Saturday, March 21, 2015

A defesa do poeta


Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer!
  
Natália Correia


Monday, March 16, 2015

Coro dos Cornudos





04/12/10

http://cadernosemcapa.blogspot.pt/2010/12/como-recordacao-dum-convivio-memoravel.html


Poema de Luiz Pacheco (1925-2008)

Como recordação dum convívio memorável, aqui fica publicado, na íntegra, o longo poema de Luiz Pacheco, com o título CÔRO DE ESCARNHO E LAMENTAÇÃO DOS CORNUDOS EM VOLTA DE S. PEDRO, publicado pelas edições Afrodite na obra «Textos Malditos».
Fica também um abraço ao amigo que o disse quase todo de memória e aos que comigo partilharam o prazer de ouvir.

MONÓLOGO DO 1.º CORNUDO
I
Acordei um triste dia
Com uns cornos bem bonitos.
E perguntei à Maria
Por que me pôs os palitos.
II
Jurou por alma da mãe
Com mil tretas de mulher
Que era mentira. Também
Inda me custava a crer...
III
Fiquei de olho espevitado
Que o calado é o melhor
E para não re-ser enganado,
Redobrei gozos de amor.
IV
Tais canseiras dei ao físico,
Tal ardor pus nos abraços
Que caí morto de tísico
Com o sexo em pedaços!
V
Esperava por isso a magana?
Já previa o que se deu?...
Do além vi-a na cama
Com um tipo pior do que eu!
VI
Vi-o dar ao rabo a valer
Fornicando a preceito...
Sabia daquele mister
Que puxa muito do peito.
VII
Foi a hora de me eu rir
Que a vingança tem seus quês:
«O mais certo é práqui vir,
Inda antes que passe um mês».
VIII
Arranjei-lhe um bom lugar
Na pensão de Mestre Pedro
(Onde todos vão parar
Embora com muito medo...)
IX
Passava duma semana
O meu dito estava escrito
Vítima daquela magana
Pobre tísico, tadito!
DUETO DOS 2 CORNUDOS
X
Agora já somos dois
A espreitar de cá de cima
Calados como dois bois
Vendo o que faz a ladina
XI
Meteu na cama mais gente
Um, dois, três... logo a seguir!
Não há piça que a contente
É tudo que tiver de vir!
S. PEDRO, INDIGNADO, PRAGUEJA.
XII
- É de mais!... Arre, diabo!
- Berra S. Pedro, sandeu.
–E mortos por dar ao rabo
Lá vêm eles pró Céu!
CORO, PIANÍSSIMO, LIRISMO
NAS VOZES
XIII
Que morre como um anjinho
Quem morre por muito amar!
CORO, AGORA NARRATIVO
OU EXPLICATIVO.
Já formemos um ranchinho
De cá de cima, a espreitar.
XIV
Passam meses, passa tempo
E a bela não se consola...
Já semos um regimento
Como esses que vão prá Ingola!
(ÁPARTE DO AUTOR DAS COPLAS:
«COITADINHOS!»)
XV
Fazemos apostas lindas
Sempre que vem cara nova.
Cálculos, medidas infindas
Como ela terá a cova.
XVI
Há quem diga que por si
Já não lhe topou o fundo...
Outros juram que era assi
Do tamanho... deste Mundo!
XVII
- Parecia uma piscina!
–Diz um do lado, espantado.
- Nunca vi uma menina
Num estado tão desgraçado!
APARTE DO AUTOR, ANTIGO MILITANTE DAS ESQUERDAS (BAIXAS).
XVIII
(Um estado tão desgraçado?!...
Pareceu-me ouvir o Povo
Chorando seu triste fado
nas garras do Estado Novo!)
XIX
O último que chegou cá
Morreu que nem um patego:
Afogado, ieramá,
Nos abismos daquele pego.
O CORO DOS CORNUDOS,
ACOMPANHADO POR S. PEDRO EM SURDINA,
ENTOA A MORALIDADE, APÓS TER
LIMPADO AS ÚLTIMAS LAGRIMETAS
E SUSPIRANDO COMO SÓ OS CORNUDOS SABEM.
XX
Mulher não queiras sabida
Nem com vício desusado,
Que podes perder a vida
Na estafa de dar ao rabo.
XXI
Escolhe donzela discreta
Com os três no seu lugar.
Examina-lhe a greta,
Não te vá ela enganar...
XXII
E depois de veres o bicho
E as maneiras que tem
A funcionar a capricho,
Já sabes se te convém.
XXIII
Mulher calma, é estimá-la
Como a santa no altar.
Cabra douda, é rifá-la...
- Que não venhas cá parar.
XXIV
Este conselho te dão,
E não te levam dinheiro...
Os cornudos que aqui estão
Com S. Pedro hospitaleiro.
XXV
Invejosos quase todos
Dos conos que o mundo guarda
FAZEM MAIS UM BOCADO DE LAMENTAÇÃO.
NOTA DO AUTOR: QUASE,
PORQUE ENTRETANTO
ALGUNS BRINCAVAM UNS COM OS OUTROS.
RABOLICES!
Mas se fornicas a rodos
Tua vinda aqui não tarda!
RECOMEÇA A MORALIDADE, ESTILO
ESTÃO VERDES, NÃO PRESTAM.
ALGUNS BÊBADOS, CORNUDOS
DESPEITADOS OU AMARGURADOS.
VOZES PASTOSAS.
DEVE LER-SE: VIIINHO...VÉLHIIINHO...
XXVI
Melhor que a mulher é o vinho
Que faz esquecer a mulher...
Que faz dum amor já velhinho
Ressurgir novo prazer.
FINALE, MUITO CATÓLICO.
XXVII
Assim termina o lamento
Pois recordar é sofrer.
Ama e fode. É bom sustento!
E por nós reza um pater.


Luiz Pacheco
Num dia em que se achou
Mais pachorrento.

Saturday, March 14, 2015

Cantigas da Guerra Civil de Espanha


Cuentan que los inicios de esta tonada popular se remontan a las guerras coloniales del norte de África. La han cantado con diversas letras y títulos, "Viva la XV Brigada", "El ejército del Ebro"… Y en otras ocasiones cambiando a la protagonista: Manuela o Carmela. Hoy os traigo a Manuela.
Patxi Andión nos cantó esta canción popular republicana destacando una cosa en ella: es sólo una canción más, una historia más: en todos los pueblos, en todas las ciudades, en todas las aldeas hubo mujeres así. Para Emilio Prados, por ejemplo, fue Encarnación Jiménez: una lavandera a la que formaron consejo de guerra y fusilaron por atender a unos milicianos heridos. Pero, como dice Patxi, ésta es la canción de Manuela, aunque sea una más:



Manuela

Una historia más de guerra
que se cuenta en las montañas,
que se pierde allá en el tiempo,
¡Ay Manuel, ay Manuela!
pero vive en mi recuerdo
¡Ay Manuela!

