Mais de 35 anos depois de ABRIL ainda ouvimos e lemos disto. E esta é tão forte que tem de ficar aqui registada. Não há palavras usáveis para escrever o que sinto. Como é possível?
Yo no voy a decirte que soy un hombre puro. Entre otras cosas falta saber si es que lo puro existe. O si es, pongamos, necesario. O posible. O si sabe bien. ¿Acaso has tú probado el agua químicamente pura, el agua de laboratorio, sin un grano de tierra o de estiércol, sin el pequeño excremento de un pájaro, el agua hecha no más de oxígeno e hidrógeno? ¡Puah!, qué porquería.
Yo no te digo pues que soy un hombre puro, yo no te digo eso, sino todo lo contrario. Que amo (a las mujeres, naturalmente, pues mi amor puede decir su nombre), y me gusta comer carne de puerco con papas, y garbanzos y chorizos, y huevos, pollos, carneros, pavos, pescados y mariscos, y bebo ron y cerveza y aguardiente y vino, y fornico (incluso con el estómago lleno). Soy impuro ¿qué quieres que te diga? Completamente impuro. Sin embargo, creo que hay muchas cosas puras en el mundo que no son más que pura mierda. Por ejemplo, la pureza del virgo nonagenario. La pureza de los novios que se masturban en vez de acostarse juntos en una posada. La pureza de los colegios de internado, donde abre sus flores de semen provisional la fauna pederasta. La pureza de los clérigos. La pureza de los académicos. La pureza de los gramáticos. La pureza de los que aseguran que hay que ser puros, puros, puros. La pureza de los que nunca tuvieron blenorragia. La pureza de la mujer que nunca lamió un glande. La pureza del que nunca succionó un clítoris. La pureza de la que nunca parió. La pureza del que no engendró nunca. La pureza del que se da golpes en el pecho, y dice santo, santo, santo, cuando es un diablo, diablo, diablo. En fin, la pureza de quien no llegó a ser lo suficientemente impuro para saber qué cosa es la pureza.
Punto, fecha y firma. Así lo dejo escrito.
Nicolás Guillén (10 de Julho de 1902 - 16 de Julho de 1989)
Remeto-me ao silêncio. Nenhuma palavra se diz em vão. Não gosto da palavra ironia, não gosto da palavra ódio. Não sei o que é. O mais que consigo sentir é indiferença, talvez desprezo quando me magoam forte e sem razão. Remeto-me ao silêncio. Assumo erros, os que faço. Nunca os que não faço. Assumo tudo o que digo, nunca o que pensam que digo. Sou assim. E não quero ser de outra maneira. Não tenho raiva de ninguém. Remeto-me ao silêncio. Tenho pena, às vezes. E ter pena de alguém é o pior sentimento que se pode ter. Porque é um sentir que não se pode fazer mais nada, uma sensação de impotência frustrante. Da condição humana. Por isso me remeto ao silêncio. Mais uma vez. As que forem precisas. Porque eu não falo! Também não sei o que é a ira. Por isso não entendo as palavras que te jorram pelos dedos. Nem as que vomitas para o papel. Remeto-me ao silêncio. Quando o sangue ferve é aconselhável lavar as mãos com água fria. Para acalmar. Porque cabeça quente não pensa bem. E quando se fala sem pensar fala-se errado. E com ódio. Que é uma palavra de que não gosto, nem sei sentir. Hoje, remeto-me ao silêncio!
Sei de um rio sei de um rio em que as únicas estrelas nele sempre debruçadas são as luzes da cidade
Sei de um rio sei de um rio rio onde a própria mentira tem o sabor da verdade sei de um rio
Meu amor dá-me os teus lábios dá-me os lábios desse rio que nasceu na minha sede mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua vai repetindo e lembrando sei de um rio sei de um rio E a minha boca até quando ao separar-se da tua vai repetindo e lembrando sei de um rio sei de um rio
No dia de hoje não falo de inquietação Falo-te de um rio, fonte de vida Tão pouco falarei da rouca solidão Prefiro dizer-te a palavra sentida que se solta das mãos, talvez sofrida Sei-te homem vagabundo poeta menino Solidário amigo pássaro e jardim Sonho vertigem estrada e peregrino Casa de todos aromas e cores, enfim saberás um dia assim de mim? Rasgo o meu peito em palavras de amor Marés de ir e vir do teu cansaço Na fogueira de lágrimas calamos a dor No silêncio aflito o cheiro a sargaço e no sangue do grito somos o abraço.
