Friday, September 06, 2024

O monte e o rio


Na minha pátria tem um monte.
Na minha pátria tem um rio.
Vem comigo.
A noite sobe ao monte.
A fome desce ao rio.
Vem comigo.
E quem são os que sofrem?
Não sei, porém são meus.
Vem comigo.
Não sei, porém me chamam
e nem dizem: “Sofremos”
Vem comigo
E me dizem:
“Teu povo,
teu povo abandonado
entre o monte e o rio,
com dores e com fome,
não quer lutar sozinho,
te está esperando, amigo.”
Ó tu, a quem eu amo,
pequena, grão vermelho
de trigo,
a luta será dura,
a vida será dura,
mas tu virás comigo
Pablo Neruda

Saturday, August 31, 2024

Discurso de Aquilino Ribeiro

Uma imagem com Cara humana, retrato, esboço, quadro

Descrição gerada automaticamente

AQUILINO RIBEIRO

 

“Meus queridos camaradas, olhem sempre em frente, olhem para o sol, não tenham medo de errar sendo originais, iconoclastas, o mais anti que puderem, e verdadeiros, fugindo aos velhos caminhos trilhados de pé posto e a todas as conjuras dos velhos do restelo. Cultivem a inquietação como uma fonte de renovamento. E, enquanto vivermos, façamos de conta que trabalhamos para a eternidade e que tudo o que é produção do nosso espírito fica gravado em bronze para juízes implacáveis julgarem à sua hora”.

.  Uma imagem com escrita à mão, file, Tipo de letra, desenhos de criança

Descrição gerada automaticamente

— AQUILINO RIBEIRO (Sernancelhe, Viseu, 13 de Setembro de 1885 — Lisboa, 27 de Maio de 1963), escritor, no discurso que proferiu aquando da homenagem que lhe foi prestada pelos seus 50 anos de vida literária.

Sunday, August 25, 2024

Wednesday, August 21, 2024

Amiga

Quando já nada resta
nem o cavalinho de pau
em que guardámos
os sonhos das crianças
Quando o fumo da cidade
nos dói de pólvora e estilhaços
porque das chaminés não sobra
nem sequer o preconceito
Ergue-se ainda, confusa e serena,
uma esperança, uma amiga,
a glória e a raiva
vermelha e doce
que nos incendeia a vida.
CG
28.11.1977

Sunday, August 18, 2024

Alma ausente


No te conoce el toro ni la higuera,
ni caballos ni hormigas de tu casa.
No te conoce el niño ni la tarde
porque te has muerto para siempre.
No te conoce el lomo de la piedra,
ni el raso negro donde te destrozas.
No te conoce tu recuerdo mudo
porque te has muerto para siempre.
El otoño vendrá con caracolas,
uva de niebla y montes agrupados,
pero nadie querrá mirar tus ojos
porque te has muerto para siempre.
Porque te has muerto para siempre,
como todos los muertos de la Tierra,
como todos los muertos que se olvidan
en un montón de perros apagados.
No te conoce nadie. No. Pero yo te canto.
Yo canto para luego tu perfil y tu gracia.
La madurez insigne de tu conocimiento.
Tu apetencia de muerte y el gusto de su boca.
La tristeza que tuvo tu valiente alegría.
Tardará mucho tiempo en nacer, si es que nace,
un andaluz tan claro, tan rico de aventura.
Yo canto su elegancia con palabras que gimen
y recuerdo una brisa triste por los olivos.
Federico Garcia Lorca