Venía de Cataluña
y era hija de peones.
El coraje y la pasión
¡ay Manuela! ¡ay Manuela!
quemaban su corazón
¡ay Manuela! ¡Ay Manuela!

De todas partes venían
y su nombre ya sabían.
Ayudó a muchos hombres
¡ay Manuela! ¡ay Manuela!
que aún recuerdan ese nombre.
¡Ay Manuela! ¡Ay Manuela!
Una noche en las montañas,
dicen que tras su cabaña
desapareció una estrella.
¡ay Manuela! ¡ay Manuela!
nunca más se supo de ella.
¡Ay Manuela! ¡Ay Manuela!
Sólo queda en mi memoria
una canción y una historia:
es la canción de Manuela,
¡ay Manuela! ¡ay Manuela!
una historia más de guerra
¡Ay Manuela! ¡Ay Manuela!



 





LOS CAMPESINOS
El Ejército del Ebro,
rumba la rumba la rumba la.
El Ejército del Ebro,
rumba la rumba la rumba la
una noche el río pasó,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
una noche el río pasó,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Y a las tropas invasoras,
rumba la rumba la rumba la.
Y a las tropas invasoras,
rumba la rumba la rumba la
buena paliza les dio,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
buena paliza les dio,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
El furor de los traidores,
rumba la rumba la rumba la.
El furor de los traidores,
rumba la rumba la rumba la
lo descarga su aviación,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
lo descarga su aviación,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Pero nada pueden bombas,
rumba la rumba la rumba la.
Pero nada pueden bombas,
rumba la rumba la rumba la
donde sobra corazón,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
donde sobra corazón,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Contraataques muy rabiosos,
rumba la rumba la rumba la.
Contraataques muy rabiosos,
rumba la rumba la rumba la
deberemos resistir,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
deberemos resistir,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Pero igual que combatimos,
rumba la rumba la rumba la.
Pero igual que combatimos,
rumba la rumba la rumba la
prometemos combatir,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
prometemos combatir,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!

Monday, March 09, 2015

La Samarreta




Jo sóc fill de família molt humil.
Tan humil que d'una cortina vella
Una samarreta em feren: vermella.

D'ençà, per aquesta samarreta,
no he pogut caminar ja per la dreta.
He hagut d'anar contracorrent
perquè jo no sé què passa
que tothom que el ve de cara
porta el cap topant a terra.

D'ençà, per aquesta samarreta,
no he pogut sortir al carrer.
Ni treballar al meu ofici: fer de ferrer.

He hagut de, en el camp, guanyar jornals.
Així la gent ja no em veia:
Jo treballava amb la corbella.

I dintre de tots els mals,
sé treballar amb dues coses:
amb el martell i la corbella.

Gairebé no comprenc perquè la gent,
quan em veia pel carrer em cridava: "Progressista!"
Jo crec que tot això era promogut pel seu "despiste".

Potser un altre en les meves circumstàncies,
ja hagues canviat de samarreta.
Però jo, que m'hi trobo molt bé amb ella.
Perquè abriga, me l'estime,
i li pregue que no s'em faça vella.
---
Yo soy hijo de familia muy humilde.
Tan humilde que de una cortina vieja
Me hicieron una camiseta: roja.

Desde entonces, por esta camiseta,
ya no he podido caminar por la derecha.
He tenido que ir contracorriente
porque yo no sé qué pasa
que todo el mundo que la ve venir de cara
lleva la cabeza arrastrando por el suelo.

Desde entonces, por esta camiseta,
no he podido salir a la calle.
Ni trabajar en mi oficio: hacer de herrero.

He tenido que, en el campo, ganar jornales.
Así la gente ya no me veía:
Yo trabajaba con la hoz.

Y dentro de todos los males,
sé trabajar con dos cosas:
con la hoz y el martillo.

Ahora bien, no comprendo porque la gente,
cuando me veía por la calle me gritaba: "¡Progresista!"
Yo creo que todo esto era provocado por su "despiste".

Quizás otro en mis circunstancias,
ya habría cambiado de camiseta.
Pero yo, que me encuentro muy a gusto con ella.
Porque abriga, y la quiero,
y le ruego que nunca se me haga vieja.

Friday, March 06, 2015

94 anos


A 6 de Março de 1921 é fundado o Partido Comunista Português. A organização política de vanguarda dos trabalhadores portugueses surge, ao contrário da maior parte dos partidos comunistas europeus, não como resultado de uma cisão de um partido social-democrata, mas como uma natural emanação das necessidades do proletariado.
Em 1929, o PCP inicia a primeira reorganização com vista a defender-se dos primeiros impactos da clandestinidade. Foi o único partido republicano que não aceitou dissolver-se na ditadura. Todos os restantes capitularam, auto-dissolveram-se ou acabaram enquadrados no regime que resultara do golpe de 1926. O PCP foi proibido 5 anos após a sua fundação, e resistiu. Estava a forjar-se a gesta heróica de dirigentes e militantes que assumiam o compromisso pela libertação dos trabalhadores como a mais importante tarefa das suas vidas.
Em 1940-41 inicia-se a reorganização mais funda. Sucessivos golpes da polícia política e das forças repressivas do fascismo haviam quase destruído a direcção do PCP. Durante alguns meses, o PCP ficara sem membros dirigentes e a situação exigia medidas rápidas de protecção. Mais do que aventura, o operariado precisava de uma organização capaz de derrotar, no concreto e não apenas nas palavras, o fascismo. 6 anos antes, o operariado revoltoso, por todo o país, realiza a greve de 18 de Janeiro com contornos insurreccionais e com heróicos avanços, particularmente na Marinha Grande, onde foi tomado o posto da Guarda. Foi brutalmente reprimido. Mas resistiu porque existia partido.
Durante a década de 40, com particular expressão em 43 e 44, a reorganização do PCP assume "paz, pão e liberdade" como palavras que fundem as aspirações do povo com partido dos trabalhadores. Um partido que está nos corações do povo não pode ser destruído. O fascismo tentou conter, mas a orientação do PCP de aprofundar a ligação às massas e de se tornar um partido nacional permitiu-lhe resistir. O marxismo-leninismo consolida-se, o centralismo democrático assume-se como forma de decisão, o Partido liga-se ao operariado e nele tem a sua fonte inesgotável de quadros. Por cada comunista caído às mãos da violência fascista, outro comunista se levanta.
Durante os últimos anos da década de 50, o partido resiste e corrige um desvio de direita que o afastava das tarefas que se lhe impunham. De 61 a 65 o PCP reorienta a sua estratégia, dirige-se cada vez às massas trabalhadoras, mas também alarga a sua influência e o contacto com outras camadas antimonopolistas, rumo à vitória.
Nove anos depois o 25 de Abril de 1974. E tudo. E os sonhos, e o partido do sonho e as organizações de juventude que sempre o acompanharam, todos saem à luz do dia, à verdadeira luz do dia.
2 anos de conquistas, umas atrás das outras. Escritas nas páginas da lei. Com o partido à frente.
38 anos de reconstituição monopolista, de destruição de direitos e recuperação de privilégios não foram ainda suficientes para destruir o que em dois anos se construiu pelo povo português. Porque o partido, a juventude comunista, os sindicatos de classe resistiram num contexto de ofensiva crescente.
E enquanto resistimos também construímos este projecto colectivo que já foi um sonho e hoje é a luta da nossa vida, o Socialismo e o Comunismo.
Somam-se 94 anos de luta pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo e pelo comunismo. 94 anos, "muitas vezes fustigados por duras chuvas e ventos, mas sempre pelo rosto e nunca pelas costas." (A. Cunhal)
Parabéns, comunistas de hoje, portadores desta história que nos molda o presente e o futuro.

