Thursday, May 17, 2007

Porque A Luta Continua...


CANÇÃO DOS DESPEDIDOS

Somos explorados no trabalho, e não só
Também somos o lixo
Lixo na tê-vê, quem lá está e quem vê
Lixo no jornal, voz do seu capital
Estamos entregues aos bichos
E o lixo produz mais lixo

E o tempo a passar
E eu a cantar
Eu também faço parte do lixo

Há quem viva bem do nosso mal-viver
Nós somos lixo
Somos só lixo
Já não há gente, há só lixo
Dispensável, descartável, reciclável
E agora parem um minuto p'ra pensar

Há que humanizar a humanidade, e não só
Há que varrer o lixo
O do Capital, que é o lixo global
O lixo do Estado, que é o seu braço armado
O mundo é de quem manda
E o resto é propaganda

Tudo é publicidade
Mas a liberdade
É escolher entre ser ou estar

Tens a boca cheia de palavras lindas
P'ra ti sou lixo
Somos só lixo
Nós não somos gente, somos lixo
Dispensável, descartável, reciclável
Mas vou parar mais um minuto p'ra pensar

Vamos a casa ao fim do dia
Só p'ra regenerar a mais-valia
Ganhar forças, fazer filhos
Cada um no seu caixote
E amanhã tomar o bote
Para o paraíso dos cadilhos

Quem é o lixo
Eles são o lixo do corpo e da alma
Como é que se pode ter calma
P'ra varrer este monturo
Dos escombros do futuro

(José Mário Branco)

29 comments:

Maria said...

Esta foto foi tirada na Fábrica da Crisal - Atlantis, Alcobaça, na passada segunda feira.
Porque para a semana os trabalhadores não sabem se continuam a ter trabalho ou se vão para casa, este post, com uma cantiga do Zé Mário Branco, é para eles..., com a esperança de, quando eu lá voltar, os encontrar a TODOS nos seus locais de trabalho.
Para eles vai a minha solidariedade.

Gi said...

Junta a minha à tua Maria. A solidariedade e a indignação.
Óptima escolha. E eu a pensar que não íam ser precisas mais canções de intervenção ...

Dorme bem e um beijo

MiE said...

Meu Deus...onde isto vai parar!!!

Tanta gente, a ficar sem emprego...
Com a vida estruturada, e de repente, ficam a receber a esmola do subsídio de desemprego...E a DIGNIDADE,a AUTO-ESTIMA, o tempo desocupado como se fossem uns inúteis? Quem repara esse mal?

...

...

Beijo, boa semana

Helena Nunes said...

Fabulosa letra esta, daquele que tenho o prazer de conhecer.
Senti hoje o "Cheiro da Ilha".
Bjos

Leticia Gabian said...

Maria, Maria!
Que letra forte! Será que essa música, ao ser cantada, faz sangrar os ouvidos daqueles que usam, abusam e descartam toda gente humilde que vive do seu honesto trabalho?
Gosto de pensar que sim.

maresia_mar said...

Olá Maria
junto a minha voz à tua, um bocadinho de solidariedade não faz mal a mingué.. É tão triste todos os dias vermos cenas destas, familias inteiras sem trabalho, não sei onde isto vai parar.
Bjhs e bom resto de semana

Sebastião said...

bravo

Sininho said...

O mundo do trabalho está perigosamente precário.
Se antes o emprego era para a vida, hoje a incerteza é a única certeza.
A humanidade está a ficar terrivelmente desumanizada, perdendo os seus valores primordiais.
O Homem tornou-se o pior inimigo de si mesmo.
Só esta mancha luminosa de chorões é a nota de esperança no teu post.
A esperança não pode desaparecer, nem em face de uma doença considerada "fatal".
Perder a esperança é deixar-se afundar sem sequer fazer um único movimento.
E a raiva também não é boa conselheira.
Há os responsáveis pelos despedimentos e há também os que procuram tirar dividendos políticos da revolta das pessoas.
Estes últimos estão a aproveitar-se da desgraça de alguns para colherem votos, embora digam que o fazem na defesa dos seus legítimos interesses .
Já vivi o suficiente para saber do que estou a falar.
E é por tudo isto que não sinto o menor respeito por um único partido do leque representado (e por representar) na AR.
Desculpa-me este maçador testamento, mas também me angustia aquilo a que assistimos; acho é que o ódio nunca produz grandes resultados, além de acabar quase sempre por ser descarregado sobre quem não é responsável pela situação que nos atingiu.
Acabaram-se os tempos da segurança, há que dar a volta e aprender a viver no mundo que uma grande maioria de nós ajudou a destruír, activa ou passivamente.

Um beijinho

poetaeusou said...

/
para ti
/
Nos carris
vão dois comboios parados
foste longe e regressaste
trazes fatos bem cuidados
E já pensas
em dourar o teu portão
se és senhor de dez ou vinte
és criado de um milhão
Regressaste
Com um dedo em cada anel
e projectos num papel
e amigos esquecidos
Tempos idos
são tempos que voltarão
em que pedirás ao chão
os banquetes prometidos
Milionário que voltaste
dois tostões p'rós que atraiçoaste
Fazes pontes
sobre rios e valados
mas quando o cimento seca
já morremos afogados
Fazes fontes
no silêncio das aldeias
e a sede é tal que bebemos
até ter água nas veias
Instituíste
guarda-sóis e manda-chuvas
lambe-botas, beija-luvas
pedras-moles e águas-duras
inauguras
monumentos ao passado
que está morto e enterrado
entre naus e armaduras
Milionário que voltaste
dois tostões p'rós que atraiçoaste
Quanto a nós
nós cantores da palidez
nosso canto nunca fez
filhos sãos a uma mulher
Nem sequer
passa mel nos nossos ramos
pois a abelha que cantamos
será mosca até morrer
Milionário que voltaste
dois tostões p'rós que atraiçoaste
/
in) josemariobranco
/
inté
/

Sei que existes said...