Saturday, August 17, 2024

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade
31.10.1902 - 17.8.1987

Wednesday, August 07, 2024

Memória da Mísia

Da página do Diogo Varela Silva

Hoje despedimo-nos da Mísia. Foi abraçada pelo xaile da sua avó, o mesmo xaile que a abraçava neste vídeo.
Foi com uma lágrima no olho e um sorriso maroto (tão típico nela) que nos despedimos, numa linda cerimónia, onde, entre outras coisas, a Isabel Ruth nos leu a Carta a Deus, de Mísia:
Mísia
July 26, 2017 ·
CARTA A DEUS ( Mísia)
Querido Deus
Não sei se te lembras de mim e de um episódio passado há muito tempo, no Colégio Liverpool no Porto. Com treze anos e depois de ler "Porque não sou Cristão" (tu sabes qual o autor), com a frontalidade que ainda hoje conservo, fui direita bater à porta do gabinete da Madre Directora comunicar-lhe pessoalmente que já não acreditava em Ti.
A seguir deitei fora a minha coleção de santinhos de que tanto gostava , suas nuvens trespassadas por feixes de luz celestial.
Interna desde os seis anos, fiquei mais só a partir desse dia. Uma solidão cósmica, sem nenhuma luz ao fundo do corredor. Viisualizava-me como uma astronauta pendurada pelo cordão da cápsula espacial, com o negro infinito do espaço como edredon eterno.
Três anos mais tarde li "O Mito de Sísifo" e então aí é que ficou tudo estragado entre nós.
Hoje percebo que a função da ideia de Ti teria sido uma útil consolação para o vazio afectivo daqueles anos e dos seguintes. Mas nesse tempo eu ainda não possuia a sabedoria necessária para aceitar que a verdade não é o que mais interessa, e que a ideia de Ti não tem um valor fixo.
Não sabia que a tua morte pode ser um enorme vazio, sobretudo para uma agnóstica como eu.
Sou hoje uma agnóstica não praticante. Pago promessas na ilha japonesa de Enoshima, a BentenSan - ciumenta deusa das gueishas, dos artistas e jogadores - e trago sempre comigo um minusculo Stº António (versão homeopática )que faz tudo o que lhe peço: só milagres muito pequeninos e sempre possíveis.
De facto, nunca me refiz do luto de Ti .
Por isso a voz desta carta é ainda a daquela aluna que não quis mentir por omissão. Por isso, esta é uma carta íntima só entre tu e eu , um textinho sem grandeza ou sombra literária , sem pretensões deontológicas. Nada de Heidegger , Levinas , Nietzsche ou Coleridge e a sua suspensão da incredulidade.
Querido Deus, tenho tantas perguntas a fazer-te! Algumas desde os treze anos, outras desde ontem.
É verdade que depois de crear o mundo, te foste embora não vendo assim o que fizeste?
Nunca viste os tsunamis que nos engolem, os fogos que nos abrasam, os ventos que nos estrelam contra coisas duras, e os raios que nos partem?
Nem as crianças em fase terminal nos hospitais morrendo devagar , com olhos febris como lagos cintilantes?
Porquê tiveste tanta imaginação para células doentes e virus mutantes?
Não sabes nada da falta de compaixão da humanidade, da tortura , das violações, da crueldade entre nós ? Do nosso sofrimento físico e moral ? "Heavy furniture", querido Deus....
Talvez as minhas perguntas te pareçam impertinentemente ingénuas, mas - qual Lilith- fiquei para sempre cristalizada no estádio de estarrecimento primário que me provocou e provoca o tipo de lugar em que nos puseste.
Dirás que só te falo de grandes catástrofes e da barbárie mais extrema. Que as flores são lindas ,que as joaninhas têm design dos sixties, que os passarinhos cantam e que as crianças sorriem sem motivo. Sim, são excelentes argumentos aos quais sou sensível, mas não chegam para acalmar mil dúvidas (algumas bastante quotidianas), acumuladas desde o Colégio Liverpool.
És capaz de assitir a um documentário da National Geographic sem tapar os olhos quando o bebé antilope mais frágil, de pernas a tremelicar imenso, vai ser mesmo comido ?
E a calçada portuguesa, não podias fazer de maneira que continuasse a ser "tãaao linda! " mas menos letal de modo a não enviar para a traumatologia os idosos com osteoporose ? E já agora, que também se pudesse andar com sapatos de tacão sem o risco de partirmos a moleirinha?
Não achas que evitar a segunda parte de Bambi teria sido uma boa operação de marketing para a tua imagem?
Por favor Deus, diz que sim!Não podias inventar um nome mais poético para Ranholas?
Temos também o caso da estátua do Pessoa no Chiado - ele tão pouco sociável- numa exposição sem defesa, entregue aos turistas de Badajoz. Achas que ele merecia uma coisa assim?
E pela Tua Santa Saúde, nao podias aconselhar o João Braga a decidir de uma vez por todas em que tom quer cantar?
Desculpa a irrelevância e a provocação de algumas questões mas como muito bem sabes, fizeste-me irresistivelmente imperfeita. Poderia continuar a importunar-te com a minha curiosidade, mas com que sentido perguntar ad aeternum?
Não sei se algum dia e de que maneira me responderás. ...Nem sei se ainda quero as Tuas respostas. Era de facto mais fácil até aos treze anos quando estavas dentro de mim e não precisava de te escrever.
Lenta genuflexão,
Mísia
Ps: Ah, já me esquecia!
Obrigada pelos pinguins, cães salsichas, peixinhos da horta e tremoços .
Pela maravilhosa Celeste Rodrigues, Yoshitomo Nara e Mahler.
Obrigada pelas palavras" cogumelo e borboleta ".(Delete "fronha" please)
Obrigada pelo milagre das cerejeiras em flor e pelos barquinhos de papel.
Ten points por Veneza! Yess!
Sincera e eternamente agradecida pelo meu fantástico gato Virgula!