Miguel Tiago
(deputado do PCP)

Wednesday, March 04, 2015

Meu Amor Eterno



Meu Amor Eterno

Há poucas coisas de que me arrependo na vida. Mas há erros que se cometem que são de uma grande injustiça.
Em todos os formulários e fichas que tive de preencher ao longo da minha vida, sempre que tinha que indicar a profissão da minha mãe eu escrevia "doméstica". Foi isso que me ensinaram, as mulheres que ficam em casa a tratar dos filhos são domésticas. Mas a minha mãe nunca foi doméstica. A profissão da minha mãe, exercida há 45 anos é ser Mãe. Assim, com letra maiúscula e tudo.
Profissão da mãe: Mãe
A minha mãe assumiu com tal brio o seu papel que passou a ser Mãe acima de tudo. Mais que mulher foi Mãe. Mais que esposa foi Mãe. Muito mais que doméstica ou "dona de casa", ela foi Mãe.
E logo escolheu a profissão mais exigente e desgastante que existe. Trabalha 365 dias por ano, 24 horas por dia. Não tem direito à greve. Não se pode despedir por justa causa, nem por outra causa qualquer. Não existem horários, a disponibilidade tem que ser total.
Não me fica bem dizer isto, mas os resultados do seu labor e da sua arte estão bem à vista. De tal forma foi bem sucedida na sua "carreira" que foi promovida: agora é Avó.
Profissão da mãe: Mãe e Avó
E como Mãe não tem direito a descanso acumula as duas funções, embora com menor carga horária.
Só espero que um dia me possa perdoar a burrice de ter escrito doméstica onde deveria ter aparecido Mãe. E agora, Mãe e Avó.
Mas não uma mãe qualquer. A minha mãe, a única. O ser humano mais humano no ser que conheço. Que toma as dores dos outros como suas, sofrendo às vezes mais que os próprios. Que é incapaz de dizer não a quem lhe bate à porta, mesmo sabendo que pode estar a ser enganada, mesmo quando a pessoa que lhe bate à porta já antes a enganou. A única pessoa que conheço que não entende, nunca entendeu e nunca vai entender o reverso da medalha, a maldade do ser humano. A pessoa que me ensinou o prazer de dar, de fazer o bem aos outros sem esperar nada em troca. A quem eu bebi o exemplo de estar sempre disponível para ajudar o próximo, embora não o consiga aplicar com a dimensão que ela sempre o fez.
Mãe: Meu Amor Eterno!

#70anos #gratidão

Rogério Charraz

Monday, March 02, 2015

**


Ainda sonho!

Sunday, February 22, 2015

*


Mais do que um sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.


E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.


Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor. 


David Mourão-Ferreira

Monday, February 09, 2015

CONVERSA COM A CHUVA



(Poema infanto-juvenil escrito no outono de 1974 durante as
primeiras chuvas, depois de perder a minha mãe em Julho,
e que permanece inédito.)


