Friday, September 06, 2024
O monte e o rio
Saturday, August 31, 2024
Discurso de Aquilino Ribeiro
“Meus queridos camaradas, olhem sempre em frente, olhem para o sol, não tenham medo de errar sendo originais, iconoclastas, o mais anti que puderem, e verdadeiros, fugindo aos velhos caminhos trilhados de pé posto e a todas as conjuras dos velhos do restelo. Cultivem a inquietação como uma fonte de renovamento. E, enquanto vivermos, façamos de conta que trabalhamos para a eternidade e que tudo o que é produção do nosso espírito fica gravado em bronze para juízes implacáveis julgarem à sua hora”.
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— AQUILINO RIBEIRO (Sernancelhe, Viseu, 13 de Setembro de 1885 — Lisboa, 27 de Maio de 1963), escritor, no discurso que proferiu aquando da homenagem que lhe foi prestada pelos seus 50 anos de vida literária.
Sunday, August 25, 2024
Wednesday, August 21, 2024
Amiga
Sunday, August 18, 2024
Alma ausente
Saturday, August 17, 2024
Amar
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.
Carlos Drummond de Andrade
31.10.1902 - 17.8.1987
Wednesday, August 07, 2024
Memória da Mísia
Saturday, August 03, 2024
Princípio do fim de Salazar
Diário Digital / Lusa
Sunday, July 28, 2024
o caminho
porque os suaves não tinham sequer início
talvez a lonjura do possível
voe nas asas desse pássaro quase negro
no ardor sob o peito que prende ao diafragma o pulmão
e faz temer o colapso do amor-abismo
de onde todos queremos precipitar-nos
em salto de fé
o mapa não está revelado
mas sabemos que há demasiadas fortificações pelo caminho
assaltá-las-emos de exércitos unidos
derrubando os monarcas de todo o continente um-por-um
e espalhando cactos que, mesmo sem água séculos,
florescerão em jardim.
Miguel Tiago
Sunday, July 14, 2024
Plateia
Monday, July 01, 2024
Fausto Bordalo Dias
O PCP manifesta o seu pesar pelo falecimento de Fausto Bordalo Dias, um dos nomes marcantes da música portuguesa.
O PCP salienta o papel de Fausto Bordalo Dias, o compositor e cantor, criador de muitas das mais belas canções portuguesas ao longo de toda a sua carreira artística.
O PCP jamais esquecerá o facto de Fausto Bordalo Dias ter aceite o convite, em 1985, para fazer o arranjo musical da Carvalhesa, música popular portuguesa, originária de Trás-os-Montes que acompanha a actividade política do PCP em sucessivas campanhas eleitorais e na Festa do Avante!, que desperta de forma viva e entusiástica a alegria e confiança no futuro.
Neste momento difícil, o PCP endereça à família as mais sentidas condolências.
Sunday, June 23, 2024
Canção da minha tristeza
Wednesday, June 19, 2024
Nos 80 anos de Chico
Hoje o amigo Chico Buarque completa 80 anos de vida.
Muitos parabéns ao artista brasileiro!
Lanzarote, 19 de março de 1997
Meu caro Chico,
Acabámos de ouvir a belíssima música e as belíssimas palavras de Levantados do Chão. Ouvimo-las emocionados, como se as estivessem cantando todos os homens e mulheres sem terra desse dorido Brasil. Graças ao teu talento e ao teu coração generoso, a gente sofredora do campo tem agora o seu hino. Oxalá ele venha a ser cantado e ouvido em todas as partes do mundo onde falta a justiça e o direito é negado. Quanto a mim, ficar-te-ei para sempre agradecido por teres dado à tua canção o título de um livro meu. Podes imaginar a alegria que isso me dá. E também o orgulho.
Recebe o nosso fraterno abraço,
José Saramago
In "Saramago, os seus nomes" (Porto Editora e Companhia das Letras, 2022)
Sunday, June 09, 2024
O cinzento dos dias
É o cinzento dos dias e a humidade no corpo que nos faz ficar assim. O frio que não escolhe e nos encolhe. A distância que de repente fica mais distante ainda, a uma lonjura difícil de chegar. O mar que deixou de ser azul e nestes dias se pinta de castanho. As ondas que se atiram contra nós em vez de rebentarem suavemente... em espuma de mel.
São dias de fome. E de sede.
São noites de silêncio em que nos ouvimos em gritos calados. São as palavras a rebentarem o peito e a ficarem aprisionadas nos dedos. É o sim e o não sem sabermos porquê.
Abro uma garrafa de tinto antigo, deixo-o aquecer até aos 17 graus. Já cheira a pão quente. O doce de abóbora ainda está morno. Falta o requeijão de Seia. E faltas tu.