Saturday, August 03, 2024

Princípio do fim de Salazar

Princípio do fim de Salazar começou a 3 de Agosto de 1968
Hilário emprestou-lhe o «Diário de Notícias». O ditador de Santa Comba Dão, que governava o país com punho de ferro e era «muito cabeça no ar», como recordava o seu barbeiro Manuel Marques, deixou-se cair para uma cadeira de lona.
Com o peso, António Oliveira Salazar tomba para trás. Com violência, cai no chão e a cabeça dá uma pancada nas lajes do terraço do forte onde anualmente passava as férias, acompanhado pela governanta, Maria de Jesus, a famosa D. Maria.
D. Maria, e Hilário, que estava a lavar as mãos numa bacia, precipitam-se para Salazar. Ele levanta-se, atordoado. Queixa-se de dores no corpo, mas pede segredo sobre a queda nem quer que chamem os médicos - é o que conta Franco Nogueira, no livro «Salazar, Volume VI - O Último Combate (1964-70)».
Outra testemunha, o barbeiro Manuel Marques, contou Fernando Dacosta, na revista Visão, em 1998, contraria esta tese. Afinal, Salazar não caiu na cadeira de lona, já desaparecida, mas tombou no chão desamparado.
Diz o barbeiro que Salazar «não se apercebeu, nessa manhã que a cadeira, onde se deveria instalar, se encontrava fora do sítio». «O dr. Salazar era muito educado, mas muito cabeça no ar», lembra.
A vida de António Oliveira Salazar prossegue normal. Hilário trata as unhas do ditador e só três dias depois é que o médico do presidente do conselho com o que se passou ao seu médico, Eduardo Coelho.
A 19 de Agosto, embora mal disposto, o chefe do executivo vai ao Palácio de Belém para assistir à posse daquele que viria a ser o seu último governo.
Só 16 dias depois, a 04 de Setembro, Salazar admite que se sente doente - «não sei o que tenho». A 06 de Setembro, à noite, sai um carro de São Bento. Com o médico, Salazar e, no lugar da frente, o director da PIDE, Silva Pais.
Envolto na noite e em segredo, a Censura encarregava-se de evitar qualquer notícia, Salazar é internado no Hospital de São José e os médicos não se entendem quanto ao diagnóstico - hematoma intracraniano ou trombose cerebral - mas concordam que é preciso operar, o que acontece a 07 de Setembro.
Só nesse dia sai o primeiro boletim clínico e se resume a uma frase: «O sr. Presidente de Conselho foi operado esta noite de um hematoma, sob anestesia local, encontrando-se bem».
A 16 de Setembro, o ditador desmaia, no Centro de Saúde de Benfica, onde ficou internado, e a situação agrava-se com uma hemorragia no cérebro. A médicos e até ao Cardeal Cerejeira é exigido segredo.
Nove dias depois, o presidente Américo Tomás é informado pelos médicos de que «a vida política de Salazar está terminada» e começam os contactos para formar um novo governo.
A 26 de Setembro, Tomás anuncia a substituição de Salazar e no dia seguinte Marcelo Caetano toma posse. O ditador tinha governado Portugal 40 anos, quatro meses e 28 dias.
O país é informado da substituição de Salazar por Marcelo, que dá início a uma tentativa de abertura do regime, mas o professor de finanças públicas foi o único a pensar que ainda estava na cadeira do poder.
A encenação à volta do ex-presidente do conselho deposto durou ainda dois anos.
«Há uma ficção de tragédia posta em teatro: Salazar vivendo na residência oficial do chefe de Governo. Salazar recebendo ministros, embaixadores, jornalistas estrangeiros. Salazar discutindo política, concedendo entrevistas. E Salazar sendo somente um grande inválido despojado de todo o poder terreno, cidadão como os outros, sem dúvida carregado de passado, de história, de simbologia nos seus princípios, e do poder próprio de uma autoridade moral», escreve Franco Nogueira.
A 15 de Julho de 1970, é acometido por uma grave «doença infecciosa» e 11 dias depois Salazar agoniza com perturbações cardiovasculares, funções renais, edema pulmonar. Gomes Duarte, pároco da Estrela, dá-lhe a extrema-unção.
Os médicos declararam a morte de António Oliveira Salazar às 09:15 de 27 de Julho de 1970. Morreu aos 81 anos.