Gota a gota se faz o teu vestido de água
cobrindo toda a terra: as florestas,
os vales, as montanhas. Gota a gota
te tornas rio e oceano e depois nuvem
e rio e oceano uma vez mais.
E quando és nuvem
rasgas o teu vestido lá no céu
entornando pequenas pérolas de água
que depressa todo o chão bebe e transforma
na seiva que alimenta a jovem macieira
ou o grande castanheiro
e todas as árvores que erguem
os seus ramos para o céu
como se fossem braços
para te abraçar e festejar depois
fazendo desabrochar as flores brancas
vermelhas, lilases, amarelas ou azuis
com que a primavera se veste para
oferecer ao verão frutos muito doces
que são a água de mãos dadas com a terra
no alto de uma árvore.
Às vezes quando dormimos
os teus pequenos dedos tocam na vidraça
e acordam-nos
como se quisessem entrar
e ter uma casa
ou como se andasses a fugir do frio
e estivesses cansada de ser empurrada
pelo vento.
É por isso que quase sempre
tenho vontade de abrir-te a janela
e falar contigo
para que me contes tudo o que viste
no fundo dos rios
ou no alto das nuvens
como desceste as encostas das montanhas
em que sítio das planícies te escondeste
à espera de voar
voar
voar
voar
como um pássaro transparente
ou como se fizesses um truque de magia.
Há quem não goste de ti
mas eu sim: eu amo-te e adoro ver-te
cair sobre as flores que
lavam a cabeleira perfumada
e guardam minúsculas gotinhas como diamantes
para cortejar depois o sol.
Eu gosto de ficar horas a olhar-te
e de ver as pessoas passarem apressadas
com sombrinhas coloridas
ou com enormes e tristes guarda-chuvas pretos
e penso que as que usam sombrinhas alegres
são como eu: acham que a chuva é uma festa.
A festa da alegria das árvores.
E é por isso que
quando chove o céu se enfeita com
uma bandeira de todas as cores que é
o arco-íris.
Mas também os camponeses gostam de ti
e de te ver poisar nos campos
sobre a sementeira ou o pomar
e mesmo os pinheiros muito altos e direitos
com aquele ar de quem não se interessa
se sentem felizes por se cobrirem depois de pinhas
e ficarem muito verdes
com um belo tronco escuro
como se tivessem comprado um fato novo.
E se é verdade que molhas os sapatos das pessoas
e entras pelos buracos das casas pobres
onde vivem pessoas mais pobres do que as casas
tu não és culpada.
Isso não.
Culpadas são aquelas pessoas
que nunca têm tempo para olhar a chuva
as pessoas sisudas e egoístas
que não se importam nada com a vida dos outros
a não ser com a daqueles
tão distraídas como elas.
Tu não tens culpa. Tu gostas
de toda a gente
porque és como as pessoas boas: generosa
transparente e simples. Só que
por vezes bebes muito no mar
bebes
bebes
e engordas as nuvens
que de tão cheias não cabem lá no céu
e andam
desastradamente umas contra as outras
fazendo trovoada
numa enorme discussão de relâmpagos.
Assim mesmo
eu cá em baixo fico fascinado com a tua luz
e admirado como consegues ter essa voz grossa
que se ouve a quilómetros e quilómetros
de distância. Mas nunca tenho medo
porque sei que não estás zangada
e lembro-me que por vezes
dentro do meu corpo há um barulho assim
quando as vísceras andam às voltas porque
também eu comi mais do que devia.
E quando acabas
os rios estão mais cheios e levam
os barcos mais depressa
os peixes saltam a medir forças com a corrente
e transbordam as albufeiras das barragens
com a tua água
que irá produzir energia eléctrica
uma espécie de relâmpago que entra depois
nas nossas casas
sem nenhum barulho
e dura todo o tempo que quisermos.
Porém muita gente que lê ou escreve até tarde
ou vê televisão
e não gosta da chuva
não se lembra que és tu que trabalhas
entre o céu e a terra
para que possamos ter de noite
uma claridade igual à de todos os dias.
É por tudo isto chuva que eu te amo
e quando passa muito tempo sem te ver
sinto-me já cheio de saudades
e fico impaciente
esperando na minha janela
por vezes esperando muito
mas assim que tu chegas é como
quando a alegria chega ao meu coração
ou recebo uma carta de um amigo
ou ainda
como se a minha mãe que já não tenho
voltasse de muito longe
para me beijar.

Joaquim Pessoa

(De CONVERSA COM A CHUVA, a editar brevemente,
integrado na comemoração dos meus 40 Anos de Poesia
publicada em livro (1975-2015).

Tuesday, February 03, 2015

*


Matas-me todas as noites e em todas as manhãs renasço nas memórias que se avivam sempre que te leio escrevo-te um poema que apago e logo refaço em álcool tabaco figuras difusas e tu sempre no meio.
Inevitável lembrar o teu corpo e o teu sorriso rodopiando na sala onde a dança era alegria olhos malandros de um olhar profundo e vivo e a certeza que assim vivíamos todas as noites até ser o dia.

Wednesday, January 28, 2015

A Bandeira Comunista





Foi como se não bastasse
tudo quanto nos fizeram
como se não lhes chegasse
todo o sangue que beberam
como se o ódio fartasse
apenas os que sofreram
como se a luta de classe
não fosse dos que a moveram.

Foi como se as mãos partidas
ou as unhas arrancadas
fossem outras tantas vidas
outra vez incendiadas.
À voz de anticomunista
o patrão surgiu de novo
e com a miséria à vista
tentou dividir o povo.
E falou à multidão
tal como estava previsto
usando sem ter razão
a falsa ideia de Cristo.
Pois quando o povo é cristão
também luta a nosso lado
nós repartimos o pão
não temos o pão guardado.
Por isso quando os burgueses
nos quiserem destruir
encontram os portugueses
que souberam resistir.
E a cada novo assalto
cada escalada fascista
subirá sempre mais alto
a bandeira comunista.

José Carlos Ary dos Santos

Wednesday, January 21, 2015

Vento e Poesia



Quando eu souber da cor do vento
e o vir passar na minha rua
pedir-lhe-ei que entre, com tempo
e cubro-o com a manta que é tua
Quando eu souber do sabor do vento
guardá-lo-ei fechado no coração
para que possas saborear, com tempo
e fazer-lhe um poema, talvez uma canção
Quando eu souber do canto do vento
seja na montanha, no campo ou no mar
escrevê-lo-ei na areia, a tempo
de vir uma onda rebelde e o apagar.
Para que tu possas descobrir, um dia,
que o vento, se quiser, também é poesia.

Sunday, January 18, 2015

Desespero


Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero.

Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'

Saturday, January 10, 2015

Esta Gente


Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo


Sophia de Mello Breyner Andresen

Wednesday, December 31, 2014

*


A morte faz-se de silêncio e de água.
Porque a vida se faz da água e do grito.
O poeta nasce sempre que os seus poemas são lidos...


Bom Ano a todos!

Monday, December 29, 2014

...........


Nunca o amor foi tão urgente. 
Nunca andámos tão distraídos como agora. 
Nunca o egoísmo e a mentira foram tão fortes como agora. 
É urgente derrubar muros. 
É urgente darmos as mãos. 
É urgente o amor!

(depois de reler Eugénio de Andrade)

Sunday, December 21, 2014

NATAL DE 1971


Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?


Jorge de Sena

Wednesday, December 17, 2014

Los cinco



Há dias que nos surpreendem. Tudo o que tinha que fazer hoje de tarde passou para amanhã. A tarde toda foi frente ao mar. A falar com o Editor. A ler livros. Frente ao mar, que estava bravo. E a ilha em frente. E eu a lembrar-me da Ilha outra e de amigos de lá.

Não sabia que, quando chegasse a casa, teria a melhor notícia dos últimos tempos: os 3 estão em casa. Os cubanos que faltavam, claro. Um mês e dois dias depois de já não poderes saber, meu querido Amigo e Camarada, o melhor e maior amigo de Cuba em Portugal, eles voltaram à Pátria amada.

Depois foi o corropio de telefonemas. De e para a Ilha do lado de lá. Estamos a comemorar aqui, no nordeste brasileiro e lá. Hoje é dia de Festa! Da Festa que, sendo deles, é também nossa. Hoje sou toda coração! E mar, salgado de felicidade!