Saturday, June 08, 2024
A Nêspera
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
Monday, June 03, 2024
**
Thursday, May 30, 2024
47A 10M 24D
«A cidade apareceu ocupada e radiosa. Deparámos com colunas militares, inundadas de sol; e povo logo a seguir, muito povo, tanto que não cabia nos olhos, levas de gente saída do branco das trevas, de cinquenta anos de morte e de humilhação, correndo sem saber exactamente para onde mas decerto para a LIBERDADE!
Liberdade, Liberdade, gritava-se em todas as bocas, aquilo crescia, espalhava-se num clamor de alegria cega, imparável, quase doloroso, finalmente a Liberdade!, cada pessoa olhando-se aos milhares em plena rua e não se reconhecendo porque era o fim do terror, o medo tinha acabado, ia com certeza acabar neste dia, neste Abril, Abril de facto, nós só agora é que acreditávamos que estávamos em primavera aberta depois de quarenta e sete anos de mentira, de polícia e ditadura. Quarenta e sete anos, dez meses e vinte e quatro dias, só agora.»
José Cardoso Pires
Monday, May 27, 2024
Natureza-Morta com Frutos
1.
O sangue matinal das framboesas
escolhe a brancura do linho para amar.
2.
A manhã cheia de brilhos e doçura
debruça o rosto puro na maçã.
3.
Na laranja o sol e a lua
dormem de mãos dadas.
4.
Cada bago de uva sabe de cor
o nome dos dias todos do verão.
5.
Nas romãs eu amo
o repouso no coração do lume.
Eugénio de Andrade
Sunday, May 05, 2024
1º de Maio de 1982 no Porto
O sangrento 1º de Maio do Porto e os mortos esquecidos de 1982

O dia é 30 de abril de 1982. D. António Ferreira Gomes, bispo resignatário do Porto, recebe a medalha de ouro da cidade. A companhia Seiva Trupe estreia A Dama de Copas. O Coliseu anuncia boxe profissional a 250 escudos o bilhete, para maiores de 14. O Porto amanhece soalheiro, mas tem a noite pendente dos meses de brasa vividos por conta da guerra inflamada por dirigentes sindicais, políticos e editores de jornal: pela primeira vez, com a ajuda do Governo Civil, a UGT conquista à CGTP o direito de comemorar o “Dia do Trabalhador” em plena baixa.
“Risco de confrontos”, alerta-se nas primeiras páginas dos jornais. A “polícia de choque”, dita de Intervenção, avança da capital para o Porto munida de escudos, bastões, G-3, pistolas e gases lacrimogénios. Há comícios marcados de véspera e na Avenida dos Aliados desenham-se trincheiras: os apaniguados de Torres Couto, então secretário-geral da UGT instalam-se em frente ao edifício da Câmara Municipal, protegidos por um cordão policial. A CGTP ocupa a outra fatia da “sala de visitas” da cidade. Um cordão humano de “intersindicais” insulta e protesta contra o aparato policial, junto ao evento da UGT. “A baixa é do povo!”, gritam.
São nove horas da noite. A RTP transmite Plantão de Polícia e anuncia, para depois, o concurso Toma Lá, Dá Cá. O boxe já começou no Coliseu.
O comando distrital da PSP assume as operações e dispersa alguns agitadores à bastonada, sem grandes escaramuças. Às 23 horas, Ramos Rocha, comandante das forças no terreno, adivinha um resto de noite calmo: “Não deve haver mais problemas”, afirma. Magalhães Teixeira, comissário e responsável direto pelos pelotões da “polícia de choque” em diversas artérias de acesso à baixa, tem outros planos. Sem fazer caso da aparente tranquilidade e das ordens superiores para atuar apenas em “caso extremo”, ordena a carga policial. Rua a rua. Sem olhar a quem.
Para descrever o cenário que se seguiu, a Procuradoria-Geral da República não poupou nas palavras: “[Os polícias] agrediram indiscriminadamente todas as pessoas que se encontravam à sua frente, à bastonada e a pontapé, e às vezes com obscenidades, independentemente do sexo e idade; quer arremessassem pedras ou nada fizessem; quer fossem em fuga ou simplesmente estivessem paradas, mormente abrigadas em paragens de autocarros ou nas soleiras dos prédios. Todos eram agredidos, muitas vezes de forma selvática e por mais de um elemento policial contra a mesma pessoa, mesmo que esta se encontrasse prostrada no chão e indefesa”. Fim de citação.