Diário Digital / Lusa

Sunday, July 28, 2024

o caminho


talvez tenhamos escolhido o mais acidentado dos trilhos
porque os suaves não tinham sequer início
talvez a lonjura do possível
voe nas asas desse pássaro quase negro
no ardor sob o peito que prende ao diafragma o pulmão
e faz temer o colapso do amor-abismo
de onde todos queremos precipitar-nos
em salto de fé
o mapa não está revelado
mas sabemos que há demasiadas fortificações pelo caminho
assaltá-las-emos de exércitos unidos
derrubando os monarcas de todo o continente um-por-um
e espalhando cactos que, mesmo sem água séculos,
florescerão em jardim.

Miguel Tiago

Sunday, July 14, 2024

Plateia

Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.

Miguel Torga
in “Câmara Ardente” - 1962

Monday, July 01, 2024

Fausto Bordalo Dias


O PCP manifesta o seu pesar pelo falecimento de Fausto Bordalo Dias, um dos nomes marcantes da música portuguesa.

O PCP salienta o papel de Fausto Bordalo Dias, o compositor e cantor, criador de muitas das mais belas canções portuguesas ao longo de toda a sua carreira artística.

O PCP jamais esquecerá o facto de Fausto Bordalo Dias ter aceite o convite, em 1985, para fazer o arranjo musical da Carvalhesa, música popular portuguesa, originária de Trás-os-Montes que acompanha a actividade política do PCP em sucessivas campanhas eleitorais e na Festa do Avante!, que desperta de forma viva e entusiástica a alegria e confiança no futuro.

Neste momento difícil, o PCP endereça à família as mais sentidas condolências.

Sunday, June 23, 2024

Canção da minha tristeza

Meu coração não está nas largas avenidas
nem repousa à tarde, para lá do rio.
Nada acontece. Nada. Nem, ao menos, tu
virás despentear os meus cabelos.
Nem, ao menos, tu, neste tempo de angústia
vens dizer o meu nome ou cobrir-me de beijos.
Ah, meu coração não está nas largas avenidas
nem repousa à tarde, para lá do rio.
A cidade enlouquece os meus olhos de pássaro.
Eu recuso as palavras. Sei o nome da chuva.
Quero amar-te, sim. Mas tu hoje não voltas.
Tu não virás, nunca mais, ó minha amiga.
Nada acontece. Nada. E eu procuro-te
por dentro da noite, com mãos de surpresa.
Meu coração não está nas largas avenidas
nem repousa à tarde, para lá do rio.
E tu, longe, longe. Onde estás meu amor,
que não vens despentear os meus cabelos?
Eu quero amar-te. Mas tu hoje não voltas.
Tu não virás, nunca mais, ó minha amiga.

Joaquim Pessoa

Wednesday, June 19, 2024

Nos 80 anos de Chico



Hoje o amigo Chico Buarque completa 80 anos de vida.
Muitos parabéns ao artista brasileiro!