Como vês, Editor, tinhas razão para ter escrito 'um dia especial'. Só não sabias quão especial era, é, o dia de hoje, para nós!

Viva o Povo Cubano!

Tuesday, December 16, 2014

História Antiga


Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.


E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.

Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga

Wednesday, December 10, 2014

...............

AS EMPADAS (ou, por sugestão aceite, Uma estória, entre outras, de umas empadas trazidas de Montemor-o-Novo para a Quinta dos Cuidados)

Finalmente o encontro. Marcado e cancelado várias vezes, para acertar datas. Vieram do centro do norte e do sul e o calor humano encheu a sala. Com uma vista a perder de vista. E sentaram-se à mesa, os doze que estavam e todos os que não estavam, para degustar as iguarias por que andavam a salivar há que tempos... e o pão de ló é bom com whisky.
Conversa franca e aberta. Falando de tudo e de nada mas aproveitando cada momento. Pedaços de vida contados vividos talvez sofridos, afinal a vida é tudo isto. E o convívio. E as viagens que se fazem e outras que imaginamos, com o mar logo ali em baixo, era azul, era mar, com certeza. E o calor pedia um mergulho. Mergulharam na conversa... e o pão de ló é bom com whisky.
O corpo a ficar mole. E a conversa a rolar, sobre tudo, sobre todos, e as crianças sempre ali as presentes e as que já o foram, porque sairam para o jardim. Para brincar, que é o que as crianças sabem fazer melhor. Devíamos aprender com elas, que ainda sabem sonhar e inventar estórias. E os nossos nunca mais se resolvem...
A criança que ficou na sala, cheia de crianças dentro, saltitava de colo para colo. Queria cantar e dançar, sei lá, talvez para espantar o sono que a invadia. Mas continuava a resistir. Ao sono. À conversa dos adultos, teimando em chamar a atenção para ela. E os nossos nunca mais se resolvem...
Depressa a tarde chegou ao fim. Ao tempo de partir. Seguiriam os doze que estavam e todos os que não estavam para o sul o norte e o centro. E vieram os abraços já com saudades do tempo que tinha sido aquele dia. De convívio, de camaradagem, de amena cavaqueira. Sempre regada com um excelente vinho.
O que tem o título deste post a ver com o seu conteúdo? Nada.
Mas as empadas são deliciosas, o pão de ló é bom com whisky e os nossos nunca mais se resolvem.
Ah, e não falei das empadas, que estavam excelentes...

Saturday, November 29, 2014

Arame



Que nunca se cale a ternura das palavras
e nunca se desfaçam os sonhos que trazes nas mãos
que das lágrimas que te escorrem se façam sementes
que ao cairem no chão possam ser fecundadas
pelas águas dos rios que te trespassam
e de novo possam surgir as árvores de verde folhagem
para abrigarem todos os pássaros quando chegar a primavera
não haverá mais gritos nem medos nem espadas
todas as crianças voltarão a brincar nas ruas
e a Natureza voltará em todo o seu esplendor
como se nunca tivesse havido um arame…

Sunday, November 16, 2014

O meu Amigo partiu...




Amigo

Amigo
É mais que uma palavra, é uma aragem de esperança

Amigo
É mais que um irmão, é um “sempre presente”

Amigo
É mais que o sol ou a lua, a chuva ou o vento

Amigo é terra, porque fecunda e dá fruto
É mãe, porque protege
É mar, porque é vida

Amigo é tanto!

Amigo é ar, porque respira
É fogo, porque aquece
É partilha, porque cúmplice

Amigo é abraço
Amigo é ternura
Amigo, sem cansaço
É a forma de amor mais pura

Amigo é tanto que nem cabe na palma da mão! 


O meu último abraço para ti, Zé. Do tamanho do Mundo!



Monday, November 10, 2014

UMA CHAMA NÃO SE PRENDE


Rodeado de paredes
rodeadas de muros altos
que foram já muralhas
um preso encarcerado
ao longo da terrível década de 50
ao longo desses anos que só agora
começavam
Não cedeu.
Levado a tribunal
em 2 de Maio de 1950
só então fica a saber que Militão e Sofia
presos com ele e torturados não “falaram”
não cederam E que esse grande patriota Militão
Ribeiro fazendo a greve da fome foi morto.
Perante o tribunal acusa os seus acusadores
Defende o seu Partido a sua acção e direcção
a sua orientação política
Responde ás calúnias rasteiras
que são os porcos argumentos do ódio
e do terror de estado Ponto a ponto
responde com o orgulho do homem livre
a coragem da clareza e o vigor da inteligência
Responde por si e pelos seus
como quem acusa e ameaça
Ameaça o inimigo que o tem preso
que o terá encarcerado 11 anos seguidos
14 meses incomunicável
E 8 anos em tenebroso
Isolamento
E não cedeu Nunca cedeu

Agora na humidade salina da cela
contra o eco do estrondo do mar
que não esquece/ e grita/ contra a fortaleza
contra a corrente contínua dos dias e das noites
contra a solidão dos homens já
meio submersos e
o piar dos corvos
este homem livre é uma chama
uma lâmpara marina
não cede e lê e desenha lê
e estuda e escreve este homem livre
que está preso e é uma chama
açoitada pelo vento e pelo silêncio
numa cela Não cede e escreve
A Questão Agrária,
As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média
e escreve uma tradução do Rei Lear
e escreve Até amanhã, camaradas

Uma semana depois, a 9 de Maio
o homem livre encarcerado
excepcional e comum, o dirigente
Da gente comum, que se agiganta perante
aqueles esbirros sombrios,
aquele bando de tartufos, pálidos
representantes dos fazedores de
leis iníquas e injustas
e, subtraindo-lhes o tribunal e a ordem
do mundo que
p’ra ele tinham estabelecido
declara enfim
«no que me diz pessoalmente respeito
também alguma coisa fica provado:
É que como membro do PCP, como filho
Adoptivo do proletariado,
Cumpri os meu deveres
para com o meu partido e o meu povo.
É isto que interessa fique provado, porque é só
ante o meu partido
e o meu povo
que respondo pelos meus actos
Vamos ser julgados e certamente
Condenados. Para nossa alegria
Basta saber que o nosso povo pensa
que se alguém deve ser, julgado e condenado, por agir contra os
interesses do povo e do país, por querer arrastar Portugal a uma
guerra criminosa, por utilizar meios inconstitucionais e ilegais, por
empregar o terrorismo, esse alguém não somos nós, comunistas.
O nosso povo pensa que se alguém deve ser julgado por tais
crimes, então que se sentem os fascistas no banco dos réus, então
que se sentem no banco dos réus os actuais governantes da
nação e o seu chefe Salazar.
O homem livre encarcerado
Fugirá enfim
numa fuga colectiva
a 3 de Janeiro de 1960
e nunca mais
foi apanhado.

