verde
no campo do Tarrafal
é que o futuro se ergue
verde-rubro Portugal
é que o passado se perde
na tumba colonial,
ao cabo de Cabo Verde
não morreu o ideal.
Entre o chicote e a malária
entre a fome e as bilioses
os mártires da classe operária
recuperam suas vozes.
E vêm dizer aqui
do cabo de Cabo Verde
que não morreram ali
porque a esperança não se perde.
Bento Gonçalves torneiro
ainda trabalhas o ferro
deste povo verdadeiro
sem a ferrugem do erro.
Caldeira de nome Alfredo
fervilham no teu caixão
contra o ódio e contra o medo
gérmens de trigo e de pão.
E tu também Araújo
e tu também Castelhano
e também cada marujo
que morreu a todo o pano.
Todos vivos! Todos nossos!
vinte trinta cem ou mil
nenhum de vós é só ossos
sois todos cravos de Abril!
No campo do Tarrafal
no sítio da frigideira
hasteava Portugal
a sua maior bandeira.
Bandeira feita em segredo
com as agulhas das dores
pois o tempo do degredo
mudava o sentido ás cores:
o verde de Cabo Verde
o chão da reforma agrária
e o Sol vermelho esta sede
duma água proletária.
Do cabo de Cabo Verde
chegam tão vivos os mortos
que um monumento se ergue
para cama dos seus corpos.
Pois se o sono é como o vento
que motiva um golpe de asa
é a vida o monumento
dos que voltaram a casa.
José Carlos Ary dos Santos

(poema feito quando da trasladação para Portugal dos restos mortais dos 32 resistentes assassinados no Tarrafal)

Sunday, October 25, 2026

Acampas e acampadas

 
May be an image of crowd
























Depois de ver em directo o que se passou em Lisboa e no Porto esta madrugada, a minha noite foi de pesadelos. E voltei a 1973, à Rua Joaquim António de Aguiar, a caminho do Marquês de Pombal, para uma concentração da CDE. Foi quando apareceu um 'creme nívea' saindo de lá o maltez soares, com o seu pingalim. Percebi que só havia duas hipóteses: ou fugia ou levava 'porrada', como os manifestantes levaram ontem.
Fugi. Corri. Muito. Quando parei estava no Largo do Rato. Não sei como lá cheguei, não sei quais as ruas por onde fugi.
Esta madrugada voltei a ver muitos potenciais maltezes soares a dar bastonadas, balas de borracha e outras cenas frente a grupos de pessoas que estavam pacificamente no Rossio e na Praça D. João.
Este não é o meu país de Abril!
(foto do Egídio Santos)

Thursday, October 15, 2026

Não nos deixam cantar


Não nos deixam cantar, Robeson
meu canário com asas de águia
Meu irmão negro com dentes de pérola
Não nos deixam cantar as nossas canções.
Têm medo, Robeson
medo da aurora, medo de olhar
medo de ouvir, medo de tocar.
Têm medo de amar,
medo de amar como amou Ferhat, apaixonadamente.
(Decerto que também vocês, irmãos negros,
têm um Ferhat, como é que tu lhe chamas, Robeson?)
Têm medo da semente e da terra,
medo da água que corre,
medo da lembrança.
A mão de um amigo que não deseja
nem desconto nem comissão nem moratória
igual a um pássaro quente
não apertou nunca a sua mão.
Têm medo da esperança, Robeson, medo da esperança!
Têm medo, meu canário com asas de águia,
Têm medo das nossas canções, Robeson…
Nazim Hikmet

Thursday, October 08, 2026

Carta de Camilo Cienfuegos al Che


Carta de Camilo Cienfuegos al Che
Abril 24/58
Che, Hermano del alma:
Recibí tu nota, veo que Fidel te ha puesto al frente de la Escuela Militar, mucho me alegra, pues de ese modo podremos contar en el futuro con soldados de primera.
Cuando me dijeron que venías a “hacernos el regalo de tu presencia”, no me agradó mucho. Tú has desempeñado un papel principalísimo en esta contienda, si te necesitamos en esta etapa insurreccional, más te necesita Cuba cuando la guerra termine, bien hace el Gigante en cuidarte.
Mucho me gustaría estar siempre a tu lado, fuiste por mucho tiempo mi jefe y siempre lo seguirás siendo. Gracias a ti tengo la oportunidad de ser ahora más útil, haré lo indecible por no hacerte quedar mal.
Tu eterno chicharrón,
Camilo

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Thursday, September 24, 2026

1ª Festa do Avante!


