Thursday, May 03, 2012

Noite


É de noite que renasço cada dia. É de noite que as palavras me escorrem pelos dedos como se fossem água de um rio caudaloso que corre desenfreado até à foz. Das palavras.
É de noite que me refaço ao pôr da lua. E é de noite que a poesia se solta do meu peito como se fosse um grito que ninguém ouve porque se juntou ao rio e já desaguou no mar.
É de noite que os amores secretos se encontram. Ainda que distantes. Ainda que apenas em pensamento. É de noite que escrevo porque as palavras me regressam em cada maré. E porque gosto deste silêncio...

Wednesday, May 02, 2012

.....


Ontem foi 1º de Maio. Dia do Trabalhador. Dia que tem as suas raízes na luta dos trabalhadores que saíram para as ruas em Chicago, em 1886, exigindo a redução da jornada para oito horas de trabalho.
Ontem foi 1º de Maio. Dia do Trabalhador. Dia que se pode comemorar no nosso país, em Liberdade, depois do 25 de Abril de 1974. Houve algumas centenas de trabalhadores que desceram a avenida da Liberdade. Outros, muitos milhares, subiram a avenida Almirante Reis até à Alameda. Outros ainda, um pouco por todo o país, preferiram correr atrás de uma cenoura a que chamaram desconto de 50%.
Ontem foi dia 1º de Maio. Dia do Trabalhador. Trinta e oito anos depois de Abril sinto-me agoniada. De tristeza, de revolta, de raiva. Sei que daqui a pouco, quando acordar, tudo isto que sinto agora se transformará numa força enorme. Numa vontade de redobrar a Luta. Numa confiança crescente.
Ontem foi dia 1º de Maio. Dia do Trabalhador. Tanto caminho a fazer para despertar consciências. Ainda...


Monday, April 30, 2012

Abril é Ary! E Maio também!


O Futuro

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.

Wednesday, April 25, 2012

...

O dia foi cinzento. Como cinzenta e escura foi a noite. É esta a cor que me vai perseguir mais umas horas, é em cinza que te vais tornar daqui a pouco, e eu recolho-me no abraço que nunca mais nos daremos.
Pauso-me. Para fazer o que tem de ser feito.

Tuesday, April 24, 2012

Tempo de Abril



25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen


Friday, April 20, 2012

A um Homem de Abril




"a Vasco Gonçalves”

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
vento areias lábios, tudo ardia.

Eugénio de Andrade

Wednesday, April 18, 2012

Poema Quadragésimo


Quando me deito contigo
respiro apenas pela pele.

E digo-te tudo
sem uma única palavra.


Joaquim Pessoa
(Do livro Guardar o Fogo, a publicar)

Monday, April 16, 2012

O lado de nós

Lua que me adormece e me embala
No mar revolto dos sonhos por viver
Deixa que as ondas me venham lamber
Este corpo que é teu mas que se cala

Mãos que se entrelaçam deste lado
Sorrisos que trocamos de olhar absorto
Beijos que não demos, um nem outro
Em pas-de-deux fugidio e isolado

No lado de nós ficará, por fim
Tudo o que dissemos e fizemos um dia
E em que nos demos o abraço em alegria
Quando plantámos mais uma flor no teu jardim.


Friday, April 13, 2012

Música para o fim-de-semana



Clareia manhã
O sol vai esconder a clara estrela
Ardente, pérola do céu refletindo teus olhos
A luz do dia a contemplar teu corpo
Sedento, louco de prazer e desejos
Ardentes

Wednesday, April 11, 2012

Este lago de ti


Percorres as palavras e o tempo como se fosse a última vez. Sei da dor de ter tanta dor a rasgar o peito.
Pousas o olhar no rio que queres mar e lago ao mesmo tempo. E vejo duas lágrimas quentes a escorrerem no leito.
Caminhas passo largo nas ruas que reconheces e queres rever. E a saudade de tudo a apertar o coração.
Oiço os teus gritos silenciosos e da tua boca nasce outra canção. Rasgas-te de tanta inquietação.
Respiras o ar em busca de novo fôlego de nova vida. Raiz de ti! Que continuas de pé e és árvore quando estendes os braços e abraças os teus frutos. Que com sorrisos te vão sarando a cicatriz.
Com tempo no tempo e a tempo voltarás sempre a nascer. E sei que já és feliz!

É deste lago de ti que te sorrio. E te abraço, num abraço que é só nosso.
(as lágrimas também podem aquecer o peito...)

Monday, April 09, 2012

Fala-me do vento

Fala-me do vento. Do que me inunda os sonhos do dia e me inquieta na noite. Do que sopra em todas as direcções menos na minha. Do que te envolve e assobia quando as tempestades te assolam.
Fala-me do vento. Do que respiro para ter a sensação de que te engulo. Do que me bate forte na cara logo de manhã para acordar. Do que te entra no olhar e te faz sorrir assim.
Fala-me do vento. Do que abraço todas as noites quando me deito. Do que na tua ausência dorme sempre comigo neste leito.
Fala-me do vento. Desse que, devagarinho, te faz entrar em mim.

Saturday, April 07, 2012

Música para o fim-de-semana



Dia da Criação

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há um tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.


