Monday, July 11, 2011

Viagem a Cuba IV


Então, a pedido, aqui está parte do tecto da farmácia do post anterior.



O Chevrolet que nos levou a Pinar del Rio, conduzido pelo companheiro e amigo Leniel.



Complexo "Las Terrazas", reserva da biosfera na Sierra del Rosario, a caminho de Viñales (Pinar del Rio).




Água e verde, verde e água. Sem palavras para tanta beleza.



Viñales, entrada para a Cova do Urso, gruta no interior da montanha com caminho aquático.



Saída da gruta da Cova do Urso.




A Natureza é generosa na Ilha Grande. Um espanto para o olhar...

Sunday, July 10, 2011

Para ti


Tempestade lágrima grito em mim fogo aceso que queima e me abrasa falésia
ternura mar revolto enfim vento forte e quente que me arrasa Abraço solidário em cada dia és a um tempo sim e não morte vida onda em agonia que se espraia na própria solidão Rio que corre em leito de cetim olhar traquina beijo que não cansa flor maior que cresce no jardim plantado por ti eterna criança Palavra forte fúria tempo fecundo fazes em verso a tua canção sorriso malandro poeta vagabundo sempre menino de tanta inquietação.

As palavras que aqui não escrevi
foi porque não quiseram sair de dentro de mim.

Friday, July 08, 2011

Viagem a Cuba III


O belíssimo interior de uma farmácia



Carros antigos, a par com carros modernos, biciletas e 'cocos' fazem o transporte dos turistas, para quem não quer andar de autocarro (ou a pé).
Para quem conhece Havana de outros tempos, já não circulam os famosos 'camelos'...



O Capitólio e uma temperatura de trinta e muitos graus :(



A casa de José Martí, pai da pátria cubana.



O almoço que nos espera, acompanhado de salada e... 'moros y cristianos' ou 'frigoles'...



Uma discoteca, ao ar livre, onde ao domingo este povo não pára de dançar durante a tarde e parte da noite.
E como dançam...



Uma festa no Castillo del Morro, de onde podemos ver a cidade de noite...



... assim...

Wednesday, July 06, 2011

Portugal


Portugal

Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente

Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional (que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas

Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador

Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade

Portugal
Estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete
Salazar estava no poder - nada de ressentimentos
Um dia bebi vinagre - nada de ressentimentos

Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe

Portugal
Gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

(Jorge Sousa Braga)

Monday, July 04, 2011

Viagem a Cuba II


No Museu do Artesanato, música logo pela manhã...



Uma das imagens de marca de Cuba. Feitos ali, no Museu do Artesanato, para toda a gente ver.



La Bodeguita del Medio, um dos lugares de "culto" em Havana, a par da Floridita.



Hotel Ambos Mundos



A recuperação de edifícios antigos e históricos é uma das prioridades.

Não sei fazer reportagem. Não tenho palavras para descrever as fotos que estou a colocar aqui, revendo todas as outras, para fazer a escolha. Percorre-me o corpo uma saudade boa daquela Ilha e daquele povo.
É tudo muito intenso. Os cheiros, os sons, o mar, o calor. Só indo lá, mesmo...

Saturday, July 02, 2011

Música para o fim-de-semana



"Guajiro Natural"

Aunque yo sea guajiro natural
Soy un guajiro nomal, que vengo del monte cimarron
Soy un guajiro normal, y que? que vengo del monte cimarron
Se cual es mi posicion, yo se cual es mi lugar
(Aunque yo sea guajiro natural no te equivoques)
(Aunque yo sea guajiro natural no te equivoques)
Vengo de la yunta de buey que tira del carreton
Vengo de la yunta de buey y que? que tira del carreton
Traigo el olor a carbon y el aroma del batey
(Aunque yo sea guajiro natural no te equivoques)
(Aunque yo sea guajiro natural no te equivoques)
Puedo montar un avion si me tengo que montar
Puedo montar un avion y que? si me tengo que montar
Siempre voy a regresar conmigo no hay confucion
(Aunque yo sea guajiro natural no te equivoques)
(Aunque yo sea guajiro natural no te equivoques)
Me gusta como canta el zorzal en el monte
(No te equivoques)
Un guajiro natural natural especial de alla del monte y que?
(No te equivoques)
Hay mira porque usted no me, usted a mi no me conoce no
(No te equivoques)
Que yo te puedo complicar te puedo enrredar la noche
(No te equivoques)
Porque te amarro con bejuco colorao que hay en el monte
(No te equivoques)
Me gusta como canta la paloma y el zinzonte
(No te equivoques)
Echa
Conmigo que?
Guajiro de monte adentro y que
Conmigo que?, Conmigo que?
De que que que oye conmigo que tu ve
Conmigo que?
Mira me se la historia de Cuba mejor que usted
Conmigo que?
Y puedo ir a caballo hasta donde vivio el Cucalambe
Conmigo que?
Y si no hay caballo arranco y me voy a pie
Conmigo que?
A que te pongo a bailar el tin marin de dos pingue
Conmigo que?
Con cucara macara guajiro guajirito eh
Conmigo que?
Tambien te puedo ensenar a hacer un buen cafe
Conmigo que?
A que eso no, a que nada de eso hace usted
Conmigo que?
Lo dije yo
Conmigo que?
Alabao sea santisimo