Durante duas horas, homens fardados e sem freio batem e disparam às cegas. Os jornalistas “comem como os outros”, dirá um deles. Afinal, justifica, estavam ali “para bater e não para chamar ambulâncias”. Nem o serviço de Urgência do Hospital de Santo António é poupado: entram espumando e carregam sobre familiares de feridos. Foi necessária a intervenção de médicos e enfermeiros para que a violência parasse. “Pareciam cães”, lembra uma manifestante. Alguns policias dizem-se também agredidos e feridos, mas são apenas tratados a “torsões lombares” causadas pela brutalidade com que usaram os bastões.
Passa da meia-noite quando Pedro Vieira, 24 anos, operário têxtil e dirigente sindical, sai do cinema com a namorada. É apanhado pelos acontecimentos e vê-se obrigado a fugir à sanha policial. Os amigos fazem o mesmo. Ele desata a correr a caminho da ponte D. Luíz I, em direção a Gaia, onde mora. Um polícia dispara e atinge-o, pelas costas. Alvejado, Pedro corre ainda alguns metros, amparado pelos amigos. Por pouco tempo. Cai minutos depois, inerte, em consequência de lesões no tórax.
Quase duas horas mais tarde, Mário Gonçalves, 17 anos, olha, incrédulo, para as cenas que se desenrolam à sua frente. É vendedor ambulante, não é manifestante, observa apenas, enquanto conversa com os amigos, bem perto da Estação de São Bento. A agitação amedronta-o. Os amigos correm e ele, atrás de um muro, espreita. Um polícia dispara. E corre a confirmar o feito, olhar vazio num rosto de sangue. “Foi uma coisa horrível. O meu filho mais pequeno até se mijou com os nervos, de medo”, conta uma vizinha do morto ao jornalista Manuel António Pina. Mário não estava a fazer nada. Era filho de gente simples, humilde. Anos depois, a família há de contentar-se com uma indemnização, “a primeira vez que o Estado assumiu, de algum modo, a responsabilidade por excessos da polícia”, precisou, em tempos, o advogado José Afonso.
A 1 de Maio de 1982, a morte saiu à rua. Feridos, foram às dezenas. Podia ter sido pior, comentou-se, à época: “Vi um polícia tentar atingir uma pessoa pelas costas. E só não o fez porque a arma encravou no momento do disparo”, recorda Alfredo Mendes, antigo jornalista do DN, repórter na noite sangrenta do Porto. Inquiriu-se, investigou-se, nada. Só as balas extraídas dos cadáveres falam: o calibre é usado apenas por graduados (comissários, chefes de esquadra e sub-chefes) do Corpo de Intervenção.
O País ferve. O Governo da Aliança Democrática (AD), presidido por Pinto Balsemão, “lança a polícia na rua, deixa que agentes enfurecidos persigam gente desarmada”, lê-se no editorial do semanário O Jornal, que reclama o apuramento dos factos até às últimas consequências. Ramalho Eanes, Presidente da República, indigna-se. Pede-se a demissão de Ângelo Correia, Ministro da Administração Interna, então figura de anedotário nacional por causa de uma fantasiosa “revolta dos pregos”, fake news da época. Mas o homem não se demite.
Maio adentro, CGTP e UGT responsabilizam-se mutuamente. Rui Oliveira e Costa, homem próximo de Torres Couto, acusa a Intersindical de utilizar trabalhadores “como carne para canhão”. O Governo lava as mãos.
Sucedem-se as crises no seio da coligação governamental, o País arde em greves, manifestações. As notícias dão conta das dificuldades de Ramalho Eanes, inquilino de Belém, para deitar água nas várias fervuras. Mário Soares é o líder da oposição. Álvaro Cunhal é o secretário-geral do PCP. Mas a esquerda só concorda na divergência. UGT e CGTP radicalizam acusações. A crise económica é real. Noticia-se o saneamento de dirigentes sindicais, o despedimento de mulheres grávidas. Os acontecimentos do Porto, quase poderia dizer-se, são um retrato da época. Carregado nas tintas.
Entretanto, o Papa João Paulo II está para chegar. A CGTP pede uma audiência a Sua Santidade, pois pretende relatar-lhe, de viva voz, as horas sangrentas do Porto. “Agenda carregada”, respondem do Vaticano. O bispo também não recebe. O pároco da Sé, esse, recusa dizer missa em homenagem aos mortos do 1º de Maio.
O funeral das vítimas entope as principais artérias da baixa da cidade. As ruas irrigam-se de protestos. O País veste de luto. Torres Couto comenta: “Foi uma passeata de dois caixões pela cidade”.
(A partir de um artigo publicado na VISÃO, a 24 de Abril de 2002)
Miguel Carvalho
Visão, 30.04.2019 às 17h24

















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