Era ele que erguia casas Onde antes só havia chão. Como um pássaro sem asas Ele subia com as asas Que lhe brotavam da mão. Mas tudo desconhecia De sua grande missão: Não sabia por exemplo Que a casa de um homem é um templo Um templo sem religião Como tampouco sabia Que a casa que ele fazia Sendo a sua liberdade Era a sua escravidão.
De fato como podia Um operário em construção Compreender porque um tijolo Valia mais do que um pão? Tijolos ele empilhava Com pá, cimento e esquadria Quanto ao pão, ele o comia Mas fosse comer tijolo! E assim o operário ia Com suor e com cimento Erguendo uma casa aqui Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente Um quartel e uma prisão: Prisão de que sofreria Não fosse eventualmente Um operário em construcão. Mas ele desconhecia Esse fato extraordinário: Que o operário faz a coisa E a coisa faz o operário. De forma que, certo dia À mesa, ao cortar o pão O operário foi tomado De uma súbita emoção Ao constatar assombrado Que tudo naquela mesa - Garrafa, prato, facão Era ele quem fazia Ele, um humilde operário Um operário em construção. Olhou em torno: a gamela Banco, enxerga, caldeirão Vidro, parede, janela Casa, cidade, nação! Tudo, tudo o que existia Era ele quem os fazia Ele, um humilde operário Um operário que sabia Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento Nao sabereis nunca o quanto Aquele humilde operário Soube naquele momento Naquela casa vazia Que ele mesmo levantara Um mundo novo nascia De que sequer suspeitava. O operário emocionado Olhou sua própria mão Sua rude mão de operário De operário em construção E olhando bem para ela Teve um segundo a impressão De que não havia no mundo Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro dessa compreensão Desse instante solitário Que, tal sua construção Cresceu também o operário Cresceu em alto e profundo Em largo e no coração E como tudo que cresce Ele não cresceu em vão Pois além do que sabia - Excercer a profissão - O operário adquiriu Uma nova dimensão: A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu Que a todos admirava: O que o operário dizia Outro operário escutava. E foi assim que o operário Do edifício em construção Que sempre dizia "sim" Começou a dizer "não" E aprendeu a notar coisas A que não dava atenção: Notou que sua marmita Era o prato do patrão Que sua cerveja preta Era o uisque do patrão Que seu macacão de zuarte Era o terno do patrão Que o casebre onde morava Era a mansão do patrão Que seus dois pés andarilhos Eram as rodas do patrão Que a dureza do seu dia Era a noite do patrão Que sua imensa fadiga Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não! E o operário fez-se forte Na sua resolução
Como era de se esperar As bocas da delação Começaram a dizer coisas Aos ouvidos do patrão Mas o patrão não queria Nenhuma preocupação. - "Convençam-no" do contrário Disse ele sobre o operário E ao dizer isto sorria.
Dia seguinte o operário Ao sair da construção Viu-se súbito cercado Dos homens da delação E sofreu por destinado Sua primeira agressão Teve seu rosto cuspido Teve seu braço quebrado Mas quando foi perguntado O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário Sua primeira agressão Muitas outras seguiram Muitas outras seguirão Porém, por imprescindível Ao edifício em construção Seu trabalho prosseguia E todo o seu sofrimento Misturava-se ao cimento Da construção que crescia.
Sentindo que a violência Não dobraria o operário Um dia tentou o patrão Dobrá-lo de modo contrário De sorte que o foi levando Ao alto da construção E num momento de tempo Mostrou-lhe toda a região E apontando-a ao operário Fez-lhe esta declaração: - Dar-te-ei todo esse poder E a sua satisfação Porque a mim me foi entregue E dou-o a quem quiser. Dou-te tempo de lazer Dou-te tempo de mulher Portanto, tudo o que veres Será teu se me adorares E, ainda mais, se abandonares O que te faz dizer não.
Disse e fitou o operário Que olhava e refletia Mas o que via o operário O patrão nunca veria O operário via casas E dentro das estruturas Via coisas, objetos Produtos, manufaturas. Via tudo o que fazia O lucro do seu patrão E em cada coisa que via Misteriosamente havia A marca de sua mão. E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão Não vês o que te dou eu? - Mentira! - disse o operário Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se Dentro do seu coração Um silêncio de martírios Um silêncio de prisão. Um silêncio povoado De pedidos de perdão Um silêncio apavorado Com o medo em solidão Um silêncio de torturas E gritos de maldição Um silêncio de fraturas A se arrastarem no chão E o operário ouviu a voz De todos os seus irmãos Os seus irmãos que morreram Por outros que viverão Uma esperança sincera Cresceu no seu coração E dentro da tarde mansa Agigantou-se a razão De um homem pobre e esquecido Razão porém que fizera Em operário construído O operário em construção.