Lanzarote, 19 de março de 1997
Meu caro Chico,
Acabámos de ouvir a belíssima música e as belíssimas palavras de Levantados do Chão. Ouvimo-las emocionados, como se as estivessem cantando todos os homens e mulheres sem terra desse dorido Brasil. Graças ao teu talento e ao teu coração generoso, a gente sofredora do campo tem agora o seu hino. Oxalá ele venha a ser cantado e ouvido em todas as partes do mundo onde falta a justiça e o direito é negado. Quanto a mim, ficar-te-ei para sempre agradecido por teres dado à tua canção o título de um livro meu. Podes imaginar a alegria que isso me dá. E também o orgulho.
Recebe o nosso fraterno abraço,

José Saramago
In "Saramago, os seus nomes" (Porto Editora e Companhia das Letras, 2022) 

LEVANTADOS DO CHÃO
Milton "Bituca" Nascimento e Chico Buarque
Como então? Desgarrados da terra?
Como assim? Levantados do chão?
Como embaixo dos pés uma terra
Como água escorrendo da mão?
Como em sonho correr numa estrada?
Deslizando no mesmo lugar?
Como em sonho perder a passada
E no oco da Terra tombar?
Como então? Desgarrados da terra?
Como assim? Levantados do chão?
Ou na planta dos pés uma terra
Como água na palma da mão?
Habitar uma lama sem fundo?
Como em cama de pó se deitar?
Num balanço de rede sem rede
Ver o mundo de pernas pro ar?
Como assim? Levitante colono?
Pasto aéreo? Celeste curral?
Um rebanho nas nuvens? Mas como?
Boi alado? Alazão sideral?
Que esquisita lavoura! Mas como?
Um arado no espaço? Será?
Choverá que laranja? Que pomo?
Gomo? Sumo? Granizo? Maná?


Sunday, June 09, 2024

O cinzento dos dias


É o cinzento dos dias e a humidade no corpo que nos faz ficar assim. O frio que não escolhe e nos encolhe. A distância que de repente fica mais distante ainda, a uma lonjura difícil de chegar. O mar que deixou de ser azul e nestes dias se pinta de castanho. As ondas que se atiram contra nós em vez de rebentarem suavemente... em espuma de mel.
São dias de fome. E de sede.
São noites de silêncio em que nos ouvimos em gritos calados. São as palavras a rebentarem o peito e a ficarem aprisionadas nos dedos. É o sim e o não sem sabermos porquê.
Abro uma garrafa de tinto antigo, deixo-o aquecer até aos 17 graus. Já cheira a pão quente. O doce de abóbora ainda está morno. Falta o requeijão de Seia. E faltas tu.

Saturday, June 08, 2024

A Nêspera


Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
 
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
 
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
Mário Henrique Leiria

Monday, June 03, 2024

**

Porque os nós são pele
Porque a pele é tua
Tal como os cheiros
Deixas os teus braços inteiros
Sempre prontos, sempre primeiros
Na tua fonte de seres nua
Porque os nós são mar
Em cada ilha que se perpetua
Tal como as fomes quentes
Deixas os teus braços presentes
Sempre prontos, sempre ardentes
Na tua fonte de seres nua.
Como nos velhos tempos, Maria!
Pedro Branco

Thursday, May 30, 2024

47A 10M 24D

 


«A cidade apareceu ocupada e radiosa. Deparámos com colunas militares, inundadas de sol; e povo logo a seguir, muito povo, tanto que não cabia nos olhos, levas de gente saída do branco das trevas, de cinquenta anos de morte e de humilhação, correndo sem saber exactamente para onde mas decerto para a LIBERDADE!
 
Liberdade, Liberdade, gritava-se em todas as bocas, aquilo crescia, espalhava-se num clamor de alegria cega, imparável, quase doloroso, finalmente a Liberdade!, cada pessoa olhando-se aos milhares em plena rua e não se reconhecendo porque era o fim do terror, o medo tinha acabado, ia com certeza acabar neste dia, neste Abril, Abril de facto, nós só agora é que acreditávamos que estávamos em primavera aberta depois de quarenta e sete anos de mentira, de polícia e ditadura. Quarenta e sete anos, dez meses e vinte e quatro dias, só agora.»
 