Polo Montañez

Friday, July 01, 2011

Tempo fluvial


Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu;
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês
o livro, como se o tempo tivesse parado,
e o rio não corresse pelos teus olhos.


Nuno Júdice

Wednesday, June 29, 2011

É já amanhã!

Reportagem RTP 15/4/2011 from Miguel Baptista on Vimeo.



Desculpem a insistência, mas é mesmo necessário que todos ajudemos.
Para quem não pode ir, poderá sempre fazer os donativos para a conta indicada num post abaixo. Nós agradecemos. O Gui também!


Para mais informações sobre o Gui: http://forcagui.wordpress.com/

Monday, June 27, 2011

Viagem a Cuba I




É difícil falar de Cuba. Porque Cuba não se fala, SENTE-SE!
As primeiras fotos que aqui deixo são precisamente imagens da FORÇA que eu senti nesta viagem. A Força de um povo que, apesar do embargo criminoso a que está sujeito, continua a resistir. E a lutar! Com a certeza de que vai vencer!


(as duas primeiras fotos foram tiradas à porta da casa onde estive instalada em Havana. A terceira foto é, naturalmente, do 1º de Maio na Praça da Revolução, Havana).

Saturday, June 25, 2011

Música para o fim-de-semana



Atrás da porta

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua

(Chico Buarque)

BOM FIM-DE-SEMANA!

Thursday, June 23, 2011

cinzas


Tenho as mãos cheias de cinzas. Queimei restos de um passado distante, tão distante que já nem quero lembrar mais. Restam as cinzas. E as memórias, porque as memórias ficam sempre e fazem parte de nós.
Tenho as mãos cheias de cinzas. Talvez as vá lançar ao vento ou no jardim de todos os sonhos. Onde nascem flores de todas as cores a cada primavera. Perco-me a olhar o mar, mesmo a meus pés, e num repente abro as mãos e deixo que as cinzas se escoem por entre os dedos.
Estranho como as cinzas de um passado que queimei vão agora alimentar vida...
Sabes que ficarás para sempre dentro de mim.

Monday, June 20, 2011

Lembram-se do Gui?


O Gui é um menino de 9 anos que sonha com bicicletas, skates e patins. Infelizmente ainda não é capaz de os poder usar. Nasceu prematuro e devido a complicações desenvolveu uma paralisia cerebral. No entanto ele não deixou de sonhar com bicicletas, skates e patins. Tem passado por um longo processo de recuperação, com várias visitas a Cuba, onde foi operado e onde tem feito vários períodos de fisioterapia. É neste país que estão os melhores meios para o Gui poder andar, por isso a mãe está a reunir condições para se mudar para lá por um longo período de tempo (1 a 3 anos). Este espectáculo será uma forma de o ajudar a reunir essas condições. A entrada custa 10 Euros, e seria importante termos a casa cheia. Se por acaso não puderem vir, podem sempre ajudar transferindo o valor do bilhete para: NIB: 0019 0092 00200008964 09 IBAN: PT50 0019 0092 0020 0008 9640 9 BIC: BBVAPTPL Para mais informações sobre o Gui: http://forcagui.wordpress.com/ (post surripiado daqui)

Saturday, June 18, 2011

No 1º ano da morte de José Saramago


Na ilha por vezes habitada


Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.


(in Provavelmente Alegria)

Thursday, June 16, 2011

Cinzento


Há dias assim. Em que tudo nos parece cinzento, tão cinzento que não vemos para além de nós e do que sentimos. Mas há o Mundo lá fora. À nossa volta. Uma mão sobre o ombro, uma gargalhada que nos desperta.
Apesar do nada poder ser o poema inteiro.
Há noites assim. Em que o cinzento fica preto, de tão escuro. E não queremos ver nada para além do que escrevemos. Mas sentimos. Mas há Vida lá fora. À nossa volta. Um olhar que te beija. Um abraço que te aquece.
Apesar do nada poder ser o poema inteiro.

