Wednesday, March 11, 2009

Recordando Manuel da Fonseca

Segundo dos Poemas da Infância

Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
... Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebecem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.

E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!


Manuel da Fonseca
(15 Outubro 1911 - 11 Março 1993)

33 comments:

Sofá Amarelo said...

Li pela primeira vez Manuel da Fonseca ainda era muito novo... e fiquei fã!!! Pena que ele não faça parte dos lobbies literários, teria perfeito cabimento ser estudado nas escolas ao lado de outros grandes autores.

Ana said...

Recordar é manter vivo.
Obrigada por trazeres Manuel da Fonseca, tão pouco divulgado na blogosfera!
Um beijo , Maria.

salvoconduto said...

Manuel da Fonseca dá-me uma boa ideia, sentar-me em cima de um telhado e corrê-los à pedrada...

Abreijos.

samuel said...

Este texto é fantástico!
Já tive por hábito, no passado, terminar uma ou outra rstória que contasse, com este "Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!". Acabei por perder o hábito... embora a cara de espanto de algumas pessoas fosse impagável...

Abreijos

BlueVelvet said...

Há tanto tempo que não lia este poema.
Fizeste-me recordar uma private joke com "Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!".
Foi bom.
Beijinhos

Carminda Pinho said...

Recordar é não deixar morrer.:)
Beijo

isabel mendes ferreira said...

o bom que é Maria ter.te por aqui fazendo memória!!!!!



.


enorme beijo.

Arabica said...

E ainda as pedras voam.

Tal cresceu o mistério dos seios nascidos debaixo das blusas!


Um beijo de bom dia, Maria :)

Eduardo Aleixo said...

Grande Manuel da Fonseca, como gosto da tua poesia, e já passaram una anos!...
Foi bom ler-te outra vez!
Abraço.
Eduardo

anamar said...

Maria , andava adormecida a ideia de postar um poema sobre A Infancia de MF... um destes dias vai sair...
Bom recordar a poetica, a seguir vem a imagem, depois a ternura que ele inspirava..
Dia bom!

utopia das palavras said...

Como me lembro dele num café pela manhã, em Faro, contando histórias que me entreabriam a boca e me esbugalhava os olhos!

Gosto demais dele!

Recordei!!!!!!!!!!

beijinho

Teresa Durães said...

Há muito tempo que não lia Manuel Fonseca!

paula barros said...

Cada um com seus mistérios.

Sempre bom ler suas escolhas.

abraços

Pico minha ilha said...

Este não conhecia.Obrigada Maria, beijinho

Fernando Samuel said...

Grande Manel!
Obrigado.


Um beijo grande.

AnaMar (pseudónimo) said...

Maria:
SIM. Continuo a querer conhecer as pessoas que me comentam e as que eu leio e comento.
SIM. Olhos nos olhos!
Promovemos um encontro?

Beijosssssssssssssssssss

Pedro Branco said...

Que homenagem tão bonita às mulheres. Quem me dera conseguir fazer uma assim também!

Beijo e parabéns por esta escolha, Maria.

(malandreca?)

Maria said...

Pedro Branco

Este poema acompanha-me há muitos anos. Imagina lá porquê...
(Sim!)

Beijo, Pedro

Agulheta said...

Maria! O meu pai tinha e tenho um livro de algumas palavras e pouca poesia,este poema é o despertar da juventude na altura,e gostei,não conhecia
Beijinho

Pirate said...

Excelente Manuel da Fonseca, sobre as formas voluptuosas debaixo de texteis lusos... :-)
"O mistério dos seios" parece quase um conto da Agatha Crystie;-)
PS
Grato pela visita a mi casa.

Vieira Calado said...

Manuel da Fonseca com tive o gosto de privar, em Santiago do Cacém, de onde ele era nascido, e onde dei aulas.

Beijinho

simplesmenteeu said...

"o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas" a demorar os olhos... a desenhar a curva dos dedos e a ser sede nos lábios.
E ainda hoje, o musgo cresce nos telhados...
e há meninos que se escondem lá, para sonharem em liberdade...
Abraço forte

mundo azul said...

__________________________________


...belas recordações de Manuel Fonseca!

Obrigada por traze-lo!


Beijos no coração e o meu carinho...

_______________________________

Licínia Quitério said...

Manuel, o contador de histórias, em poesia ou em prosa, sempre com um terno cheirinho de inocência.

Apenas eu said...

Maria, este poema é lindo. Não o conhecia... que pena... assim muita coisa já estaria esclarecida em mim :))

Já se nasce poeta apaixonado pela vida e por tudo o que mexe...

Uma boa visão.

Montanhas de beijos em TU

Lúcia said...

Delícia:)
Beijinhos, Maria

Joao P. said...

Fantástico texto. Obrigado

Por estes dias preferia mais o mistério das pedras que se atiram dos telhados à maneira de ovos, do que entender outros mistérios.

Prioridades...

Muito obrigado

João

Maria P. said...

Gostei...:)

Beijinho, minha Maria*

Maria said...

Obrigada por terem passado aqui.

Beijos a todos

Ana said...

Uma delícia este poema.

Beijinho, Maria.

Luis Eme said...

é um grande poema em qualquer parte do mundo.

e um poema sobre Liberdade...

beijinho Maria

A.S. said...

Maria... que bom foi teres trazido até nós Manuel da Fonseca!...


Um beijo grande...

O Sibarita said...

Mocinha! kkk Que delicia de poema esse, né fia?

Ai esse meu tempo... kkkkkkkkk

bjs
O Sibarita