José Cardoso Pires


Monday, May 27, 2024

Natureza-Morta com Frutos

 
1.
O sangue matinal das framboesas
escolhe a brancura do linho para amar.

2.
A manhã cheia de brilhos e doçura
debruça o rosto puro na maçã.

3.
Na laranja o sol e a lua
dormem de mãos dadas.

4.
Cada bago de uva sabe de cor
o nome dos dias todos do verão.

5.
Nas romãs eu amo
o repouso no coração do lume.

Eugénio de Andrade

Sunday, May 05, 2024

1º de Maio de 1982 no Porto

 O sangrento 1º de Maio do Porto e os mortos esquecidos de 1982

O sangrento 1º de  Maio do Porto e os mortos esquecidos de 1982
Durante duas horas, homens fardados e sem freio batem e disparam às cegas. Os jornalistas “comem como os outros”, dirá um deles. Afinal, justifica, estavam ali “para bater e não para chamar ambulâncias”. Nem o serviço de Urgência do Hospital de Santo António é poupado: entram espumando e carregam sobre familiares de feridos.

O dia é 30 de abril de 1982. D. António Ferreira Gomes, bispo resignatário do Porto, recebe a medalha de ouro da cidade. A companhia Seiva Trupe estreia A Dama de Copas. O Coliseu anuncia boxe profissional a 250 escudos o bilhete, para maiores de 14. O Porto amanhece soalheiro, mas tem a noite pendente dos meses de brasa vividos por conta da guerra inflamada por dirigentes sindicais, políticos e editores de jornal: pela primeira vez, com a ajuda do Governo Civil, a UGT conquista à CGTP o direito de comemorar o “Dia do Trabalhador” em plena baixa.

“Risco de confrontos”, alerta-se nas primeiras páginas dos jornais. A “polícia de choque”, dita de Intervenção, avança da capital para o Porto munida de escudos, bastões, G-3, pistolas e gases lacrimogénios. Há comícios marcados de véspera e na Avenida dos Aliados desenham-se trincheiras: os apaniguados de Torres Couto, então secretário-geral da UGT instalam-se em frente ao edifício da Câmara Municipal, protegidos por um cordão policial. A CGTP ocupa a outra fatia da “sala de visitas” da cidade. Um cordão humano de “intersindicais” insulta e protesta contra o aparato policial, junto ao evento da UGT. “A baixa é do povo!”, gritam.

São nove horas da noite. A RTP transmite Plantão de Polícia e anuncia, para depois, o concurso Toma Lá, Dá Cá. O boxe já começou no Coliseu.

O comando distrital da PSP assume as operações e dispersa alguns agitadores à bastonada, sem grandes escaramuças. Às 23 horas, Ramos Rocha, comandante das forças no terreno, adivinha um resto de noite calmo: “Não deve haver mais problemas”, afirma. Magalhães Teixeira, comissário e responsável direto pelos pelotões da “polícia de choque” em diversas artérias de acesso à baixa, tem outros planos. Sem fazer caso da aparente tranquilidade e das ordens superiores para atuar apenas em “caso extremo”, ordena a carga policial. Rua a rua. Sem olhar a quem.

Para descrever o cenário que se seguiu, a Procuradoria-Geral da República não poupou nas palavras: “[Os polícias] agrediram indiscriminadamente todas as pessoas que se encontravam à sua frente, à bastonada e a pontapé, e às vezes com obscenidades, independentemente do sexo e idade; quer arremessassem pedras ou nada fizessem; quer fossem em fuga ou simplesmente estivessem paradas, mormente abrigadas em paragens de autocarros ou nas soleiras dos prédios. Todos eram agredidos, muitas vezes de forma selvática e por mais de um elemento policial contra a mesma pessoa, mesmo que esta se encontrasse prostrada no chão e indefesa”. Fim de citação.

Durante duas horas, homens fardados e sem freio batem e disparam às cegas. Os jornalistas “comem como os outros”, dirá um deles. Afinal, justifica, estavam ali “para bater e não para chamar ambulâncias”. Nem o serviço de Urgência do Hospital de Santo António é poupado: entram espumando e carregam sobre familiares de feridos. Foi necessária a intervenção de médicos e enfermeiros para que a violência parasse. “Pareciam cães”, lembra uma manifestante. Alguns policias dizem-se também agredidos e feridos, mas são apenas tratados a “torsões lombares” causadas pela brutalidade com que usaram os bastões.