Tuesday, June 14, 2011

Dia 37


Não tens de quê! Dei-te o cigarro, o adeus, a água para o deserto, mas não me agradeças, não digas o meu nome.
Quero apenas que me deixes adormecer, que me abandones, que deites aos corvos e aos cães as minhas recordações. Não faz sentido a curva dos teus lábios, a penumbra quente das tuas coxas, a taça de álibis que me serviste.
Não faz sentido nada que tenhas para dar-me. Tira-me.
Apenas isso. Leva o que ainda guardava para ti, sem nada perguntar, sem um lamento ou um sorriso. Depois, parte.
Ficarei apagado, molhado de tristeza, num silêncio hostil e enfermo, procurando merecer-me, tentando ressurgir para lá de ti.
Não deixes nada. Nem a tua sombra, nem o teu cheiro.
A um canto, desolado, como se tivesse frio, quero apenas amar a tua ausência.


Joaquim Pessoa
(Do livro a publicar, ANO COMUM)

Friday, June 10, 2011

Música para o fim-de-semana, grande!





Um filme que merece sempre ser (re)visto!
Bom fim-de-semana.

Tuesday, May 24, 2011

A Ilha Grande


A 'ressacar' de três semanas na Ilha Grande. Viagem de uma ponta à outra da ilha - de ocidente para oriente pelo sul e regresso pelo norte da Ilha. Que continua com o mesmo cheiro, embora esteja diferente. E com o mesmo som. Afinal, é a mesma Ilha... e o mesmo povo!!!

Saturday, May 14, 2011

Música para o fim-de-semana



(ainda longe. com saudades...)
post pré programado.

Saturday, May 07, 2011

Música para o fim-de-semana



(ainda longe. deixo um cheirinho...)
(post pré-programado)

Thursday, May 05, 2011

M*


Flor de Abril. Em Maio!


Um amor tanto! Todo! Sempre!

(post pré-programado)

Wednesday, April 27, 2011

Maria


Já tive as mãos cheias de quase tudo. Do que me era mais querido. Com o tempo, ou antes de tempo, as minhas mãos foram ficando vazias. Agora nem o vento consigo reter. Nem as águas. Por isso mergulho no teu olhar em busca da outra eu que fui, quando tinha as mãos cheias de quase tudo.

(vou ali, longe. mas volto.)

Monday, April 25, 2011

Música de Abril VI








Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


(Sophia de Mello Breyner Andresen)


VIVA O 25 DE ABRIL!

Sunday, April 24, 2011

Música de Abril V



Roupa velha

Rapariguinha
cose a tua saia
velha de cambraia
que outra não podes comprar baixa a bainha
rasga o pé-de-meia
quando é magra a ceia
quem nos há-de aguentar
oh bonitinha

A que preço está o peixe
na corrida
a xaputa já é truta
promovida
puxa da massa apalpa a fruta
insecticida
fez a pileca da vitela
uma investida
e a salsicha “isidora”
é alheira de Mirandela

A que preço está a couve
e o grão-de-bico
bacalhau quase não há
deu-lhe o fanico
tenho prisão de ventre oh pá?
eu já te explico
o feijão-frade subiu ao céu
vende o penico
se não há grelos no mercado
há bons nabos no hemiciclo

Guarda a roupa velha
que sobra do almoço
dá o braço à Maria
ao Manel e ao Joaquim
não vás devagarinho
faz da praça um alvoroço
leva-me contigo
ai!! não te esqueças de mim
rapariguinha
cose a tua saia
velha de cambraia
que outra não podes comprar
baixa a bainha
rasga o pé-de-meia
quando é magra a ceia
quem nos há-de aguentar
oh bonitinha

A que preço está o vinho
nessa pipa
arde o preço da aguardente
queima a tripa
a água-pé é um detergente
só constipa
já não gosto da cerveja
dessa tipa
e a jeropiga a martelo
é servida em bandeja

A que preço está a casa
nessa esquina
não se aluga só se vende
é uma mina
quem a vende tem juros
lucros
alucina
quem não tem casa inventa
imagina
sonha ao relento é multado
mora em barraca clandestina

Guarda a roupa velha
que sobra do almoço
dá o braço à Maria
ao Manel e ao Joaquim
(…)