Vinicius de Moraes

Thursday, April 05, 2012

Escrevo...


Escrevo o amor na areia de qualquer praia

que um dia foi só nossa a noite inteira

clandestinos amantes onde a onda se espraia

incendiando a palavra de qualquer maneira

Escrevo a saudade a sal e sangue

e espero por ti em todas as marés

amanheço-me entre pedras exausta e exangue

de te escrever nas ondas que me beijam os pés.

Escrevo-te ao fim do dia, a hora morta

E embora sabendo que não me lês

nem te lembres do amor que a gente fez

Escrever para ti é tudo que me importa...

Monday, April 02, 2012

Nós


Guardo estes nós dentro do peito. Nós que foram laços, mas que fui atando cada vez mais. Para que nunca saissem de mim. Para que ficassem para sempre.

Guardo estes nós dentro do peito. São nós que não desfaço, porque são o meu conforto em horas outras. Quando me perco nas noites. Quando me falta o nosso abraço. 

Guardo estes nós dentro do peito. Nós dos amores da saudade da luta da memória dos segredos. Porque são a minha vida. E por isso são cheios de tanto...



Saturday, March 31, 2012

Música para o fim-de-semana


Ó, mana, deixa eu ir
ó, mana, eu vou só
ó, mana, deixa eu ir
para o sertão do Caicó

Eu vou cantando
com uma aliança no dedo
eu aqui só tenho medo
do mestre Zé Mariano

Mariazinha botou flores na janela
pensando em vestido branco
véu e flores na capela.

Thursday, March 29, 2012

Há 38 anos, no Coliseu de Lisboa



A 29 de Março de 1974, o Coliseu, em Lisboa, enche-se para ouvir José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Manuel Freire, José Barata Moura, Fernando Tordo e outros, que terminam a sessão com «Grândola, Vila Morena».

daqui

Tuesday, March 27, 2012

Não te resisto...


Sabes que não te resisto. Porque teimas em aparecer quando quase caiste no esquecimento. Agora que te vejo despertas-me os sentidos e o desejo toma conta de mim. Fecho os olhos e pela memória passam os prazeres que disfrutei contigo, de volta de ti, os meus dedos acariciando a tua pele tostada, o teu cheiro, o desejo o desejo o desejo...
Sabes que não te resisto. Se fosses amigo de verdade não me aparecias assim, quase dizendo 'toma-me'. Ferve-me o sangue enquanto toco o teu corpo quente e mais uma vez sei que vou quebrar tudo o que disse e vou voltar a ter-te nas mãos e gozar o prazer único de te envolver com a minha boca, sentindo o teu cheiro e o desejo o desejo o desejo...
Sabes que não te resisto. Mas hoje vou acabar com este martírio de te ver e não te ter ou de te ter e deixar de ter. Porque hoje é o teu último dia. Não voltes nunca mais a aparecer-me assim, como se viesses do nada. Afinal é fácil, basta pegar numa faca, cortar-te em fatias, barrar cada uma e comer-te, pão quente!

(não, ainda não regressei. foi só uma vontade de... pão quente :) )

Friday, March 23, 2012

NÃO PASSAM MAIS!!!!!!

Em nome dos nossos braços
em nome das nossas mãos
em nome de quantos passos
deram os nossos irmãos.
Em nome das ferramentas
que nos magoaram os dedos
das torturas das tormentas
das sevícias dos degredos.
Em nome daquele nome
que herdámos dos nossos pais
em nome da sua fome
dizemos: não passam mais!

E em nome dos milénios
de prisão adicionada
em nome de tantos génios
com a voz amordaçada
em nome dos camponeses
com a terra confiscada
em nome dos Portugueses
com a carne estilhaçada
em nome daqueles nomes
escarrados nos tribunais
dizemos que há outros nomes
que não passam nunca mais!

Em nome do que nós temos
em nome do que nós fomos
revolução que fizemos
democracia que somos
em nome da unidade
linda flor da classe operária
em nome da liberdade
flor imensa e proletária
em nome desta vontade
de sermos todos iguais
vamos dizer a verdade
dizendo: não passam mais!

Em nome de quantos corpos
nossos filhos foram feitos.
Em nome de quantos mortos
vivem nos nossos direitos.
Em nome de quantos vivos
dão mais vida à nossa voz
não mais seremos cativos:
o trabalho somos nós.
Por isso tornos enxadas
canetas frezas dedais
são as nossas barricadas
que dizem: não passam mais!

E em nome das conquistas
vindas dos ventos de Abril
reforma agrária controlo
operário no meio fabril
empresas que são do estado
porque o seu dono é o povo
em nome de lado a lado
termos feito um país novo.
Em nome da nossa frente
e dos nossos ideais
diante de toda a gente
dizemos: não passam mais!

Em nome do que passámos
não deixaremos passar
o patrão que ultrapassámos
e que nos quer trespassar.
E por onde a gente passa
nós passamos a palavra:
Cada rua cada praça
é o chão que o povo lavra.
Passaremos adiante
com passo firme e seguro.
O passado é já bastante
vamos passar ao futuro.