Passa da meia-noite quando Pedro Vieira, 24 anos, operário têxtil e dirigente sindical, sai do cinema com a namorada. É apanhado pelos acontecimentos e vê-se obrigado a fugir à sanha policial. Os amigos fazem o mesmo. Ele desata a correr a caminho da ponte D. Luíz I, em direção a Gaia, onde mora. Um polícia dispara e atinge­-o, pelas costas. Alvejado, Pedro corre ainda alguns metros, amparado pelos amigos. Por pouco tempo. Cai minutos depois, inerte, em consequência de lesões no tórax.

Quase duas horas mais tarde, Mário Gonçalves, 17 anos, olha, incrédulo, para as cenas que se desenrolam à sua frente. É vendedor ambulante, não é manifestante, observa apenas, enquanto conversa com os amigos, bem perto da Estação de São Bento. A agitação amedronta-o. Os amigos correm e ele, atrás de um muro, espreita. Um polícia dispara. E corre a confirmar o feito, olhar vazio num rosto de sangue. “Foi uma coisa horrível. O meu filho mais pequeno até se mijou com os nervos, de medo”, conta uma vizinha do morto ao jornalista Manuel António Pina. Mário não estava a fazer nada. Era filho de gente simples, humilde. Anos depois, a família há de contentar-se com uma indemnização, “a primeira vez que o Estado assumiu, de algum modo, a responsabilidade por excessos da polícia”, precisou, em tempos, o advogado José Afonso.

A 1 de Maio de 1982, a morte saiu à rua. Feridos, foram às dezenas. Podia ter sido pior, comentou-se, à época: “Vi um polícia tentar atingir uma pessoa pelas costas. E só não o fez porque a arma encravou no momento do disparo”, recorda Alfredo Mendes, antigo jornalista do DN, repórter na noite sangrenta do Porto. Inquiriu-se, investigou-se, nada. Só as balas extraídas dos cadáveres falam: o calibre é usado apenas por graduados (comissários, chefes de esquadra e sub-chefes) do Corpo de Intervenção.

O País ferve. O Governo da Aliança Democrática (AD), presidido por Pinto Balsemão, “lança a polícia na rua, deixa que agentes enfurecidos persigam gente desarmada”, lê-se no editorial do semanário O Jornal, que reclama o apuramento dos factos até às últimas consequências. Ramalho Eanes, Presidente da República, indigna-se. Pede-se a demissão de Ângelo Correia, Ministro da Administração Interna, então figura de anedotário nacional por causa de uma fantasiosa “revolta dos pregos”, fake news da época. Mas o homem não se demite.

Maio adentro, CGTP e UGT responsabilizam-se mutuamente. Rui Oliveira e Costa, homem próximo de Torres Couto, acusa a Intersindical de utilizar trabalhadores “como carne para canhão”. O Governo lava as mãos.

Sucedem-se as crises no seio da coligação governamental, o País arde em greves, manifestações. As notícias dão conta das dificuldades de Ramalho Eanes, inquilino de Belém, para deitar água nas várias fervuras. Mário Soares é o líder da oposição. Álvaro Cunhal é o secretário-geral do PCP. Mas a esquerda só concorda na divergência. UGT e CGTP radicalizam acusações. A crise económica é real. Noticia-se o saneamento de dirigentes sindicais, o despedimento de mulheres grávidas. Os acontecimentos do Porto, quase poderia dizer-se, são um retrato da época. Carregado nas tintas.

Entretanto, o Papa João Paulo II está para chegar. A CGTP pede uma audiência a Sua Santidade, pois pretende relatar-lhe, de viva voz, as horas sangrentas do Porto. “Agenda carregada”, respondem do Vaticano. O bispo também não recebe. O pároco da Sé, esse, recusa dizer missa em homenagem aos mortos do 1º de Maio.

O funeral das vítimas entope as principais artérias da baixa da cidade. As ruas irrigam-se de protestos. O País veste de luto. Torres Couto comenta: “Foi uma passeata de dois caixões pela cidade”.

(A partir de um artigo publicado na VISÃO, a 24 de Abril de 2002)

Miguel Carvalho

Visão, 30.04.2019 às 17h24