A 24 de Setembro de 1976, o PCP erguia a Festa que Portugal nunca tinha visto.
Há precisamente 50 anos abríamos as portas da 1º Festa do Avante! na FIL, em Lisboa. Em 1976, contra todas as evidências em contrário, a Festa do jornal que resistiu na clandestinidade durante 48 anos - o Avante! - nascia como esperança para a construção do Portugal de Abril, celebrando a liberdade. Festa da cultura, da solidariedade, da amizade e da alegria, a sua natureza política foi determinante para responder à urgência democrática e à força da vontade popular. Era a possibilidade daquilo que juntos conseguimos fazer com as nossas próprias mãos.
50 anos depois, a Festa continua cada vez mais viva e sempre a olhar para o futuro. É por isso que todos os anos a Festa nos surpreende com a sua constante novidade, com a imensa juventude que nos faz dizer, sem hesitar, que não há Festa como esta.

(do site Festa do Avante)

Wednesday, September 23, 2026

Peço silêncio


Agora deixem-me tranquilo.
Agora acostumem-se sem mim.
Eu vou fechar os olhos
E só quero cinco coisas,
Cinco raízes preferidas.
Uma é o amor sem fim.
A segunda é ver o Outono.
Não posso ser sem que as folhas
Voem e voltem à terra.
A terceira é o grave Inverno,
A chuva que amei, a carícia
Do fogo no frio silvestre.
Em quarto lugar o Verão
Redondo como uma melancia.
A quinta coisa são teus olhos,
Matilde minha, bem amada,
Não quero dormir sem teus olhos,
Não quero ser sem que me olhes:
Eu troco a Primavera
Pra que tu me fiques olhando.
Amigos, isso é tudo o que quero.
É quase nada e quase tudo.
Agora, se querem, que se vão.
Vivi tanto que um dia
Terão de esquecer-me com força,
Apagando-me do quadro negro:
Meu coração foi interminável.
Mas porque peço silêncio
Não creiam que vou morrer:
Pois é exactamente o contrário:
Acontece que vou viver.
Acontece que sou e que sigo.
Não será, pois, senão que dentro
De mim crescerão cereais,
Primeiro os grãos que rompem
A terra para ver a luz,
Porém a mãe terra é escura:
E dentro de mim sou escuro:
Sou como um poço em cujas águas
A noite deixa suas estrelas
E segue só pelo campo.
Trata-se de que tanto vivi
Que quero viver outro tanto.
Nunca me senti tão sonoro,
Nunca tive tantos beijos.
Agora, como sempre, é cedo.
Voa a luz com suas abelhas.
Deixem-me só com o dia.
Peço permissão para nascer.
Pablo Neruda

Friday, September 11, 2026

Os onzes de Setembro

 
Há 25 anos estava na Berlenga. E como havia uma enorme afluência de turistas à ilha, e consequentemente ao restaurante, fui para trás do balcão ajudar a tirar cafés.
A certa altura o Manel (concessionário do Pavilhão Mar e Sol) chamou-me para eu ver a televisão. O barulho era muito e pareceu-me estar a ver um filme de ficção. Os clientes centraram a atenção no aparelho, quase junto do tecto, o Manel subiu o som e fez-se silêncio (quase) absoluto. As imagens ainda hoje me chocam. E os atentados às torres gémeas foram (e ainda são) tema de conversa naquele dia e nos que se seguiram.
Mas eu também me lembro que, num outro 11 de Setembro, em 1973, aconteceu um outro atentado em Santiago do Chile, melhor dizendo um golpe militar, que culminou com a morte do Presidente Salvador Allende, eleito democraticamente. E que só no dia seguinte soubemos do acontecido pelo jornal 'República'. Não houve televisões a noticiarem, muito menos a fazerem directos, e o pior de tudo era mesmo NÃO PODER TROCAR INFORMAÇÃO fosse com quem fosse, NEM TELEFONAR A AMIGOS, pois podia haver pides e bufos em qualquer esquina ou casa. E as paredes tinham, na época, ouvidos.
No atentado de há 25 anos, que ocorreu precisamente a esta hora, morreram cerca de 3.000 (TRÊS MIL) pessoas.
No golpe militar no Chile, o bombardeamento ao palácio La Moneda ocorreu por volta das 4 da tarde em Portugal (meio dia em Santiago). Morreram 60.000 (SESSENTA MIL) pessoas.
Vivi isto tudo, tenho memória e não perdoo!