(Ary dos Santos)
(O sangue das palavras)

(post pré-programado)


Tuesday, March 20, 2012

As vezes que forem precisas...






ACORDAI!

Acordai
Acordai, homens que dormis
A embalar a dor
Dos silêncios vis!
Vinde, no clamor
Das almas viris,
Arrancar a flor
Que dorme na raíz!

Acordai!
Acordai, raios e tufões
Que dormis no ar
E nas multidões!
Vinde incendiar
De astros e canções
As pedras e o mar,
O mundo e os corações...

Acordai!
Acendei, de almas e de sóis,
Este mar sem cais,
Nem luz de faróis!
E acordai, depois
Das lutas finais,
Os nossos heróis
Que dormem nos covais.

ACORDAI!


José Gomes Ferreira

(ainda distante. depois volto.)

Wednesday, March 14, 2012

Tempo de Elis



Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus,
Juro que não acreditei
Eu te estranhei, me debrucei
Sobre o teu corpo e duvidei
E me arrastei, e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pelos, teu pijama
Nos teus pés, ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei prá maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Até provar que ainda sou tua.


(vou ali. depois volto.)

Monday, March 12, 2012

Faltam-me as palavras


Faltam-me as palavras para te dizer o que sinto. Mas basta que me olhes e podes ler-me por dentro. Falta-me o teu corpo para que as minhas mãos te atravessem. Mas faço-me ponte e estarei em breve a teu lado. Falta-me a tua voz para me acordar cedinho ou para o beijo de boa noite. Mas invento-me a cada instante e estás sempre dentro de mim.
Dos rios que navegámos faço margens cheias de árvores e flores e montes cheios de pedras e urze. E desenho-te. Das estradas que percorremos fiz um caminho único, onde passo a passo chegarei ao fim. E sorris-me. Dos mares em que mergulhámos deixo que a natureza os transforme em mantos de mansidão ou de revolta. E amo-te.
Faltam-me as palavras. Faltam-me as mãos. Faltas-me tu. Falta-me tanto...

Friday, March 09, 2012

Música para o fim-de-semana



Bom fim-de-semana. Comprido...

Thursday, March 08, 2012

Poema em Homenagem ao Dia da Mulher


Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas lutam por aquilo em que acreditam.
Elas levantam-se contra a injustiça.
Elas não aceitam um "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.

Elas andam sem sapatos novos para
que os seus filhos os possam ter.
Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.

Elas choram quando os seus filhos adoecem
e alegram-se quando os seus filhos ganham prémios.
Elas ficam contentes ao falarem de um aniversário
ou de um novo casamento.

Pablo Neruda

Wednesday, March 07, 2012

Tuesday, March 06, 2012

No 91º aniversário do meu Partido!


MEU GLORIOSO PARTIDO


Meu glorioso Partido
Comunista Português,
ao dares-me à vida sentido,
deste-me a vida outra vez.

Na multidão já fui só.
Hoje, em mim, sou multidão.
Basta-me aceitar que sou
como os demais homens são.

O olhar antes estreito
em redor passou-me a ver.
Meu coração no meu peito,
oiço-te noutros bater.

A voz que isolada era
fundia-a numa maior.
Fez-se-me a dor primavera
e a desconfiança amor.

A própria pátria que eu tinha,
idêntica a não ter nada,
de alheia voltou a minha,
pelo teu dom reconquistada.

Meu glorioso Partido
Comunista Português,
ao dares-me à vida sentido,
deste-me a vida outra vez.


Armindo Rodrigues

Monday, March 05, 2012

Há dias assim...



Não gosto dos dias assim. Húmidos e ácidos. Recolho-me em concha e espero que venhas. Sem pressas, já que o tempo é tanto.
Acendo a lareira e abro um vinho antigo. Como o amor que nos damos. Deixo-o respirar e sirvo-o em duas túlipas. Ao longe o mar.
Retomo a leitura do livro na página em que falas da vida. Talvez eu deva falar da morte. Da que sinto nos rostos de quem dorme na rua.
Não sei quanto tempo já passou desde que te espero. O vinho nos copos, a lareira crepita. Ao longe o mar, que me chama.
Sabes que não gosto dos dias assim. Ácidos e húmidos. Dispo-me de mim porque tu não vens. Abro a porta e saio. Vagueio sem tempo e sem norte. O mar chama-me e eu mergulho. E fico, no abraço imenso que me deste. Porque hoje, meu amor, o mar és tu...

Saturday, March 03, 2012

Música para o fim-de-semana



María en el corazón


Línea 4 "San Bernardo"
y apagándose el verano,
los dos metros se pararon.
Y yo, sentado, mirando.

Sentada en el tren contrario,
también me estaba mirando.
Sonreí, sonrió, y supe
que no estaba soñando.

Pobré a cerrar los ojos
por ver si se evaporaba,
y el destino, en un antojo,
la mantuvo en la ventana.

Dijo su nombre en un gesto
que ni dijo, ni se oía,
pero yo sentí un estruendo,
y el estruendo repetía:

María.
Dijo en silencio.
María.
Repetí ileso.

María.
Sencillamente.
Y yo ileso.
Milagrosamente.

Yo le propuse bajarnos
y sonó como un disloque.
Ella bajó la cabeza,
negando, con un reproche.