Manuel Gusmão

Wednesday, November 05, 2014

Sátira aos homens quando estão com gripe


Pachos na testa, terço na mão
Uma botija, chá de limão
Zaragatoas, vinho com mel
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher
Ai Lurdes, Lurdes, que vou morrer
Mede-me a febre, olha-me a goela
Cala os miúdos, fecha a janela
Não quero canja, nem a salada
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada
Se tu sonhasses, como me sinto
Já vejo a morte, nunca te minto
Já vejo o inferno, chamas diabos
Anjos estranhos, cornos e rabos
Vejo os demónios, nas suas danças
Tigres sem listras, bodes de tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes, que foi aquilo!
Não é a chuva, no meu postigo
Ai Lurdes, Lurdes, fica comigo
Não é o vento, a cirandar
Nem são as vozes, que vêm do mar
Não é o pingo de uma torneira
Põe-me a santinha, à cabeceira
Compõe-me a colcha, fala ao prior
Pousa o Jesus, no cobertor
Chama o doutor, passa a chamada
Ai Lurdes, Lurdes, nem dás por nada
Faz-me tisanas, e pão-de-ló
Não te levantes, que fico só
Aqui sozinho a apodrecer
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

(António Lobo Antunes)

Tuesday, October 28, 2014

Sigamos o cherne


Sigamos o cherne, minha amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria...

Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa de passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado...

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando, mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa...

Alexandre O’Neill

Thursday, October 23, 2014

A palavra Camarada


Camarada é uma palavra bonita. Sempre. E assume particular beleza e significado quando utilizada pelos militantes comunistas.

O camarada é o companheiro de luta - da luta de todos os dias, à qual dá o conteúdo de futuro, transformador e revolucionário que está na razão da existência de qualquer partido comunista.

O camarada é aquele que, na base de uma específica e concreta opção política, ideológica, de classe, tomou partido - e que sabe que o seu lugar é o do seu partido, que a sua ideologia é a da classe pela qual optou.

O camarada é aquele com cujo apoio solidário contamos em todos os momentos - seja qual for o ponto da trincheira que ocupemos e sejam quais forem as dificuldades e os perigos com que deparamos.

O camarada é aquele que nos ajuda a superar as falhas e os erros individuais - criticando-nos com uma severidade do tamanho da fraternidade contida nessa crítica.

O camarada é aquele que, olhando à sua volta, não vê espelhos... - vê o colectivo - e sabe que, sem ter perdido a sua individualidade, integra uma outra nova e criativa individualidade, soma de múltiplas individualidades.

O camarada é aquele que, vendo a sua opinião minoritária ou isolada, mas julgando-a certa, não desiste de lutar por ela - e que trava essa luta no espaço exacto em que ela deve ser travada: o espaço democrático, amplo, fraterno e solidário, da camaradagem.

O camarada é aquele que, tão naturalmente como respira, faz da fraternidade um caminho, uma maneira de ser e de estar - e que, por isso mesmo, não necessita de a apregoar e jamais a invoca em vão.

O camarada é aquele que olhamos nos olhos sabendo, de antemão, que lá iremos encontrar solicitude, camaradagem, lealdade - e sabemos que esse olhar é uma fonte de força revolucionária.

O camarada é aquele a cuja porta não necessitamos de bater - porque a sabemos sempre aberta à camaradagem.

O camarada é aquele que jamais hesita entre o amigo e o inimigo - seja qual for a situação, seja qual for o erro cometido pelo amigo, seja qual for a razão do inimigo.

O camarada é o que traz consigo, sempre, a palavra amiga, a voz fraterna, o sorriso solidário - e que sabe que a amizade, a fraternidade, a solidariedade, são valores humanos intrínsecos ao ideal comunista.

O camarada é aquele que é revolucionário - e que não desiste de o ser mesmo que todos os dias lhe digam que o tempo que vivemos é coveiro das revoluções.



Camarada é uma palavra bonita - é uma palavra colectiva: é tu, eu, nós: é o Partido. O nosso. O Partido Comunista Português.




José Casanova

(in Avante!, 20.6.2002)

Thursday, October 16, 2014

Memória de Adriano


 
Em memória de Adriano
 
Nas tuas mãos tomaste uma guitarra
copo de vinho de alegria sã
sangria de suor e de cigarra
que à noite canta a festa da manhã.

Foste sempre o cantor que não se agarra
O que à terra chamou amante e irmã
Mas também português que investe e marra
Voz de alaúde e rosto de maçã.

O teu coração de oiro veio do Douro
Num barco de vindimas de cantigas
Tão generosas como a liberdade

Resta de ti a ilha dum tesouro
A jóia com as pedras mais antigas
Não é saudade, não! É amizade...
 
José Carlos Ary dos Santos

Saturday, September 27, 2014

Pele


Deitado o teu corpo reclama em cios
Cada poro da minha pele abrindo em flor
Despertas-me os sentidos mais sombrios
Sangue fervendo em corpo cheio de amor

No toque de mansinho e em arrepio
Cruzamos o olhar  em leito de cetim
E se és barco em que navego neste rio
Em ti transporto mel, canela e alecrim.

Pele de mim que despes lentamente
Em carne viva pulsando na tua mão
Fundimo-nos num só corpo e de repente
Apenas a roupa espalhada pelo chão

Com meus dedos agora te percorro
Toda a pele transpirada do calor
O teu cheiro ilumina-me e eu morro
Com sentido esvaída pelo amor.

Tuesday, September 23, 2014

A noite na ilha


Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.


Pablo Neruda

Thursday, September 18, 2014

Porquinho-da-Índia



Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão. Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.