Como vai a nossa vida
de chinelo
pelo custo não é festa
é um duelo
o cabaz da fome é caro
magricela
mais barato é o discurso
tagarela
nada diz nada acrescenta
nem mexe o fundo à panela

Saturday, April 23, 2011

Música de Abril IV



Ser Solidário

Ser solidário assim pr’além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz

De como aqui chegar não é mister
Contar o que já sabe quem souber
O estrume em que germina a ilusão
Fecundará por certo esta canção

Ser solidário assim tão longe e perto
No coração de mim por mim aberto
Amando a inquietação que permanece
Pr’além da inquietação que me apetece

De como aqui chegar nada direi
Senão que tu já sentes o que eu sei
Apenas o momento do teu sonho
No amor intemporal que nos proponho

Ser solidário sim, por sobre a morte
Que depois dela só o tempo é forte
E a morte nunca o tempo a redime
Mas sim o amor dos homens que se exprime

De como aqui chegar não vale a pena
Já que a moral da história é tão pequena
Que nunca por vingança eu te daria
No ventre das canções sabedoria

Friday, April 22, 2011

Música de Abril III



Fala do Homem Nascido

Venho da terra assombrada
do ventre de minha mãe
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém

Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci

Trago boca pra comer
e olhos pra desejar
tenho pressa de viver
que a vida é água a correr

Venho do fundo do tempo
não tenho tempo a perder
minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada

Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham
nem forças que me molestem
correntes que me detenham

Quero eu e a natureza
que a natureza sou eu
e as forças da natureza
nunca ninguém as venceu

Com licença com licença
que a barca se fez ao mar
não há poder que me vença
mesmo morto hei-de passar
com licença com licença
com rumo à estrela polar

Thursday, April 21, 2011

Música de Abril II



Menino do Bairro Negro

Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Menino sem condição
Irmão de todos os nus
Tira os olhos do chão
Vem ver a luz

Menino do mal trajar
Um novo dia lá vem
Só quem souber cantar
Vira também

Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção

Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Se até da gosto cantar
Se toda a terra sorri
Quem te não há-de amar
Menino a ti

Se não é fúria a razão
Se toda a gente quiser
Um dia hás-de aprender
Haja o que houver

Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção

Wednesday, April 20, 2011

Música de Abril I



Canção da Beira Baixa

Era ainda pequenino
Era ainda pequenino
Acabado de nascer
Acabado de nascer.

'Inda mal abria os olhos
'Inda mal abria os olhos
Já era para te ver...
...acabado de nascer.

'Inda mal abria os olhos
'Inda mal abria os olhos
Já era para te ver...
...acabado de nascer.

Quando eu já for velhinho
Quando eu já for velhinho
Acabado de morrer
Acabado de morrer.

Olha bem para os meus olhos
Olha bem para os meus olhos
Sem vida são p'ra te ver...
...acabados de morrer.

Olha bem para os meus olhos
Olha bem para os meus olhos
Sem vida são p'ra te ver...
...acabados de morrer.

Era ainda pequenino
Era ainda pequenino
Acabado de nascer
Acabado de nascer.

'Inda mal abria os olhos
'Inda mal abria os olhos
Já era para te ver...
...acabado de nascer.

'Inda mal abria os olhos
'Inda mal abria os olhos
Já era para te ver...
...acabado de nascer.

Monday, April 18, 2011

Noite


É de noite que renasço cada dia. É de noite que as palavras me escorrem pelos dedos como se fossem água de um rio caudaloso que corre desenfreado até à foz. Das palavras.
É de noite que me refaço ao pôr da lua. E é de noite que a poesia se solta do meu peito como se fosse um grito que ninguém ouve porque se juntou ao rio e já desaguou no mar.
É de noite que os amores secretos se encontram. Ainda que distantes. Ainda que apenas em pensamento. É de noite que escrevo porque as palavras me regressam em cada maré. E porque gosto deste silêncio...

Saturday, April 16, 2011

Thursday, April 14, 2011

Dia 360


Saboreio a vida de modo diferente, hoje. Porque o meu corpo também já não é jovem nem insaciável. Mas também não é cobarde e a vida ensinou-me tanto. Vivo a calma que me dá a idade que tenho. Há dias em que os pássaros me vêm buscar e vôo com eles. Volto tarde na noite e nada importa. Apenas tu, que me esperas...


Wednesday, April 13, 2011

Porque sim é já bastante!