Luego volvió a sonreír,
y se dio la vuelta en vuelo,
pintando en el aire olores,
revueltos como pañuelos.

Silbó el metro y de repente,
lo que no empezó, acababa.
Y María entre la gente,
se fue junto a su ventana.

Yo me quedé en el vagón,
moviendo la testa en vano.
María en el corazón.
Y el corazón en la mano.

María.
Dijo en silencio.
María.
Repetí ileso.

María.
Sencillamente.
Y yo ileso.
Milagrosamente.

Thursday, March 01, 2012

Eu luminoso não sou



Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.


José Saramago
(in Provavelmente Alegria)

Wednesday, February 29, 2012

Monday, February 27, 2012

Escreve-me um poema



Escreve-me um poema. Um poema que fale de flores e de mar, de crianças e jardins, de rochas e de espuma, de canções e de rios. Solta as palavras que a tua voz não diz.
Escreve-as, na forma de um poema. Fala das aves e das montanhas, do silêncio e do azul do céu, das árvores e do grito, da água e da fonte. Mas solta as palavras que a tua voz não diz.
Escreve-me um poema. Fala-me do cheiro a terra molhada, do barulho da onda a rebentar, do choro de uma criança a nascer, da ternura do abraço, do olhar quente e doce, do beijo com sabor a mel e sal...
Solta as palavras que teimas calar e escreve-me um poema...

Saturday, February 25, 2012

Sátira aos homens quando estão com gripe

Pachos na testa, terço na mão

Uma botija, chá de limão

Zaragatoas, vinho com mel

Três aspirinas, creme na pele

Grito de medo, chamo a mulher

Ai Lurdes, Lurdes, que vou morrer

Mede-me a febre, olha-me a goela

Cala os miúdos, fecha a janela

Não quero canja, nem a salada

Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada

Se tu sonhasses, como me sinto

Já vejo a morte, nunca te minto

Já vejo o inferno, chamas diabos

Anjos estranhos, cornos e rabos

Vejo os demónios, nas suas danças

Tigres sem listras, bodes de tranças

Choros de coruja, risos de grilo

Ai Lurdes, Lurdes, que foi aquilo!

Não é a chuva, no meu postigo

Ai Lurdes, Lurdes, fica comigo

Não é o vento, a cirandar

Nem são as vozes, que vêm do mar

Não é o pingo de uma torneira

Põe-me a santinha, à cabeceira

Compõe-me a colcha, fala ao prior

Pousa o Jesus, no cobertor

Chama o doutor, passa a chamada

Ai Lurdes, Lurdes, nem dás por nada

Faz-me tisanas, e pão-de-ló

Não te levantes, que fico só

Aqui sozinho a apodrecer

Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.


(António Lobo Antunes)

Zeca, Sempre!

Friday, February 24, 2012

Thursday, February 23, 2012

Zeca, Sempre!



Faz hoje 25 anos que nos deixaste, Zeca.
E fazes-nos tanta falta...

Wednesday, February 22, 2012

Tuesday, February 21, 2012

Monday, February 20, 2012

Zeca, Sempre!



Esta semana será toda dedicada a Zeca Afonso!
Assinalo assim os 25 anos do seu desaparecimento físico.

Friday, February 17, 2012

Música para o fim-de-semana



O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz implorar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os tremores me vêm agitar
E todos os suores me vêm encharcar
E todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz suplicar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

(Chico Buarque)

Wednesday, February 15, 2012

Solto...


Pudesse eu ser do outro lado a voz que te chama
ou noite ou vento ou chuva ou mar revolto
talvez viesses e o teu abraço aqueceria a nossa cama
para depois do momento perfeito te querer sempre solto...


Monday, February 13, 2012

Madrugar


Para se encontrar o madrugar é preciso um grande amor. Porque o madrugar que nos entra pelos poros pode ficar na pele ou cair em gotas de orvalho. E às vezes o grande amor não está, apenas é. E porque o tempo continua a ser o mesmo tempo, com tempo, solta o rio de ternura e deixa que procure o caminho até à foz. A que lhe pertence, porque ele a escolheu. Assim acontece um grande amor. E assim se encontra o madrugar, em ti...

Sunday, February 12, 2012

Música para este domingo



A luta vai ser dura companheiro
Mas nada mudará o rumo à história
Lutando pela paz no mundo inteiro
Nós temos a certeza da vitória

A luta vai ser dura camarada
Mas nada se conquista sem canseira
Com o sangue vertido na jornada
Faremos palmo a palmo a sementeira

Por cada voz calada
Mil vozes vão nascer
gritando a força deste povo
Que não se vai render

A luta vai ser longa companheiro
Mas quem sabe esperar não desespera
Teremos de lutar de corpo inteiro
Pois temos o futuro à nossa espera

A luta vai ser longa camarada
Mas cada passo em frente é mais um passo
Havemos de vencer a caminhada
Que o povo não se vence pelo cansaço

Por cada voz calada
Mil vozes vão nascer
gritando a força deste povo
Que não se vai render

A luta vai ser dura companheiro
Mas nada mudará o rumo à história
Lutando pela paz no mundo inteiro
Nós temos a certeza da vitória

Por cada voz calada
Mil vozes vão nascer
gritando a força deste povo
Que não se vai render!