Vinicius de Moraes (19 de Outubro de 1913 - 9 de Julho de 1980)
Sexta-feira, dia 10. As palavras do Pedro Branco. Quenosunem. As palavras em forma de cantigas, para além da poesia. Sei que vai ser uma noite de muita ternura e muita emoção. Porque o Pedro é assim... Até já, Pedro!
Olho as tuas palavras e vejo-te em cada uma. E sinto-as todas. Leio-te devagarinho desatando cada nó que se faz. E engulo-os todos. Visto a inquietação o sufoco o cansaço a solidão. E abro o meu peito. Deixo-me sossegar no abraço que nos demos. E no rio de que és feito.
Não te oiço nem te vejo. Já nem reconheço o tom da tua voz. Não sei quem és. As tuas palavras chegam-me falsas, sem o prazer ou o amor de outrora. Chegam apenas com dor. Não te dás conta do fim nem entendes. Já não te sinto, já não sei quem és, não te reconheço. Pergunto-me se alguma vez exististe, ou se apenas sonhei. Porque mataste o sonho. Perdi o olhar, perdi a voz. Não falo! E ceguei...
Mar, metade da minha alma é feita de maresia Pois é pela mesma inquietação e nostalgia, Que há no vasto clamor da maré cheia, Que nunca nenhum bem me satisfez. E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia Mais fortes se levantam outra vez, Que após cada queda caminho para a vida, Por uma nova ilusão entontecida.
E se vou dizendo aos astros o meu mal É porque também tu revoltado e teatral Fazes soar a tua dor pelas alturas. E se antes de tudo odeio e fujo O que é impuro, profano e sujo, É só porque as tuas ondas são puras.
Não tenho palavras para ti, hoje apenas as minhas mãos que te afagam o olhar trémulo Não tenho palavras para ti, hoje apenas os meus lábios que se oferecem húmidos de desejo Não tenho palavras para ti, hoje apenas os meus braços esperam os teus para o abraço que queremos dar-nos, e tantos nos demos, em pensamento Mas tenho para ti, hoje no meu olhar uma flor a desabrochar no teu jardim Uma mulher que ama e te deseja ansiosamente Enfim vens e uma onda de ternura cobre-me o corpo que tu vais destapando e suavemente descobrindo num lento movimento de vai e vem para cumprir o amor, por fim...
No dia 1 de Julho encontramo-nos, novamente pelo Gui, desta vez no Restaurante "O Bispo", no Seixal. Às 20.00 horas.
PARA QUE O GUI POSSA ANDAR!
"Eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida e sempre que o Homem sonha o Mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança!"
Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo sonhei tanto a tua figura que é de olhos fechados que eu ando a limitar a tua altura e bebo a água e sorvo o ar que te atravessou a cintura tanto tão perto tão real que o meu corpo se transfigura e toca o seu próprio elemento num corpo que já não é seu num rio que desapareceu onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco
Doce memória do meu tempo de criança Trago viva essa lembrança De pureza e de bonança Passarinho de esperança Lindo laço, firme trança A beleza e a pureza que a divina vida me concedeu
Vida tão solta, voo livre giro salto Rodopio, pé descalço, tendo o céu no meu abraço No quintal a cada passo Nunca soube o que é cansaço Fruta boa em meu regaço Cheiro eterno de Alecrim
Pé de muleque, quebra queixo, artreiro Meu coqueiro, formigueiro Castanha assada, branquinha cocada, Bananada bem queimada Caldo de cana, chuva no telhado, pirulito, mel, melaço Araçá, pitomba doce, goiabada, carambola, fruta-pão
O fino laço dessa nossa história Não vai se desfazer Há tanta essência, cada gesto Criando versos do saber Flores e cores, vento breve, luzes Brisa ao entardecer Dança de folhas, pirilampos Sons da memória do meu ser
Uma Amiga mandou-me este video por mail. Imediatamente me lembrei da canção de Patxi Andión "El Maestro", do filme "Clube dos Poetas Mortos" (oh captain, my captain) e de um outro filme antigo, cujo nome não recordo, mas em que o Professor era o Sidney Poitier. A canção cantada pela Judy Geeson era "To Sir, with love".
No final do ano lectivo, em que todas as lutas valeram a pena, este post é dedicado a todos os professores e educadores que lêem este blog.