Eu podia abrir um mapa: «o corpo» com relevos crepitantes
e depressões e veias hidrográficas e tudo o mais
morosas linhas e gravações um pouco obscuras
quando «ler» se fendia nalguma parte um buraco
que chegava repentinamente de dentro
a clareira arremessada pelo sono acima
insóna vulcânica sala contendo toda a febre «táctil»
furibunda maneira
esse era então uma espécie de «lugar interno»
áspera geologia alcalina e varrida e crua
exposta assim à leitura que se esqueceu do seu «medo»
o corpo com todas as «incursões» caligráficas
«referências» florais «desvios» ortográficos da família dos carnívoros
«antropofagias» gramaticais e «pegadas»
ainda ferventes
ou minas com o frio bater e o barulho escorrendo
«um mapa» onde se lia completamente o sangue e suas franjas
de ouro o irado desregramento da «traça
primeira» e o apuramento do mel com a labareda
inclusa o corpo na prancheta
para a lisura sentada onde se risca a posição mortal
«um papel» apenas a branca tensão do néon
no tecto o jorro de cima «declarando» qualquer rispidez
a suavidade toda uma bastarda
graça
de infiltração na sonolência ou explosiva
«vigilância» combustão das massas ao comprido
do «desenho» irregular
e só então assim desterrado do ruído nos subúrbios
ele apenas agora «composição» forte e atada de elementos
escarpas rapidamente
decorrendo
corpo que se faltava em tempo «fotografia»
de um «estudo» para sempre
como lhe bastava ser possível tão-só uma certa
temperatura
grutas aberturas minerais palpitações no subsolo
tremores
anfractuosidades esponjas onde pulsavam canais dolorosos
e a arfante matéria irrompendo nos écrans
com o susto leve das «manchas» que se uniam
essa energia sem espaço súbita «geometria» a costurar de fora
mordeduras velozes delicadezas
nervuras vivas
para seguir até ao fim «com os olhos»
como uma paisagem de espinhos faiscantes
«o contorno» que queima de uma lâmpada acesa
toda a noite no gabinete do cartógrafo.

Herberto Helder

(Antropofagias, Texto 4)

(continuo sem net. e sem o resto...)

Tuesday, April 12, 2011

Hoje, há 50 anos


Yuri Gagarin, o primeiro homem no espaço.

daqui

Monday, April 11, 2011

mar emergente


o mar é a gente
quando se levanta.

daqui

Saturday, April 09, 2011

Música para o fim-de-semana




Fosse a menina dos meus olhos puta
e fornicara com as televisões
as duas novas da greta e da gruta
e as duas velhas pelas mesmas razões

rectangular e omnipresente nesga
que tem pra tudo as melhores soluções
fosse a menina dos meus olhos vesga
logo lhe dera as suas atenções

ai fosses tu menina dos meus olhos
com teus lacinhos e caracóis
a inocência vai nos entrefolhos
e fica a pátria amada em maus lençóis

entram pelas casas sem ser convidados
tempos de antena e outros futebóis
ficaram todos mais bem informados
opinião pública dos o...rinóis

são cus e mamas a dançar de gatas
mailas gravatas dos seus figurões
as euforias ficam mais baratas
e domesticam-se as excitações

pobre menina ficas à janela
depenicando as tuas distracções
lavas a loiça fazes a barrela
mas essa merda não cede às pressões

os antropófagos das nossas dores
tomaram conta da aldeia global
fazem milhões a converter horrores
em audiências de telejornal

o insuportável torna-se rotina
e a realidade já é virtual
a dor da gente é inesgotável mina
que lhes rentabiliza o capital

as reportagens e as telenovelas
juntam os trapos pezinhos de lã
com a verdade ali a olhar pra elas
histórias da civilização cristã

já não é sangue o líquido vermelho
que nos reserva o dia de amanhã
e tu menina vais-te vendo ao espelho
e sofres dos dois lados do ecrã

noventa e quatro chegou à cidade
noventa e oito está quase a chegar
fez vinte aninhos a nossa liberdade
já é bem tempo de a desvirginar

e se o dinheiro não dá felicidade
televisões bem a puderam dar
talvez que para manter a sanidade
eu chegue ao ponto de ter que cegar

e a menina dos meus olhos há-de
conseguir ver para além do meu olhar

José Mário Branco

Tuesday, April 05, 2011

:-D



É muito bom viver na província!
Sem telefone fixo, sem tv por cabo, sem net.
E não sei quando volto a ter...
:-D

Adenda:
Esclareço que não é por opção, mas por avaria!!!
A tv (cabo) 'foi-se' no dia em que o PEC4 foi rejeitado :)
Telefone tive intermitentemente durante o fim de semana, mas foi-se
A net foi-se hoje... Estou com net portátil, que é mais lenta que um caracol :)

Sunday, April 03, 2011

:(

Por várias razões hoje não me apetece escrever.