Manuel Bandeira

Thursday, September 11, 2014

No ano 41 do 11 de Setembro de 1973


HOMENAGEM AO POVO DO CHILE

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro

Nas suas almas abertas
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança

Gritavam Neruda Allende
davam vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no Povo jamais vencido
– o Povo nunca se rende
mesmo quando morre unido

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Alguns traziam no rosto
um ricto de fogo e dor
fogo vivo fogo posto
pelas mãos do opressor.
Outros traziam os olhos
rasos de silêncio e água
maré-viva de quem passa
Uma vida à beira-mágoa.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Mas não termina em si próprio
quem morre de pé. Vencido
é aquele que tentar
separar o povo unido.
Por isso os que ontem caíram
levantam de novo a voz.
Mortos são os que traíram
e vivos ficamos nós.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que nasceram para o Chile
morrendo de corpo inteiro.

 
José Carlos Ary dos Santos

Tuesday, September 09, 2014

Para memória futura


Carvalhesa - Texto de Ruben de Carvalho

Carvalhesa - Texto de Ruben de Carvalho

Carvalhesa

      Em Março de 1985 a Comissão Política do CC do PCP criou um grupo de trabalho com o objectivo de se tentar criar um tema musical para a campanha eleitoral para as eleições legislativas desse ano e que desse identidade sonora às diversas manifestações, desde os carros de som até aos indicativos de tempos de antena.
      A primeira ideia dessa equipa foi a de encontrar um tema de música tradicional portuguesa a que se pudesse dar um tratamento instrumental no estilo do que entretanto se começara a chamar MPP, Música Popular Portuguesa. Vivia-se então um momento de grande criatividade em termos de música popular, na esteira de Zeca Afonso e Sérgio Godinho, os trabalhos dos Trovante, de Júlio Pereira, de Fausto tinham criado uma sonoridade tão nova quanto portuguesa e que conseguia um resultado inteiramente surpreendente: conquistava público em todo o País e em todas as áreas culturais. Pelas suas raízes no folclore despertava eco nas audiências culturalmente fixadas em raízes e padrões rurais com a mesma facilidade com que desencadeava o entusiasmo de plateias juvenis que de bom grado trocavam a batida rock por surpreendentes linhas rítmicas bebidas em adufes e Zés-Pereiras.
      Pensou-se assim procurar um dos temas tradicionais que Lopes-Graça harmonizara para o Coro da Academia de Amadores de Música, assegurando mais uma significante ligação entre duas épocas e dois estilos, ligados pela comum paixão pelo património popular e pela comum identificação ideológica e política com os interesses do povo português. Optou-se em primeiro lugar por uma conhecidíssima melodia, a do «Canta, camarada, canta». Sabe-se como esta velha canção de contrabandistas transmontanos adquirira durante o fascismo um cunho claramente progressista, não apenas pelo facto de a Lopes-Graça se dever a sua divulgação, mas também pelo uso do vocativo «camarada».
      A ideia era que o arranjo fosse puramente instrumental, mas defrontou-se a dificuldade de a melodia possuir letra tradicional e bem conhecida entre os democratas - sendo praticamente inevitável que a sua execução coral acabasse a generalizar-se. E se nada vinha de mal ao mundo se num comício da então APU se cantasse «canta, camarada canta/canta que ninguém te afronta», já parecia polémico que no mesmo local se atroasse os ares afirmando «eu hei-de morrer de um tiro/ou de uma faca de ponta»... E se não seriam de prever críticas ao «viva a malta, trema a terra/daqui ninguém arredou», as coisas poder-se-iam complicar com o «quem há-de temer a guerra/sendo um homem como eu sou»...
      Passou-se então à consulta do livro «Cancioneiro Popular Português» de Michel Giacometti (Círculo de Leitores. Lisboa, 1981). Piano em frente, lá se foi procurando e, uma semana decorrida, pelas três da manhã, a «Carvalhesa» deve ter soado pela primeira vez fora de Trás-os-Montes, de onde é natural. Em Julho desse ano gravou-se a primeira versão e editou-se um maxi-single de vinyl.
      Como se explica no folheto que acompanhou essa primeira edição, verificou-se, porém, ainda antes da gravação, um «caso». Poucos dias depois da escolha, tinha-se procurado nos discos dos «Arquivos Sonoros Portugueses», de Giacometti e Lopes-Graça, se lá estaria a «Carvalhesa» gravada em versão original e popular - e estava! Imediatamente se decidiu pedir a Giacometti uma cópia da gravação e ter-se-ia um excelente lado B do maxi-single.
      Contudo, ao ouvir o disco dos «Arquivos», verificou-se com grande perplexidade que a «Carvalhesa» que o gravador de Giacometti registara em Trás-os-Montes e ali se reproduzia não era manifestamente aquela cuja pauta se encontrava no livro e que se iria utilizar. O mistério seria decifrado dias mais tarde pelo próprio Giacometti.
      No início deste século, um jovem maestro e compositor alemão, nascido em Berlim em 1882, fixou-se em Nova Iorque. Estudara em Berlim e Munique, apenas com 20 anos era maestro assistente da ópera de Stuttgart e, em 1905, começa a desempenhar idênticas funções no New York Metropolitan. O seu nome - Kurt Schindler.
      O trabalho de Schindler nos Estados Unidos foi profícuo em numerosas áreas. Criou, em 1909, o coro da MacDowell Church (rebaptizado Schola Cantorum em 1912) que desempenhou importantíssimo papel na divulgação e recuperação coral clássica e moderna, foi organista do famoso Temple Emanu-El de Nova Iorque, compôs, dirigiu.
      No final da década de 20, o laureado maestro largou a sua confortável vida de músico reconhecido e respeitado na grande metrópole e embarcou para a Europa para fazer investigação etnográfica - em Espanha! A escolha do local não é surpreendente: a música espanhola, coral e de órgão, estivera sempre no centro dos interesses de Schindler, tanto quanto a música tradicional, para a qual fora profundamente influenciado pelo seu professor de adolescência Max Friedlander.
      De gravador de discos de alumínio debaixo do braço, Schindler percorreu durante os anos de 1931 e 32 as Astúrias, Navarra, o Norte da península, e, em 1932, atravessando as difusas raias transmontanas, acabou por entrar em Portugal onde prosseguiu o seu trabalho. Infelizmente, porém, o gravador avariara-se e Schindler fez a sua recolha em Trás-os-Montes apenas mediante transcrições musicais.
      Regressado aos EUA, viria a falecer em 1935. Postumamente, a Columbia University editou o resultado das suas investigações em «Folk Music and Poetry of Spain and Portugal» (Columbia University. Hispanic Institut in the United States. New York, 1941. Existe uma reedição do Centro de Cultura Tradicional. Salamanca, 1991. Vd. http://digilib.nypl.org/dynaweb/ead/music/musschindle).
      Mais de vinte anos depois, em 1958, um etnólogo natural de Ajaccio, na Córsega, que acabara de dirigir uma missão internacional de estudo do folclore das ilhas mediterrânicas, descobriu o livro de Schindler nas prateleiras da biblioteca do Museu do Homem, em Paris. Meses depois, sobraçando o primeiro gravador Nagra (ainda de manivela!) a aparecer em Portugal, Michel Giacometti seguia as pisadas de Schindler no Nordeste transmontano e entrava pela primeira vez num país que iria adoptar como seu e que o iria adoptar como um dos seus filhos.
      Nessas primeiras andanças por Trás-os-Montes, Giacometti foi ainda encontrar a memória do investigador americano que por ali andara duas décadas antes. E o seu tecnológico microfone era comparado, pelos músicos populares que gravou, com a fascinação que sobre eles exercera aquele estrangeiro que escrevia sinais num papel enquanto os escutava para depois, quase misteriosamente, repetir exactamente os mesmos sons lendo os pontos e riscos que anotara...
      Em 1981, Giacometti teve finalmente possibilidades de editar o seu «Cancioneiro Popular Português» e fê-lo com a probidade de intelectual e de homem de ciência que era: nele não inclui exclusivamente os registos efectuadas durante o seu trabalho e a sua colaboração com Fernando Lopes-Graça, mas sim uma selecção geral - definida por critérios de rigor e qualidade - do trabalho de quantos contribuíram para a recolha de melodias criadas pelo povo português. E ali se encontram mesmo recolhas de homens que, fixando embora a voz do povo, bem pouco a respeitavam, como o caso do desconfiado musicólogo amador que, nos anos 60, informou pressuroso a PIDE de que pelas suas terras andava pregando a subversão um francês que recolhia melodias e tradições... Giacometti sorria, quando contava: «Mandei-lhe o livro, telefonou-me, agradecendo, desfazendo-se em desculpas, tentando explicar aquilo ..» E, investigador apaixonado e generoso, concluía: «É de direita, mas é um bom homem. E muito sério nas recolhas que fez
      A «Carvalhesa» foi uma das peças objecto de selecção. Exactamente na mesma aldeia (Tuiselo, perto de Vinhais - Bragança) onde em 1932 Schindler recolhera a melodia publicada em «Folk Songs...», Giacometti havia recolhido em 1970 uma outra, a que os seus executantes populares atribuíam o mesmo nome, mas inteiramente diferente.
      O facto não é estranho. Como se afirma nas notas do «Cancioneiro», «a "CarvaIhesa", dança de quatro laços, era, com a "Murinheira" e o "Passeado", o baile preferido da região. O instrumento tradicional a acompanhar estas danças era a gaita de foles». Ou seja, a «Carvalhesa» é essencialmente uma dança, para a qual se conhecem duas melodias, mas que poderá mesmo ter sido dançada com outras entretanto perdidas. Face às duas versões, Giacometti entendeu ser mais interessante a recolhida por esse compositor alemão que fora o ausente cicerone da sua descoberta de Portugal. E, página 217 do «Cancioneiro, tema 166, lá ficaria a «Carvalhesa» recolhida por Kurt Schindler.
      O arranjo da «Carvalhesa» gravado em 1985 acompanhou a actividade política do PCP em sucessivas campanhas eleitorais, na Festa do «Avante!», cujos palcos sempre abre e encerra e dos quais se tornou verdadeiramente emblemática.
Ruben de Carvalho
Julho de 2001