Já cantámos as voltas de cada abraço A certeza do beijo e da mão dada Carregando o fruto que é esta jornada Sabemos da força que trazemos no passo
De janela aberta, tua casa feita em nós O doce aroma da poesia A ternura de cada dia O romper inquieto da alegria Onde dança a simplicidade da tua voz
É tempo do sonho, uma nova corrente Caminhar contigo é ser feliz De dentro de tudo o que se faz e diz Ser solidário é ser fonte de gente
(Pedro Branco)
Eu sei que é um post repetido. É apenas para lembrar que HOJE é o último dia para inscrições para o jantar. Para quem ainda não se inscreveu, as marcações poderão ser feitas directamente para a Taverna dos Trovadores, telefone 21 923 35 48.
Meu caro amigo me perdoe, por favor Se eu não lhe faço uma visita Mas como agora apareceu um portador Mando notícias nessa fita
Aqui na terra tão jogando futebol Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita mutreta pra levar a situação Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça E a gente vai tomando e também sem a cachaça Ninguém segura esse rojão
Meu caro amigo eu não pretendo provocar Nem atiçar suas saudades Mas acontece que não posso me furtar A lhe contar as novidades
Aqui na terra tão jogando futebol Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
É pirueta pra cavar o ganha-pão Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro Ninguém segura esse rojão
Meu caro amigo eu quis até telefonar Mas a tarifa não tem graça Eu ando aflito pra fazer você ficar A par de tudo que se passa
Aqui na terra tão jogando futebol Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita careta pra engolir a transação E a gente tá engolindo cada sapo no caminho E a gente vai se amando que, também, sem um carinho Ninguém segura esse rojão
Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever Mas o correio andou arisco Se me permitem, vou tentar lhe remeter Notícias frescas nesse disco
Aqui na terra tão jogando futebol Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
A Marieta manda um beijo para os seus Um beijo na família, na Cecília e nas crianças O Francis aproveita pra também mandar lembranças A todo o pessoal Adeus
Reconheci-te no meio da multidão. De peito rasgado e sangrando. De dor. A solidão tinha tomado conta de ti e a escarpa ali em frente. O precipício. A vertigem. No meio do mar de gente. Abracei-te no meio da travessia. De peito aberto, a cantar. De alegria. A solidão ao lado, doce amante e bela, vestida de branco. A força. A luta. No meio do mar de gente.
Estou cansada do teu silêncio. Quero agarrar o tempo e ele escapa-se entre os dedos, como areia. Invento-me para te encontrar e não sei onde te procure. Estou cansada. De mim, de ti. Do teu silêncio. Vou à nascente do rio e só vejo um rasto, nem sei se teu. Desço pelas margens dos sonhos subo aos montes e volto às margens. Só te sei do cheiro. Que permanece, que me persegue, que me envolve. Ao meu redor o teu silêncio. Tranquilo. Continuo o meu caminho e sei que hei-de chegar, um dia. Não sei quando, mas sei que um dia. Afinal sempre esperámos o tempo que foi preciso. Mas hoje estou cansada do teu silêncio...
Deitada és uma ilha E raramente surgem ilhas no mar tão alongadas com tão prometedoras enseadas um só bosque no meio florescente promontórios a pique e de repente na luz de duas gémeas madrugadas o fulgor das colinas acordadas o pasmo da planície adolescente Deitada és uma ilha Que percorro descobrindo-lhe as zonas mais sombrias Mas nem sabes se grito por socorro ou se te mostro só que me inebrias Amiga amor amante amada eu morro da vida que me dás todos os dias
David Mourão-Ferreira (24 Fevereiro 1927 - 16 Junho 1996)
Está tudo dito no poema acima. O cartaz tem todas as informações necessárias sobre este jantar. Nós, que ouvimos o Rogério quase todas as semanas, vamos jantar com ele, para ele. É assim a Amizade. É assim o Amor. É assim a Solidariedade. Vamos, e levamos Amigos connosco...
De esperas construímos o amor intenso e súbito que encheu as tuas mãos de sol e a tua boca de beijos. Em estranhos desencontros nos amamos. Havia o rio mas sempre ficávamos na margem. Eu tocava o teu peito e os teus olhos e, nas minhas mãos, a tarde projectava as suas grandes sombras enquanto as gaivotas disputavam sobre a água talvez um peixe inquieto, algo que nunca pudemos ver. As nossas bocas procuravam-se sempre, ávidas e macias E por muito tempo permaneciam assim, unidas, Machucando-se, torturando as nossas línguas quase enlouquecidas. Depois olhávamo-nos nos olhos No mais profundo silêncio. E, sem palavras, Partíamos com as mãos docemente amarradas e os corações estoirando uma alegria breve Quando a noite descia apaixonada Como o longo beijo da nossas despedida.