Saturday, April 02, 2011

Música para o fim-de-semana



Lembra-me um sonho lindo


Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada

Canta, rouxinol, canta, não me dês penas
Cresce, girassol, cresce entre açucenas
Afaga-me o corpo todo, se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo em fumo de incenso

Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada

Ai! Como eu te quero! Ai! De madrugada!
Ai! Alma da terra! Ai! Linda, assim deitada!
Ai! Como eu te amo! Ai! Tão sossegada!
Ai! Beijo-te o corpo! Ai! Seara tão desejada!

Fausto Bordalo Dias

Friday, April 01, 2011

Entrelaçar


















"Entrelaçar" é o nome deste recital que o Pedro Branco preparou em conjunto com a Carla Marques e que será apresentado já amanhã, dia 2 de Abril, no Clube Literário do Porto. Mais uma vez a poesia e as canções juntas numa noite que será memorável. A partir das 23.30...

Wednesday, March 30, 2011

Um poema diferente...



Vale a pena ver.
Kseniya Simonova foi a vencedora da edição Ucraniana do Got Talent.
Na final, ao vivo, fez uma animação da invasão da Alemanha na Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial, tendo usado os dedos e uma superfície com areia.
Foram 8 minutos maravilhosos que demonstraram um talento especial e trouxeram, através da arte, a memória viva de uma guerra que marcou várias gerações.

Monday, March 28, 2011

Pele de mim


Para sempre, a voz do vento. Que se atira contra o teu peito quando a serra está em frente. Para sempre, na eternidade das palavras. Que te nascem do olhar e te escorrem dos dedos em sangue quente. Fervente. Docemente. Desaguando no rio. Em constante desafio...


Pele de mim...



Saturday, March 26, 2011

Friday, March 25, 2011

Olha-me


Olha-me nos olhos e fala. Deixa sair esse nó que te aperta a garganta. Fala. Grita. Olhando-me nos olhos. Deixa cair as lágrimas que te salgam o coração. Estou cansada do teu silêncio. E da mentira. Por isso, olha-me nos olhos e fala!

Thursday, March 24, 2011

Sócrates vs Sócrates



Visto (ouvido) à distância, é uma delícia...
Para avivar memórias!

Tuesday, March 22, 2011

As voltas do amor


Que o amor seja rocha falésia ou barco
No ir e vir de todas as marés
Onde te espero e quase sempre parto
Para me rebentar como onda a teus pés
Que o amor azul tenha todas as cores
Das sementes plantadas no teu jardim
E seja pintado por todas as flores
Que nasceram do amor que não tem fim
Que seja nada ou tudo que te escorre pelos dedos
Janela porta ponte segredo e vida
Inquietação do meu olhar já sem medos
Pois no teu abraço senti-me renascida.

Monday, March 21, 2011

Dia Mundial da Poesia, todos os Dias!

A Defesa do Poeta

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei
Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.

Natália Correia

Sunday, March 20, 2011

Música para um domingo



Porque a Luta continua...

Saturday, March 19, 2011

Thursday, March 17, 2011

É já no sábado!


A LUTA é de todos os dias.
Mas este Desfile é MUITO especial!
É mais um Sábado de LUTA, na rua.
E viremos para a rua as vezes necessárias.
Até que...

Wednesday, March 16, 2011

Poema destinado a haver Domingo


Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o amor por fim tenha recreio.

Natália Correia
(13 de Setembro de 1923 - 16 de Março de 1993)

Sunday, March 13, 2011

O cinzento dos dias


Pode o cinzento dos dias carregar-me de negro
tirar-me as palavras dos dedos, os sonhos, o sorriso
pode o teu olhar fixar-se em mim, num segredo
que não existe, que rejeito, quando te quero riso
pode a chuva que cai anoitecer-me a alma
confundindo o que sinto ou gostaria de sentir
pode a ausência de luz cegar-me, que eu, calma
esperarei pelas manhãs claras do ir e vir
posso até deitar-me no teu silêncio, enfim
e aguardar que a chuva que me sai do peito
numa torrente de rio que não tem fim
acabe por me lavar de tudo o que não tem jeito
porque se o amor tem de acabar, assim,
que acabe, então, no estado mais-que-perfeito.