Saturday, February 11, 2012

HOJE é dia de LUTA, todos os dias!




Dos Restauradores, mas também de Sta. Apolónia, Cais do Sodré e Martim Moniz, todos a desfilar para o Terreiro do Paço.

Vamos fazer do Terreiro do Paço o TERREIRO DO POVO!!!

Thursday, February 09, 2012

Maré

Cada grão de areia que se escapa pelos dedos é um segundo que se vai. Na maré de todos os sonhos.
Cada vez que respiramos ar ou vento é menos uma vez que o fazemos. Na maré de todas as ilusões.
Cada poro de pele que te respira em forma de poema é um labirinto. Que se abre em maré. Na certeza de todas as realidades.

Monday, February 06, 2012

Solidão

O tempo é renda tecida na espuma das ondas que rebentam do teu olhar quando te fazes rio olhando o céu
A vida é o sorriso que te desperta todas as manhãs olhando o mar quando acordas de mais uma noite de breu
O sonho é sangue fervente que te corre nas veias sem parar. Mais uma canção para cantar. Um estremecer de inquietação. E nas tuas mãos o meu coração.
Quem te disse que estás em solidão?

Saturday, February 04, 2012

Música para o fim-de-semana




TODA UNA VIDA

Toda una vida me estaría contigo,
no me importa en qué forma,
ni dónde, ni cómo, pero junto a tí.

Toda una vida te estaría mimando,
te estaría cuidando como cuido mi vida,
que la vivo por tí.

No me cansaría de decirte siempre,
pero siempre, siempre,
que eres en mi vida ansiedad,
angustia, desesperación.

Toda una vida me estaría contigo,
no me importa en qué forma,
ni dónde, ni cómo, pero junto a tí.

No me cansaría de decirte siempre,
pero siempre, siempre,
que eres en mi vida ansiedad,
angustia, desesperación.

Toda una vida me estaría contigo,
no me importa en qué forma,
ni dónde, ni cómo, pero junto a tí.



Saudades deste som!!!

Thursday, February 02, 2012

Para os Amigos do lado de lá do Oceano




Canto de Iemanjá

Iemanjá, lemanjá
lemanjá é dona Janaína que vem
Iemanjá, Iemanjá
lemanjá é muita tristeza que vem

Vem do luar no céu
Vem do luar
No mar coberto de flor, meu bem
De Iemanjá
De lemanjá a cantar o amor
E a se mirar
Na lua triste no céu, meu bem
Triste no mar

Se você quiser amar
Se você quiser amor
Vem comigo a Salvador
Para ouvir lemanjá

A cantar, na maré que vai
E na maré que vem
Do fim, mais do fim, do mar
Bem mais além
Bem mais além
Do que o fim do mar
Bem mais além

Vinicius de Moraes


Era aqui que eu queria estar hoje. Ver esta festa que apenas imagino, mas que sei ser muito bonita. Pode ser que para o ano, ou outro, quem sabe...
Divirtam-se aí, no Rio Vermelho, Família Soteropolitana!

Wednesday, February 01, 2012

Nunca fui às Berlengas...



(video de João Egreja)

Para a Ana Teresa, que faz hoje anos!
:)

Monday, January 30, 2012

O meu passo


Arranco os dias de um calendário
Um a um como se fosse o fim
Como quem (re)escreve um diário
Sabendo que a vida não é só assim

Dias e noites de ausências inteiras
Sem sol sem sorrisos sem respirar
Como quem ama de todas as maneiras
Sabendo que um dia tudo vai acabar

Difíceis são os tempos em que desperto
Para o teu olhar feito num abraço
Como quem caminha a passo certo
Sabendo que é no teu sorriso que renasço.