(Joaquim Pessoa) (estarei todo o dia a trabalhar. depois vou respirar para aquele mar lá em cima. e depois volto. logo. fiquem bem.)
Le coeur bien au chaud, les yeux dans la bière Chez la grosse Adrienne de Montalant Avec l'ami Jojo, et avec l'ami Pierre On allait boire nos vingt ans
Jojo se prenait pour Voltaire Et Pierre pour Casanova Et moi, moi qui étais le plus fier Moi, moi je me prenais pour moi
Et quand vers minuit passaient les notaires Qui sortaient de l'hôtel des "Trois Faisans" On leur montrait notre cul et nos bonnes manières En leur chantant
Les bourgeois c'est comme les cochons Plus ça devient vieux plus ça devient bête Les bourgeois c'est comme les cochons Plus ça devient vieux plus ça devient c...
Le coeur bien au chaud, les yeux dans la bière Chez la grosse Adrienne de Montalant Avec l'ami Jojo, et avec l'ami Pierre On allait brûler nos vingt ans
Voltaire dansait comme un vicaire Et Casanova n'osait pas Et moi, moi qui restait le plus fier Moi j'étais presque aussi saoul que moi
Et quand vers minuit passaient les notaires Qui sortaient de l'hôtel des "Trois Faisans" On leur montrait notre cul et nos bonnes manières En leur chantant
Les bourgeois c'est comme les cochons Plus ça devient vieux plus ça devient bête Les bourgeois c'est comme les cochons Plus ça devient vieux plus ça devient c...
Le coeur au repos, les yeux bien sur terre Au bar de l'hôtel des "Trois Faisans" Avec maître Jojo, et avec maître Pierre Entre notaires on passe le temps
Jojo parle de Voltaire et Pierre de Casanova Et moi, moi qui suis resté le plus fier Moi, moi je parle encore de moi
Et c'est en sortant vers minuit Monsieur le Commissaire Que tous les soirs de chez la Montalant De jeunes "Peigne-culs" montrent nos leur derrière En nous chantant
Les bourgeois c'est comme les cochons Plus ça devient vieux plus ça devient bête Les bourgeois c'est comme les cochons Plus ça devient vieux plus ça devient c...
Hoje grito contra a ignorância voluntária. Contra a ignorância de quem tem olhos e não vê. Contra a ignorância de quem deve saber o que faz e prefere ignorar o que se passa à sua volta porque o preconceito é maior. Hoje o meu grito é também contra o preconceito.
Foi naquele momento em que só o amor contou, que tu pacientemente me quiseste, momento em que eu te quis, amor tão desejado momento belo, e profundo, e bonito, o momento em que nos demos calmamente avidamente um ao outro Foi naquele momento em que nos amámos pela primeira vez e este o amanhecer mais bonito da nossa vida E esse foi o momento...
If I had a hammer I'd hammer in the morning I'd hammer in the evening All over this land I'd hammer out danger I'd hammer out a warning I'd hammer out love between my brothers and my sisters All over this land
If I had a bell I'd ring it in the morning I'd ring it in the evening All over this land I'd ring out danger I'd ring out a warning I'd ring out love between my brothers and my sisters All over this land
If I had a song I'd sing it in the morning I'd sing it in the evening All over this land I'd sing out danger I'd sing out a warning I'd sing out love between my brothers and my sisters All over this land
Well I've got a hammer And I've got a bell And I've got a song to sing All over this land It's the hammer of justice It's the bell of freedom It's the song about love between my brothers and my sisters All over this land
La vida no vale nada si no es para perecer porque otros puedan tener lo que uno disfruta y ama. La vida no vale nada si yo me quedo sentado después que he visto y soñado que ne todas partes me llaman. La vida no vale nada cuando otros se están matando y yo sigo aqui cantando cual si no pasara nada. La vida no vale nada si escucho un grito mortal y no es capaz de tocar mi corazón que se apaga. La vida no vale nada si ignoro que el asesino cogió por otro camino y prepara una celada. La vida no vale nada si se sorprende otro hermano cuando supe de antemano lo que se le preparaba. La vida no vale nada si cuatro caen por minuto y al final por el abuso se decide la jornada. La vida no vale nada si tengo que posponer otro minuto de ser y morirme en una cama. La vida no vale nada si en fin lo que me rodea no puedo cambiar qual fuera lo que tengo y me ampara. Y por eso para mi la vida no vale nada.