Saturday, March 12, 2011

Música para o fim-de-semana



Mourir pour des idées

Mourir pour des idées, l’idée est excellente
Moi j’ai failli mourir de ne l’avoir pas eu
Car tous ceux qui l’avaient, multitude accablante
En hurlant à la mort me sont tombés dessus
Ils ont su me convaincre et ma muse insolente
Abjurant ses erreurs, se rallie à leur foi
Avec un soupçon de réserve toutefois
Mourrons pour des idées, d’accord, mais de mort lente,
D’accord, mais de mort lente

Jugeant qu’il n’y a pas péril en la demeure
Allons vers l’autre monde en flânant en chemin
Car, à forcer l’allure, il arrive qu’on meure
Pour des idées n’ayant plus cours le lendemain
Or, s’il est une chose amère, désolante
En rendant l’âme à Dieu c’est bien de constater
Qu’on a fait fausse route, qu’on s’est trompé d’idée
Mourrons pour des idées, d’accord, mais de mort lente
D’accord, mais de mort lente

Les saint jean bouche d’or qui prêchent le martyre
Le plus souvent, d’ailleurs, s’attardent ici-bas
Mourir pour des idées, c’est le cas de le dire
C’est leur raison de vivre, ils ne s’en privent pas
Dans presque tous les camps on en voit qui supplantent
Bientôt Mathusalem dans la longévité
J’en conclus qu’ils doivent se dire, en aparté
"Mourrons pour des idées, d’accord, mais de mort lente
D’accord, mais de mort lente"

Des idées réclamant le fameux sacrifice
Les sectes de tout poil en offrent des séquelles
Et la question se pose aux victimes novices
Mourir pour des idées, c’est bien beau mais lesquelles?
Et comme toutes sont entre elles ressemblantes
Quand il les voit venir, avec leur gros drapeau
Le sage, en hésitant, tourne autour du tombeau
Mourrons pour des idées, d’accord, mais de mort lente
D’accord, mais de mort lente

Encor s’il suffisait de quelques hécatombes
Pour qu’enfin tout changeât, qu’enfin tout s’arrangeât
Depuis tant de "grands soirs" que tant de têtes tombent
Au paradis sur terre on y serait déjà
Mais l’âge d’or sans cesse est remis aux calendes
Les dieux ont toujours soif, n’en ont jamais assez
Et c’est la mort, la mort toujours recommencée
Mourrons pour des idées, d’accord, mais de mort lente
D’accord, mais de mort lente

O vous, les boutefeux, ô vous les bons apôtres
Mourez donc les premiers, nous vous cédons le pas
Mais de grâce, morbleu! laissez vivre les autres!
La vie est à peu près leur seul luxe ici bas
Car, enfin, la Camarde est assez vigilante
Elle n’a pas besoin qu’on lui tienne la faux
Plus de danse macabre autour des échafauds!
Mourrons pour des idées, d’accord, mais de mort lente
D’accord, mais de mort lente.


Georges Brassens

Wednesday, March 09, 2011

Sempre


Ainda que me faça ao mar sabes que fico. Sempre. Na água dos teus olhos.
Ainda que me faça ao mar sabes que canto. Sempre. A tua eterna canção.
Ainda que me faça ao mar sabes que chovo. Sempre. No amor que é dor.
Faço-me ao mar e navego em ti. Em cada centímetro da tua pele. No teu corpo feito espuma. Faço-me ao mar que me devolve ao areal. Aí te espero. E volto ao mar. E regresso-me. No vai e vem das nossas marés. Sempre. Sangue meu.

Tuesday, March 08, 2011

Tempo de Ary, de Mulher, de Abril, de Maio!



Bom dia, minha amiga, digo em Maio
Es uma rosa à beira de um tractor
Neste campo de Abril onde não caio
A nossa sementeira já deu flor.

Bom dia, minha amiga, eu sou um gaio,
Um pássaro liberto pela dor;
Tu és a companheira donde saio
Mais limpo de mim próprio, mais amor.

Bom dia, meu amor, estamos primeiro
Neste tempo de Maio a tempo inteiro,
Contra o tempo do ódio e do terror.

Se tu és camponesa, eu sou mineiro.
Se carregas no ventre um pioneiro,

Dentro de ti, eu fui trabalhador.