Thursday, January 26, 2012

CAFÉ EUROPA



Café Europa
Mário Domingos

3,949 votos
7º lugar no ranking

Pá, topa-me a Car a rachar lenha, está práli há mais de meia hora e parece que cada vez dá mais força ao machado,
Era um espectáculo a partir lenha, a Carmelinda, Car por diminutivo carinhoso, rapariga dos seus 15 anos, baixinha e forte, vinda lá das serranias
Aquilo é só saúde, pá, mas é um bocadito p'ró gordo, não
Jorge, de gorda não tem ela nada, é mas é forte,
A Car tinha realmente uma força impressionante, quando as bolas ficavam presas nos matraquilhos chamávamos a Car e ela levantava a mesa em dois pés e aplicava-lhe um tal safanão que a traquitana cuspia as bolas como se tivesse sido atingida por um raio
E olha que andava lá perto, olha que andava lá perto,
E ficava depois a mirar-nos vitoriosa, consciente da proeza e da nossa admiração, como se dissesse quatro gajos, ou dois gajos e duas gajas, que elas também jogavam, e nem sempre à defesa como era costume, e não são capazes de fazer o que eu fiz,
E olha que não éramos,
Ali no pátio onde rachava lenha, onde jogávamos matraquilhos, por onde passávamos para chegar à sala das flippers
Lembras-te das horas que conseguíamos jogar à pala dos bónus
Se me lembro, pá, se me lembro, suma bónus, éramos verdadeiros profissionais das flippers,
Ali no Café Europa, que também tinha salão de bilhares e pensão no primeiro andar, que dava para veraneantes, caixeiros de passagem ou encontros de uma ou mais horas, que tinha sido casino nos tempos áureos, com mesas de póquer e jogadores da casa e tudo, que congregava ainda gente de diferentes naipes à volta das mesas com tampo marmoreado, bica e serração, que é como quem diz conversa pelo simples gosto da conversa, falar sobre tudo e nada e conhecermo-nos cada vez melhor, aquilo a que também se chamava rendimento, o pessoal ficava a render por dentro das noites e pronto
Olha, lá vem o Lobão com os Três Porquinhos,
O Lobão era na realidade o Corvo-Mor, rapaz para os seus vintes que vestia invariavelmente de preto, a condizer com o cabelo, autêntico precursor do estilo gótico de vestir, os porquinhos três irmãs de nariz assim para o arrebitado, ora o Corvo-Mor namorava uma das manas e andava sempre com as três, logo a promoção a Lobão passando no picadeiro provavelmente em direcção à praia
Vai um snooker?
Que era como chamávamos ao jogo do eight-ball, apesar dos cartazes afixados mesmo acima dos marcadores, Regulamento do Jogo de Bilhar Eight-Ball, e ia um snooker sim, ou um bilhar francês
O Xico é que joga disto, caraças
Pois o Xico,
Mas isto era já o bilhar às três tabelas, uma única mesa bem tratada, às vezes apareciam uns craques nacionais, só que o Xico era da casa e podíamos admirá-lo quando vinha a terra, andava nos barcos e era genro do Daniel, dono do Café Europa, que tinha um olho de vidro, e por isso dizia o Duarte
O Daniel tem olho para o negócio,
O Duarte encostado à ombreira da porta do Europa, a perna direita flectida e a sola do sapato clássico apoiada na parede
Então, Duarte, sempre preparado para qualquer eventualidade
Sempre preparado,
Podia imaginar quais fossem as eventualidades, mas nunca consegui perceber em que consistiria a preparação, não certamente o preparado de que anos mais tarde falaria o Teixeira, no terceiro andar do prédio do Imperial, e tinha mesmo olho para o negócio, o Daniel, conseguia manter o complexo café-restaurante-pensão-bilhares-matraquilhos & flippers com algum lucro, apesar da concorrência do vizinho Nicola, que não tinha pensão mas a finesse da Albergaria onde pernoitavam bailarinas e turistas de mais posses, não tantas que dessem para os grandes hotéis, o Café Europa onde ainda se jogava póquer, mas de dados
Fúlen outra vez, pá, que mijado
Mijado o caraças, é preciso saber atirá-los,
Os dados, nove pintas pretas, dez pintas vermelhas, valete J verde, dama Q azul, rei K vermelho e Ases iguais aos de espadas dos baralhos de cartas que já não se jogavam no Europa, onde entretanto
Chegou o Django, lá vem o gajo direito à nossa mesa,
Django por causa do chapéu preto e do poncho preto, Django e não Zorro, poncho e não capa, diferenças significativas, o Django sentava-se à mesa, avaliava os circunstantes, escolhia a vítima e
Pá, alinhas em me pagar um prego,
E alinhávamos a meias ou a três ou a quatro e, acabado o prego no prato, com o resto da imperial em curso o Django lançava-se numa espectacular tirada filosófica
Que é que o gajo 'tá práli a dizer,
E ele impávido e sereno, sem perder o fio à presumível meada, convicto e assertivo entre goles de cerveja e miradas de soslaio para controlo da audiência e, quando já poucos aguentavam a atenção, concluindo
E assim se prova, meus amigos, que uma vez não são vezes,
Os risos contidos e o homem de negro levantava-se, cumprimentava e saía até à próxima
Até à próxima,
Onde parará agora o Django, onde pararão o Viegas, o Teixeira, o Paulino e outros loucos dos cafés e afins desses tempos que não pudemos viver juntos, o Europa no Verão, a esplanada cheia, o Gabriel sem mãos a medir
Ó Esgrabiel, então nunca mais saem as imperiais,
Reclamavam o Balhelha, o Catrapana, o Cachapim, o Chaga, o Baptista-Leninista ou Classe Operária, o Campos ou Campesinato, o Cenoura, o Chico-Bomba, a Formiga, a Pratinho de Arroz Doce, o LTS ou Luta dos Trabalhadores Socialistas, hipotético partido de um só militante, logo a verdadeira aproximação da cúpula às bases, o China, o Faca, os Corvos Gémeos, a Nita, o Luis “Corvalán”,
e o Gabriel,
que costumava dizer Sibéria, quílheche, nem as focas lá páram, esforçava-se,
mas nem assim,