Cansei-me de te ouvir falar de amor. Cansei-me de te ouvir dizer que amas. Não. Tu não amas, tu queres ser dono de quem dizes que amas. Não busques mais palavras porque não vale a pena. As pessoas não são propriedade de ninguém, e a maior prova de amor é exactamente a liberdade que tu não dás, nem sequer admites. Não és dono de ninguém. Tu estás doente. As constantes e insistentes palavras que escreves ou dizes já não prendem ninguém, nem convencem ninguém. O amor tem que ser igual para os dois lados, não como tu queres. Sentes-te a perder terreno, e é verdade. Deixa-me que te diga que, se não parares para pensar, vais perder o pouco que ainda resta do amor, que já foi tão grande, e que foste matando, sem saber, devagarinho...
Em nome dos nossos braços em nome das nossas mãos em nome de quantos passos deram os nossos irmãos. Em nome das ferramentas que nos magoaram os dedos das torturas das tormentas das sevícias dos degredos. Em nome daquele nome que herdámos dos nossos pais em nome da sua fome dizemos: não passam mais!
E em nome dos milénios de prisão adicionada em nome de tantos génios com a voz amordaçada em nome dos camponeses com a terra confiscada em nome dos Portugueses com a carne estilhaçada em nome daqueles nomes escarrados nos tribunais dizemos que há outros nomes que não passam nunca mais!
Em nome do que nós temos em nome do que nós fomos revolução que fizemos democracia que somos em nome da unidade linda flor da classe operária em nome da liberdade flor imensa e proletária em nome desta vontade de sermos todos iguais vamos dizer a verdade dizendo: não passam mais!
Em nome de quantos corpos nossos filhos foram feitos. Em nome de quantos mortos vivem nos nossos direitos. Em nome de quantos vivos dão mais vida à nossa voz não mais seremos cativos: o trabalho somos nós. Por isso tornos enxadas canetas frezas dedais são as nossas barricadas que dizem: não passam mais!
E em nome das conquistas vindas dos ventos de Abril reforma agrária controlo operário no meio fabril empresas que são do estado porque o seu dono é o povo em nome de lado a lado termos feito um país novo. Em nome da nossa frente e dos nossos ideais diante de toda a gente dizemos: não passam mais!
Em nome do que passámos não deixaremos passar o patrão que ultrapassámos e que nos quer trespassar. E por onde a gente passa nós passamos a palavra: Cada rua cada praça é o chão que o povo lavra. Passaremos adiante com passo firme e seguro. O passado é já bastante vamos passar ao futuro.
É da outra margem que observo o sonho em silêncio… Escondo-me num segredo só meu, que talvez, talvez um dia seja também teu. É dessa mesma margem que imagino os passos do castelo e as intempéries que afagam os rostos das casas, e nem me esqueço das pessoas que durante décadas atravessaram este nosso Tejo. (Onde me encontro e desencontro). E esta margem, agora minha, que por estes instantes, estende o seu olhar pelo meu corpo pelo meu desejo e até pela cidade que se agiganta mesmo aqui ao lado… Esta margem que é um lugar de partilha, partilha dos segredos dos acontecimentos esta margem que absorve-me encanta-me e nunca me diz não! Volto sempre em silêncio em segredo para sentir… E sinto mesmo, sinto o meu sonho a sorrir…
Sei como é este lado da viagem. E é deste lado que quero estar. As tuas palavras sufocam-me, de tão intensas. E leio-te com ternura. A inquietude das tuas águas chama o meu nome. E eu vou, sempre. Dás-te conta que é o tempo em que preciso de ti. Para respirar.
Deixa que me repita neste choro de amar e sofrer. Vira-te pra mim se da minha voz sair apenas o silêncio. Sabe a sal o vermelho do meu sangue, de tantas lágrimas engolidas. Mesmo assim sorrio. E dos meus olhos saem pérolas de ternura. Diz-me que posso acordar em ti. Por ti. Por nós. Porque quando adormecer tudo acaba...
Até quando te calarás, povo? Até quando te quedarás irresoluto? Até quando te verei receoso? Até quando serás ingénuo? Até quando escutarás os pregadores que exploram a tua inefável candura? Mestres e guias infalíveis...? Há-os de voz potente e de botas ferradas; há-os mais suaves, até angélicos e muito sábios... Há os que usam, com palavras demasiado escolhidas, a tua língua. Joeira, povo, com uma peneira finíssima e esfrega a pele nos cardos que te rodeiam até que a dor se torne insuportável, até sentires a dor soar como um clarim de combate.