Infelizmente há muita gente que trata outra gente como se fossem lixo... É lamentável!...
Beijos

poetaeusou said...

/
no andar de cima
musica do mário,
letra do sérgio,
////////////////////////
não me digas que não me compreendes
e que não sentes AQUELA RAIVA ...
nos dentes,não me digas que não me compreendes.
/
inté
///

Desassossego said...

Maria, que realidade tão presente e tão comum... e depois das férias de verão muitos nais estarão nesta situação...
Trabalho num centro de actividades de tempos livres, felizmente reagimos a tempo e fomos encontrando alternativas de acção e intervenção... ma stenhos muitas colegas que no final do ano lectivo ficarão desempregrados, tudo fruto de uma reforma feita sem o minimo de cuidado e preocupação... enfim...
Beijo doce...

A.S. said...

Estou contigo Maria! A luta continua!!!

Um beijo...

pitanga said...

Por mais que tente não consigo entender o que estar a acontecer. Aqui também fecham fábricas que passaram de avô para netos e de repente vai tudo assim. O que antes dava hoje já não dá. Para onde estão indo estas pessoas? Já nem falo nas multi-nacionais mas nas empresas que nasceram no local. Também foram para a China ou os países do leste? Não acredito. O que está por trás disto?

beijos e esperança!

Farinho said...

Por este andar as coisas ainda vão piorar bastante, as pouca regalias que temos estão a tirá-las, não sei como vamos continuar a sobreviver.
O meu marido trabalha em dois trabalhos pois o trabalho principal que pertence ao estado paga tão mal que teve que arranjar outro part-time para fazer face ás despesas, é impressionante que ele nem tenha tempo para estar com a família por causa da miséria de ordenado que trás para casa.

Ops, desculpa o desabafo.

Beijoquinhas doces

Isabel said...

Sabes Maria é de uma beleza lutadora a atitude de postar este poema de Zé Mario Branco, para aquelees que não sabem se vão continuar a ter trabalho.

A situação é grave e pouco se faz...neste pais as prioridades continuam sempre a ser as mais estranhas...

Valham as pequenas e significativas atitudes como a tua que se vão espalhando pelo país fora.

Várias ondas pequenas poderão formar uma gigante que deite abaixo esta passividade geral perante situações de enorme gravidade.

Não nos deixemos nem cegar nem calar.

Excelente post Maria.

Um beijinho

Isabel

bettips said...

Ah Maria, obrigada por mostrares mais esta desgraça aqui. Se calhar só passa em baixo, em rodapé da tv. Atlantis? Não era bom? Quem está a minar a nossa determinação e força de trabalho? Que obscuros desígnios desta gente que (de)tem o poder? E os jogos de cadeiras, sempre com as mesmas múmias? Porque não vão ao cerne da questão? Porque dão lucros fabulosos os bancos? Porque andam à solta os ladrões, com brutos carros? Quando houvesse sinais de riqueza teria de se ir ver "donde", não é simples? Ninguém a trabalhar normalmente, a pagar impostos, a estudar, ganha para quintas e carrões. Monturo. Impúdicos...Bjinho Maria

AnaG. said...

As flores são lindas contrastando com a notícia.
Custa-me imenso compreender como empresas de tão bom nível se apagam assim.

Acho que cada vez mais as canções de intervenção fazem sentido.

Beijinho, Maria

Belzebu said...

Por razões profissionais conheço bem o drama dos trabalhadores da Crisal! Nada melhor que Zé Mário, para lhes dedicar. Que o drama do desemprego não se instale e atinja tantas e tantas famílias.

Um abraço solidário e infernal!

Eduquês said...

Há novidades no meu canto.

Entre linhas said...

Es drama que tanto se generaliza e as consequências são devastas.
Bjs Zita

luna e neptuno said...

Somos lixo sim, mas tambem podemos selecionar o lixo, o reciclar, e tu estas em cima sempre tentando limpar o mundo
beijos

sonhadora said...

sonhos com muita magia.
Beijinhos embrulhados em abraços

Isabel said...

Tantos sonhos desfeitos, tantos projectos perdidos... e tudo, porque valores mais altos se levantam sem que haja alguém que trave esta batalha desleal em que o mais fraco não tem "arma" alguma para ripostar contra quem se prepara para o destruir.
Belo poema; tão forte quanto a cor das flores, que são lindas.

Bjt

Luis Eme said...

Esta canção faz todo o sentido hoje, Maria, quando o INE revelou a maior taxa de desemprego das últimas décadas, apesar das "mentiras socráticas", de que as coisas estão a melhorar...

A luta continua e continuará sempre.

Helena Nunes said...

Passei para deixar um beijo de boa noite.
Bjos

SILÊNCIO said...

As letras verdadeiras do Ze Mario Branco, infelizmente com a situacao a deixa-las sempre "actuais" :((((

Beijsss

Helena Nunes said...

Tentei desta vez cantar. Antes de te deixar um beijo.
Bjos

Maria said...

Muito obrigada a todos quantos por aqui passaram.
Não responderei aos vossos comentários porque seria uma repetição do que já está dito.
Afinal, o poema é do Zé Mário Branco....
... e A Luta Continua!