O dia em que não morri - revista piauí

Saturday, September 05, 2026

Daqui deste deserto em que persisto


Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra

escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra

busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras

Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto

Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto

As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito

Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco

Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total

Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada

António Ramos Rosa

Wednesday, August 26, 2026

Dez chamamentos ao amigo

I
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem
Te olhei. E há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
II
Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que nosso tempo é ágora.
Esplêndida avidez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.
III
Se refazer o tempo, a mim, me fosse dado
Faria do meu rosto de parábola
Rede de mel, ofício de magia
E naquela encantada livraria
Onde os raros amigos me sorriam
Onde a meus olhos eras torre e trigo
Meu todo corajoso de Poesia
Te tomava. Aventurança, amigo,
Tão extremada e larga
E amavio contente o amor teria sido
IV
Minha medida? Amor.
E tua boca na minha
Imerecida.
Minha vergonha? O verso
Ardente. E o meu rosto
Reverso de quem sonha.
Meu chamamento? Sagitário
Ao meu lado
Enlaçado ao Touro.
Minha riqueza? Procura
Obstinada, tua presença
Em tudo: julho, agosto
Zodíaco antevisto, página
Ilustrada da revista
Editorial, jornal
Teia cindida.
Em cada canto da Casa
Evidência veemente
Do teu rosto.
V
Nós dois passamos. E os amigos
E toda minha seiva, meu suplício
De jamais ver, teu desamor também
Há de passar. Sou apenas poeta
E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido
Nós dois passamos porque assim é sempre.
E singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra. Trevo escuro
Desmemoriado, coincidido e ardente
NO meu tempo de vida tão maduro.
VI
Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?
VII
Foi Julho sim. E nunca mais esqueço.
O ouro em mim, a palavra
Irisada na minha boca
A urgência de me dizer em amor
Tatuada de memória e confidência.
Setembro em enorme silêncio
Distancia meu rosto. Te pergunto:
De Julho em mim ainda se lembras?
Disseram-me os amigos que Saturno
Se refaz este ano. E é tigre
E é verdugo. E que os amantes
Pensativos, glaciais
Ficarão surdos ao canto comovido.
E em sendo assim, amor,
De que me adianta a mim, te dizer mais?
VIII
De lulas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura
Intocada meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.
Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me deem
A enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando
— Fazedor de desgosto —
Que eu te esqueça.
IX
Esse poeta em mim sempre morrendo
Se tenta repetir salmodiado:
Como te conhecer, arquiteto do tempo
Como saber de mim, sem te saber?
Algidez do teu gesto, minha cegueira
E o casto incendiado momento
Se ao teu lado me vejo. As tardes
Fiandeiras, as tardes que eu amava,
Matéria da solidão, íntimas, claras
Sofrem a sonolência de umas águas
Como se um barco recusasse sempre
A liquidez. Minhas tardes dilatas
Sobre-existindo apenas
Porque à noite retomo a minha verdade:
Teu contorno, teu rosto, álgido sim
E por isso, quem sabe, tão amado.
X
Não é apenas um vago, modulado sentimento
O que me faz cantar enormemente
A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus
Não é apenas vaidade de querer
Que aos cinquenta
Tua alma e teu corpo se enterneçam
De graça, da justeza do poema. É mais.
E porisso perdoa todo esse amor de mim
E me perdoa de ti a indiferença.

Hilda Hilst