Os olhos dos camponeses São fogos na madrugada, Os olhos dos camponeses São fogos na madrugada.
Mal o seu corpo tombou A noite ficou cerrada, A noite ficou cerrada.
Tiros soaram longe No silêncio da campina, Tiros soaram longe No silêncio da campina.
Rosa de sangue brotou Dos seios de Catarina, Dos seios de Catarina.
Maduro se fez o trigo Em terra sem ser regada, Maduro se fez o trigo Em terra sem ser regada.
Quem no sangue semeou Há-de colher uma espada, Há-de colher uma espada.
Os olhos dos camponeses São fortes na madrugada, São fortes na madrugada.
(António Ferreira Guedes)
UNIDOS, CAMARADAS
Cala-te amigo Ouve... é a flor do trigo Chorando Catarina assassinada Cala-te amigo Nós não somos flor de trigo Choremos doutro modo camarada
Que sejam nossas lágrimas passadas de firmeza No posto de combate dos nossos ideais Rumo à vitória até que não haja nunca mais Quadrilhas de assassinos na terra portuguesa
Cala-te amigo! Forjemos na unidade De Catarina o sonho de rutila beleza Um Portugal feliz em paz e liberdade
(Eduardo Valente da Fonseca)
(este post estava pre-programado. A net portátil não me deixa visitar-vos a todos... Já não falta muito para voltar.)
Trago no peito um peso de carregar com a vida. Mas hoje senti-me pássaro. Embebedo-me com o cheiro das flores dos jardins. Bebo da água cristalina que jorra da fonte. De repente o vento. Forte e arrastando quase tudo pelo caminho. Menos as flores, que teimosamente resistem. Como nós...
Despierta niño, arriba, que llega el alba Despierta niño, arriba, que espera España. Que espera España, sí, te está esperando, el tiempo es tu aliado, y se está acabando.
Levántate, comienza la soldadura, entre la España quieta y la del hierro, entre la de los llanos, la de altura, entre la del taller y la del rezo.
Levanta, carga, suena, ausculta y salva, escribe, canta, cuenta, potencia y anda. Que hay una España gris que se nos muere y otra que resucita, como de nieve.
Despierta niño, arriba con la esperanza, que la España del chiste hay que enterrarla, que está cantando el gallo la madrugada y hay una España nueva que te reclama, que hay una España nueva que te reclama.
Perdi-me ao descer as escarpas da noite. Nem a lua para me orientar. Apenas um som longínquo de um piar de uma gaivota. Desci mais um pouco. De repente um cheiro familiar. O teu. E uma onda a rebentar...
Eu quero uma casa no campo Onde eu possa compor muitos rocks rurais E tenha somente a certeza Dos amigos do peito e nada mais Eu quero uma casa no campo Onde eu possa ficar no tamanho da paz E tenha somente a certeza Dos limites do corpo e nada mais Eu quero carneiros e cabras pastando solenes No meu jardim Eu quero o silêncio das línguas cansadas Eu quero a esperança de óculos Meu filho de cuca legal Eu quero plantar e colher com a mão A pimenta e o sal Eu quero uma casa no campo Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé Onde eu possa plantar meus amigos Meus discos e livros E nada mais
Pode o amor ser apenas um momento intensamente vivido sofrido chorado Pode o caminho ser íngreme e duro o difícil é fácil se a dois caminhado Pode o rio mudar o rumo e nascer na foz percorrer os montes e no silêncio desaguado Podemos dar-nos as mãos e assim abraçados Caminhar para o futuro sem esquecer o passado...
Belo é "o amor feito caminho em nós, no silêncio"...
O meu jardim tem árvores relva flores e um lago. E uma casa. Quando me passeio por lá olho as flores e vejo-as crescer, a cada dia. Agora os cravos. A relva amacia-me os pés descalços e o aroma enche-me os pulmões. Terra-mãe. As árvores são partes de mim plantadas há muito tempo, que cresceram frondosas e me abrigam. Um colo. Há árvores com muitos anos, outras com menos, mas todas igualmente bonitas. Ouvem-me. Duas são especiais. Uma enorme e outra mais pequena. Estão perto do lago e abraço-as.A minha casa. O meu jardim tem todos os aromas e todas as cores. De todas as flores. Há um canteiro diferente, ao pé do lago e perto das duas árvores. De cravos semeado. Já nascidos. Mesmo ao lado um outro canteiro tem uma flor prestes a rebentar. De aroma diferente. No lago do meu jardim está ancorado um barco, que me espera. Entro e remo por entre chorões e nenúfares e patos e cisnes. E há peixes que se escapam. Toda a noite remei. À espera. Ao fim da manhã atraco o barco e vou ao canteiro ver da flor. Já nasceu. É filha do amor e da poesia. É uma Margarida e cheira a bébé…
Menina de tantos olhos Amor espumado de ti Regaço de tantos colos Grito gritado, sim Amigo ponte barco mão Rio inteiro e sua margem Infinita ternura no coração Desejo de sangue, estrada e viagem Abraço Abril nosso. Quente. Sempre.