o ar quente e a maresia e os espanhóis a fazerem piscinas no picadeiro

Têm mesmo cara de espanhóis, os sacanas
E levantava-se o grupo da mesa, inspirava-se e media-se o ar nocturno, acendia-se um cigarrito, e às primeiras passas
Está uma bela noite,
E sorríamos porque nesses tempos,
que podemos reviver juntos,
está uma bela noite significava tudo menos um convite a gozar a noite em passeios sem destino, às vezes andávamos e andávamos, calados, que falar não fazia falta apesar dos prazeres da serração, assomávamos à esplanada sobranceira ao mar, descíamos as escadas, atravessávamos a marginal, e não havia pares nem casais, havia elas e eles conforme a noite e a disposição, calados e pensativos, cigarro atrás de cigarro, invadíamos finalmente a praia, surgiam violas e vozes do nada ou do escuro da noite, acendia-se talvez uma fogueira e à volta dela canções e risos, mas nunca quando
Está uma bela noite,
Aí sentíamo-nos incrivelmente unidos, nesse instante de aspirar o fumo e a ligeira brisa, em uníssono, cúmplices supremamente serenos, guardávamos momentos mágicos e sabíamos perfeitamente que íamos jogar póquer ou às máquinas ou mais tarde petiscar a casa de alguém, e nunca apreciar a noite lá fora, porque estava uma bela noite e aparecia o Ruivo
Então, pessoal
Então, Ruivo
Aquela gaja está a olhar p'ra mim
E daí Ruivo
Daí que quer festa, quando uma gaja olha p'ra mim é porque quer festa,
O Ruivo tinha uma ideia um bocadito arcaica das relações entre pessoas de sexo diferente, isto para não falar nas do mesmo sexo, e tinha pouca sorte à lerpa
Porra, sou sempre o mesmo cristo,
Mas desistir nunca, o Ruivo nunca desistia, lerpava até às quinhentas, e não tinha fera, que é como quem diz namorada ou mulher, alguém se lembrou de chamar feras às que não alinhavam nas andanças da noite, as feras ficavam portanto em casa por opção, porque não tinham pedalada, e isso às que a tinham dava-lhes uma certa pena, mas que fazer nesses tempos que podemos viver agora juntos, de tomar a bica e render e tudo no Café Europa e acender fogueiras na praia e guitarras e cantos e jogar matraquilhos e flippers e dados e bilhar e snooker
O pessoal quer é jogar jogos,
Ou dar um salto em grupinho de pares comandado pelo filho da Dona Alice à sua casa grande e rica de quartos,
a Dona Alice, viúva trabalhadora, até era uma senhora progressista, mas uma tarde foi a casa inesperadamente e ouviu ruídos vindos do quarto da filha, ora a filha estava a estudar fora, não podia ser ela, e não era, descobriu a viúva quando abriu a porta e o Carlos saltou da cama em cuecas e, impávido e sereno, cumprimentou a dona da casa e informou
Estava aqui a ter uma conversa com uma amiga,
Apontando vagamente a Branca, paralizada na cama em trajes bastante menores
Ó Carlos, na cama da minha filha, na cama da minha filha,
E o Carlos com aquele sorriso simpático e sincero, sem se desfazer, e mais tarde no Europa
reafirmando convicto perante a Luísa, a Guida, a Ana, a Linda, a própria Branca
Pois, o pessoal quer é jogar jogos,
E ainda mais tarde em casa de alguém disponível, duas cartas na mão, cinco a caírem uma a uma na mesa, cerveja, uísque ou brandy e petiscos preparados por uma anfitriã espectacular, que até fazia uma perninha no póquer, tudo isto a atravessar a madrugada, as madrugadas
Corre os estores que já é quase dia, porra,
Porque era preciso prolongar a noite, a dimensão da noite, a espessura da noite, aproveitar o riso que já é amanhã mas
Quero lá saber, caraças, é noite, és tu a dar.

Wednesday, January 25, 2012

Adeus, Mário!



MAIO


Um dia mereceremos Maio.
Traremos flores dentro da pele
E o olhar luminoso de quem ama.

Um dia acordarei e será Maio,
Sem palavras, sem gritos, sem fronteiras,
Sem medo de ser Maio, sem medo
De ser.

Um dia mereceremos os maios,
As giestas, o verde das águas
As gotas de orvalho e o cristal dos nervos.

Um dia acordarei e será Maio,
Cheiro de terra, pétala de carne,
Rumor de um horizonte a descobrir
Em mim.

Um dia acordaremos e seremos Maio.


(Mário Domingos)

Tuesday, January 24, 2012

Faina

(foto de António Rodrigues)

Acolho-te no meu colo, barco
vens cansado da faina e tens frio
lança a âncora aqui ao largo
e descansa teu corpo vazio
A gaivota que te acompanha, grita
quer comida para dar aos filhos
volteia e revolteia, só e aflita
sem saber se os cabazes estão vazios
Descansa com a noite, barco
que o sol já se pôs em fogo ardente
amanhã terás de te fazer ao mar
porque é assim a vida da nossa gente.


Sunday, January 22, 2012

Um fim de tarde especial...


Mineiros de Aljustrel - nas barrenas da memória
Trabalho e resistência sob o Fascismo
de António Lains Galamba, com ilustrações de Roberto Chichorro
(lançamento na Casa do Alentejo, com o Coro dos Mineiros de Aljustrel)



Hino dos Mineiros de Aljustrel

Nas minas de Aljustrel
Morreram muitos mineiros, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...