Ary dos Santos


Friday, March 04, 2011

6 de Março - 90º Aniversário do PCP

Deste-me a fraternidade para com o que não conheço.
Acrescentaste à minha a força de todos os que vivem.
Deste-me outra vez a pátria como se nascesse de novo.
Deste-me a liberdade que o solitário não tem.
Ensinaste-me a acender a bondade, como um fogo.
Deste-me a rectidão de que a árvore necessita.
Ensinaste-me a ver a unidade e a diversidade dos homens.
Mostraste-me como a dor de um indivíduo morre com a vitória de todos.
Ensinaste-me a dormir nas camas duras dos meus irmãos.
Fizeste-me edificar sobre a realidade como uma rocha.
Tornaste-me adversário do malvado e muro contra o frenético.
Fizeste-me ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.
Tornaste-me indestrutível porque, graças a ti, não termino em mim mesmo.

Pablo Neruda

(90 anos de existência do meu Partido, 35 anos de militância!)

Monday, February 28, 2011

O limpa palavras


Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.

Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,
é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,
outras simplesmente gastas, estafadas,
dobradas pelo peso das coisas
que trazem às costas.

A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não pára de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papéis no ar e
é preciso fechá-la na arrecadação.

No fim de tudo voltam os olhos para a luz
e vão para longe,
leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outra vez nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.

A palavra obrigado agradece-me.
As outras não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.

Vão à procura de quem as queira dizer,
de mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes a mão
para apanhares a palavra barco ou a palavra amor.

Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.
A palavra solidão faz-me companhia.


Álvaro Magalhães

Saturday, February 26, 2011

Cantar Zeca



... quando um Homem se põe a pensar...

Wednesday, February 23, 2011

Monday, February 21, 2011

Cantar Zeca



Sem palavras. Apenas o olhar do Zeca...

Sunday, February 20, 2011

Cantar Zeca



Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa

Thursday, February 17, 2011

Porque me apetece Joaquim Pessoa


CANTA


Atreve-te a julgar. Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
A natureza das coisas é a tua natureza. Respira-te, despe-te,
faz amor com as tuas convicções, não te limites a sorrir
quando não sabes mais o que dizer. Os teus dentes
estão lavados, as tuas mãos são amáveis, mas falta-te
decisão nos passos e firmeza nos gestos.
Procura-te. Tenta encontrar-te antes que te agarre a
voracidade do tempo.
Faz as coisas com paixão. Uma paixão irrequieta,
que não te dê descanso
e te faça doer a respiração. Aspira o ar, bebe-o com força, é
teu, nem um cêntimo pagarás por ele.
Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo. Canta.
Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,
e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
o trabalho doce da abelha e a paciência com que crescem
as árvores,
canta cada momento que partilhas com amigos, e cada amigo
como um astro que desponta no firmamento breve do teu corpo.
E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para cantar.
E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
Não fujas da alegria. A própria dor ajuda-te a medir
a felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados e
os séculos vindouros,
muito do pó que sacodes já foi vida,
talvez beleza, orgulho, pedaços de prazer.
A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou. Canta!
Se sentires medo, canta. Mas se em ti não couber a alegria,
não pares de cantar.
Canta. Canta. Canta. Canta. Canta. Constrói o teu amor,
vive o teu amor,
ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem, o que
mais querem é o amor.
Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual, nada será igual
alguma vez.
Canta. Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança. E canta quando a
esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e porque gostas de cantar e
porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso. Canta porque és livre.
E canta se te falta a liberdade.

Joaquim Pessoa

Thursday, February 10, 2011

Faço-me ao mar


Faço-me ao mar em dias de acalmia porque os dias de tempestade são para ficar a olhar-te, mar. Como és belo! Que força tens aí dentro que te faz lançar rugidos que afastam os pescadores da faina. Faço-me ao mar sempre que me deixas porque o meu respeito por ti é enorme, mar. Como és belo! Que sofrimento tens no teu ventre para berrares assim na hora do parto em que a onda se desfaz. Faço-me ao mar enfim todos os dias. Às vezes fico-me pela areia onde enterro os pés e me sorves. Outras atrevo-me a enfrentar-te porque preciso de te respirar. Dentro de ti. Beber-te. Lamber-te. Amar-te. A ti, sim. Como se fosses o meu mar...
Por isso me faço ao mar, em ti.

(de passagem. depois volto.)

Friday, February 04, 2011

Foi há 50 anos, em Luanda...

Adeus à hora da largada


Minha Mãe


(todas as mães negras
cujos filhos partiram)

tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico

somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.

Agostinho Neto


(continuo distante. mas volto.)