Durante uma festa de arromba, com a nata dos políticos e diplomatas presentes no País, o anfitrião, milionário alemão, já meio tocado, fez-se ouvir para anunciar:
- Eu queria dizer uma coisa... a minha piscina é mágica!!!
Todos, pensando que era delírio do dono da casa, começaram a rir.
Nisto, o dono da casa começa a correr, dá um pulo para a piscina e grita: - CERVEJA!!!
A água muda para cerveja, o tipo vai nadando, vai bebendo e, ao sair do outro lado, a piscina volta ao normal.
O Embaixador italiano, estupefacto com o que estava a presenciar, corre também, dá um salto e grita: - VINHO!!!
E a água transforma-se em vinho. Ele nada, sai do outro lado e, novamente, a piscina volta ao normal.
O Adido francês vai, dá um pulo para dentro da piscina e grita: - CHAMPAGNE!!!
E a água muda para champanhe. Quando sai do outro lado a piscina volta ao normal.
José Sócrates, vibrando de emoção com o que está a acontecer no seu Portugal, corre também para a piscina. Quando já vai no ar, o Armando Vara, seu amigo de infância, diz-lhe: - Cuidado Zé, tens o telemóvel no bolso!!!
Para além dos montes cruzei-me com o teu cansaço. Um rio cristalino na fonte, que engrossava à medida que descia montes abaixo. Até à foz. Até ao mar, onde desaguam todos os amores e todos os cansaços. Acompanhei-o ao longo da margem mais bonita do rio, cheia de flores e árvores onde os pássaros chilreavam e o sol tentava aquecer a terra. Depressa cheguei à foz. E no meu desaguar ouvi uns acordes de viola. Alguém tocava. Foi logo a seguir que ouvi a tua voz...
provocador ordinário xico esperto traidor verme provocador cobra venenoso não colou traidor mentiroso repugnante jorras pus pelos olhos despudorado desonesto putrefacto nojento traidor esperteza saloia idiota réptil pestilento ordinário virulento vómito fétido pútrido espeta pregos javardo desonesto traidor cheiras mal da boca ordinário cadáver adiado bocarra aberta repugnante sem-vergonha despudorado provocador traidor desonesto malvada a hora em que a tua mãe abriu as pernas para que pudesses sair
NÃO PASSAM MAIS Em nome dos nossos braços em nome das nossas mãos em nome de quantos passos deram os nossos irmãos. Em nome das ferramentas que nos magoaram os dedos das torturas das tormentas das sevícias dos degredos. Em nome daquele nome que herdámos dos nossos pais em nome da sua fome dizemos: não passam mais! E em nome dos milénios de prisão adicionada em nome de tantos génios com a voz amordaçada em nome dos camponeses com a terra confiscada em nome dos Portugueses com a carne estilhaçada em nome daqueles nomes escarrados nos tribunais dizemos que há outros nomes que não passam nunca mais! Em nome do que nós temos em nome do que nós fomos revolução que fizemos democracia que somos em nome da unidade linda flor da classe operária em nome da liberdade flor imensa e proletária em nome desta vontade de sermos todos iguais vamos dizer a verdade dizendo: não passam mais! Em nome de quantos corpos nossos filhos foram feitos. Em nome de quantos mortos vivem nos nossos direitos. Em nome de quantos vivos dão mais vida à nossa voz não mais seremos cativos: O trabalho somos nós. Por isso tornos enxadas canetas fresas dedais são as nossas barricadas que dizem: não passam mais! E em nome das conquistas vindas nos ventos de Abril reforma agrária controlo operário no meio fabril empresas que são do estado porque o seu dono é o povo em nome de lado a lado termos feito um país novo. Em nome da nossa frente e dos nossos ideais diante de toda a gente dizemos: não passam mais! Em nome do que passámos não deixaremos passar o patrão que ultrapassámos e que nos quer trespassar. E por onde a gente passa nós passamos a palavra: Cada rua cada praça é o chão que o povo lavra. Passaremos adiante com passo firme e seguro. O passado é já bastante vamos passar ao futuro. (Ary dos Santos)