Trago a cabeça aberta
Que me abriu uma barrena, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...

Trago a camisa rota
E sangue de um camarada, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...

Santa Bárbara bendita
Padroeira dos mineiros, vê lá
Vê lá companheiro
Vê lá como venho eu...


- imaginam como venho eu!

Friday, January 20, 2012

Memória de Amílcar Cabral








(Bafatá, Guiné-Bissau, 12 de Setembro de 1924
Conacri, 20 de janeiro de 1973)

Thursday, January 19, 2012

Explicação da Eternidade


devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luís Peixoto

Wednesday, January 18, 2012

Memória de Ary dos Santos

Soneto escrito na morte de todos os antifascistas assassinados pela PIDE


Vararam-te no corpo e não na força
e não importa o nome de quem eras
naquela tarde foste apenas corça
indefesa morrendo às mãos das feras.

Mas feras é demais. Apenas hienas
tão pútridas tão fétidas tão cães
que na sombra farejam as algemas
do nome agora morto que tu tens.

Morreste às mãos da tarde mas foi cedo.
Morreste porque não às mãos do medo
que a todos pôs calados e cativos.

Por essa tarde havemos de vingar-te
por essa morte havemos de cantar-te:
Para nós não há mortos. Só há vivos.


José Carlos Ary dos Santos
(7 de Dezembro de 1937 - 18 de Janeiro de 1984)

Monday, January 16, 2012

Faço-me ao mar


Faço-me ao mar em dias de acalmia porque os dias de tempestade são para ficar a olhar-te, mar. Como és belo! Que força tens aí dentro que te faz lançar rugidos que afastam os pescadores da faina. Faço-me ao mar sempre que me deixas porque o meu respeito por ti é enorme, mar. Como és belo! Que sofrimento tens no teu ventre para berrares assim na hora do parto em que a onda se desfaz. Faço-me ao mar enfim todos os dias. Às vezes fico-me pela areia onde enterro os pés e me sorves. Outras atrevo-me a enfrentar-te porque preciso de te respirar. Dentro de ti. Beber-te. Lamber-te. Amar-te. A ti, sim. Como se fosses o meu mar...
Por isso me faço ao mar, em ti.

Wednesday, January 11, 2012

A casa


Deixaste-me num dia de outono quase inverno. Sem avisares e sem que pudesse prever. A casa fortaleza ficou igual um tempo. Igual por fora e gelada por dentro.

Os dias passaram e tudo mudou. Da casa restam as paredes, ainda altivas, mas no chão só existem pedras. Entre as pedras o teu coração.

Mais tarde percebi que a casa eras tu. E apressei-me a ir buscar, entre as pedras, o teu coração, que voltei a colocar no meu peito. Para te aquecer.

Foi então que saíste de mim e voaste...



Monday, January 09, 2012

Arranco-te de mim


Arranco de mim memórias que me fazem perder as palavras. Porque o que quero mesmo é continuar a respirá-las e a bebê-las. Todas as noites ou todas as madrugadas.
Arranco de mim momentos que pensei serem os nossos. Porque foi apenas na minha imaginação que eles existiram e tu não estavas. Em cada curva do meu caminho que era nosso.
Arranco-te de mim, por fim. E nem sabes como me sinto bem, assim...


Wednesday, January 04, 2012

Existe


Existe uma maré à tua espera.
Como existe um sorriso que te abraça.
Dos que aquecem.
E não esquecem.
Existe um barco à tua espera.
Como existem umas mãos que te querem.
Das que acariciam.
E te deliciam...
Existe uma linha ténue entre o ir e o vir.
O falar e o calar.
O estar e o ficar.
E eu fico.
Contigo.

Monday, January 02, 2012

Dia primeiro


Deixaste uma lágrima na onda do mar.
Fizeste do tempo um canteiro sem flores
E depois, nunca mais te ouvi cantar
A liberdade e as suas tantas cores...

Perdeste na memória os versos do caminho.
Ventos, tempestades, silêncios e os ecos dos sonhos teus
E depois, nunca mais chegaste de mansinho
Sem medo de um dia me dizeres adeus...

Calaste no toque do leito os gritos da aflição.
Correntes de um rio que teima em se perder
E depois, quem sabe, nas margens da tua eterna solidão
Consigas encontrar o verdadeiro tom do teu parecer...

Largaste no monte a voz, a pele... toda a tua essência.
Como quem pega num filho na hora do primeiro abraço
E depois, choras cada minuto da tua própria ausência
Nos partos que te pintam os sabores no teu cansaço...

Quiseste a vida, numa morte rouca tão presente.
Pedra a pedra, erguendo os soluços da tua morada
E depois, na embriaguez de tudo o que ainda se sente
Explodem fogos pela noite e ternuras pela madrugada...

Corre, vagabundo, pelas ruas desertas que inventas!
Sangra-te outra chaga para de novo conseguires:
A paz e o amor, que procuras e sempre tentas
Mesmo quando sofres assim sem nunca te ires...

Pedro Branco

Sunday, January 01, 2012

Recebendo 2012, acordada!



Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai

acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai

acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

(José Gomes Ferreira)