 
«Carvalhesa» em formato mp3
Pauta «Carvalhesa»
http://www.pcp.pt/carvalhesa-texto-de-ruben-de-carvalho

Friday, September 05, 2014

É a Festa!


Aqui vou respirar melhor nos próximos 3 dias!!!

Friday, August 29, 2014

Monday, August 25, 2014

Pequeno poema


Klimt, Mãe e Filho

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais... Somente, esquecida das dores, a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci, não houve nada de novo senão eu.
As nuvens não se espantaram, não enlouqueceu ninguém...
P'ra que o dia fosse enorme, bastava toda a ternura que olhava nos olhos de minha Mãe...

(Sebastião da Gama)

Monday, August 11, 2014

O teu sorriso


Não me apetece escrever. Atei os dedos uns aos outros e assim não consigo tocar as teclas. Porque não me apetece escrever. Tenho todas as palavras a saltarem-me do peito, mas não tenho o teu sorriso. E sem o teu sorriso não me apetece escrever. Se tu me desses hoje o teu sorriso como o deste ontem e todos os outros dias talvez eu escrevesse. Mesmo que não me lesses, eu escreveria o teu nome e a saudade e o abraço. Assim não me apetece escrever. Hoje não.
Porque não me dás o teu sorriso?

Sunday, August 10, 2014

Música para um domingo


"Compañera"

Duerme sin fin compañera y no sepas lo que pasa.
Duerme tu hijo en el sueño. Duerme sin miedo y sin dueño.
Ayer me daban dinero parra comprar mi silencio,
Por eso mientras tu duermes escribo hoy estos versos.

Muchos piensan que arrendé a los que pagan mi canto.
No les daré desencanto, más les diré lo que di
A los que tienen la plata:
Mucho susto y mucha lata.

No me arrienda la ganancia de mi canto en los salones.
Ni tampoco las razones del que presume pureza.
A mí me infunden tristeza,
Los que juegan de santones.

Me han pinchado por todas partes y por todas partes
Me han criticado el grito. Otros me dan y yo quito,
La importancia a mi guitarra, que las mentiras desdeña
Y a mis verdades se agarra.

Bien señores: se acabó el tiempo del acomodo
Y les he dicho lo que pasa y he sentido. No se ofendan,
no hay motivo, más ninguno se haga el sordo
que todos antes me oyeron y hasta algunos aplaudieron
cuando he cantado al amor.

No se olviden que el dolor, no calla quienes lo hicieron.

No cantaré compañera sino a la carne y al hueso,
Y dejaré las razones a los que saben de eso.
No venderé mi guitarra, no la ganará el silencio, ni el interés,
Ni el desprecio, mi canto...mi canto no tiene precio.

Guarden su oferta señores, están perdiendo su tiempo.
No me importa que se ofendan,
Se equivocaron de tienda,
Porque aquí nada está en venta.

Wednesday, August 06, 2014

Para que nunca mais!



Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária

A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica

Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada


(Vinicius de Moraes)
(foto da net)